Bauru e grande região

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Voz forte que encanta e encara desafios

Cantora Katia Castilho conta curiosidades de sua trajetória, planos para este ano e como enfrenta preconceitos e estereótipos trabalhando "na noite"

por Ana Beatriz Garcia

17/01/2021 - 05h00

Divulgação

Kátia Castilho anima as noites em Bauru e região ao som do sertanejo e demais ritmos dançantes

A inspiração maior vem das vozes brilhantes de Chitãozinho e Xororó, mas no coração o batuque do pagode também tem lugar reservado. E por mais estranho que possa parecer, espaço ainda maior ocupa a banda estadunidense Backstreet Boys, sucesso dos anos 1990. Essa miscelânea musical diz muito sobre a cantora Kátia Castilho, 38 anos, dona de um grave marcante e que brilha nas noites de Bauru e região com repertório predominantemente sertanejo - mas estilos variados integram sua playlist.

Crescida em um lar musical, Kátia Castilho acompanhou desde cedo a carreira e as composições do pai, o cantor e compositor Jotha Luiz Castilho, autor de "Rédeas do Possante", interpretada por Zezé Di Camargo e Luciano, "Passa Lá", com Trio Parada Dura, e "Bobeou a Gente Pimba", que também fez sucesso com o Trio Parada Dura e foi regravada por Edson e Hudson. Também o irmão, Cristiano Castilho, do Grupo Sereno, serviu de referência para a menina tímida que descobriu na juventude que amava cantar.

Hoje, a menina tímida já há muito tempo deu lugar à mulher forte e persistente que gerencia sua carreira integralmente. Nesta Entrevista da Semana, a artista, que reúne mais de 10 mil seguidores em suas redes sociais, conta curiosidades de sua trajetória, os planos para este ano e como enfrenta preconceitos e estereótipos por ser mulher, trabalhar "na noite" e administrar , sozinha, sua arte no ramo sertanejo. Confira a entrevista:

JC - O que mais marcou a sua infância?

Kátia Castilho - Eu nasci em São Paulo, mas vim aos 9 anos para Bauru. Morei a vida inteira no Jardim Prudência e foi nessa época que aprendi a brincar na rua, andar de bicicleta, enfim, curtir coisas que não tinha costume de fazer na Capital.

JC - Já pensava em música, na época?

Kátia - Eu era uma criança muito calma, tímida, não era arteira. Mas lembro que ficava horas sozinha em um quartinho que temos no fundo de casa ouvindo música, cantando para mim e dançando. Acho que fui me soltando nessa brincadeira de dançar e cantar.

JC - Como você soube que gostava mesmo de cantar?

Kátia - Eu tinha uns 15 anos e aprendi as vozes de uma música da Daniela Mercury. Lembro que fui mostrar para o meu irmão mais velho, que já tinha um grupo de pagode. Ele disse que o jeito estava certo, e isso me motivou. Quando comecei, ouvia muito pagode - que é uma paixão -, Ivete Sangalo e Backstreet Boys. Sou muito fã deles até hoje. Como meu pai é compositor, sempre tive essa vivência musical em casa. Quando passei a querer cantar, no final de 1999, meu irmão me chamou para ser backing vocal do Grupo Sereno, do qual participava. Assim, comecei minha carreira, sempre apoiada pela minha mãe, uma grande parceira.

JC - Ficou quanto tempo com eles?

Kátia - Passei 7 anos com o Sereno, depois fui para o Grupo Amigos S.A., ainda como backing, e só em 2015 comecei minha carreira solo.

JC - Falamos de música, mas você teve outras atuações profissionais?

Kátia - Sim. Eu cursei Publicidade e Propaganda na FIB. E estagiava, desde o segundo ano de curso, em uma agência. Trabalhei por 14 anos seguidos em várias, sempre conciliando com os shows na noite. Era difícil ter de faltar às aulas nas sextas-feiras e, depois de formada, dormir tarde e acordar cedo para trabalhar, mas nunca "furei" com nenhum dos meus compromissos. No começo de 2019, passei a me dedicar exclusivamente para música.

JC - E como vem sendo essa nova fase?

Kátia - É muito melhor para a minha dedicação, mas a pandemia mudou muita coisa. Pensei que 2020 fosse ser diferente e vimos o que aconteceu. Passei um período bem triste, de março a agosto sem shows, apenas com uma live que fiz a convite da Brahma - o que foi muito importante. Comecei a voltar aos poucos e, mas é bem diferente. Sinto falta do público poder interagir e dançar.

JC - E os planos para este novo ano?

Kátia - Pretendo lançar meu DVD ao ar livre, com autorais e covers, para o YouTube e plataformas digitais. Tenho o trabalho "Me Valoriza Brasil", no meu canal, mas esse novo projeto será diferente.

JC - Quem são as suas principais influências musicais?

Kátia - Sem dúvidas, Chitãozinho e Xororó. Por conta do duo. Já tentei ter uma dupla, mas não deu certo e segui sozinha, mas eu gosto muito.

JC - O que acha do espaço conquistado pelas mulheres na cena sertaneja?

Kátia - Eu me senti muito representada. Sempre bom ver que outras mulheres conseguiram chegar lá. Gosto muito da Marília Mendonça e da Mariana Fagundes. Mas também vejo que, regionalmente falando, não é bem assim. Não há muita abertura para novos nomes e, até nacionalmente, parece ter parado de surgir novas cantoras no segmento. Como eu gerencio minha carreira, percebo o preconceito quando vou fechar shows, em alguns aspectos. Muitos artistas de fora têm mais privilégios.

JC - Falando em preconceito, comente um pouco da sua experiência enquanto mulher trabalhando "na noite" como cantora.

Kátia - É muito bom poder falar isso aqui. A maior parte dos contratantes é homem e muitos não acham que você tem capacidade de fazer um show legal, dançante e "pra cima". Preferem homens ou duplas. Além disso, já aconteceu do contratante ir me pagar e me cantar. Ou até, quando fecha o show com você, já fala alguma coisa que não é profissional e não seria dito se fosse para um homem. Também com a plateia, a gente percebe que tem gente que pensa que, por eu ser mulher e trabalhar "na noite", eu "não presto" ou estou disposta a outras coisas. As pessoas acham que tem mais liberdade para não serem tão profissionais.

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