Bauru e grande região

 
Entrevista da semana

'Eu não enxergo números. Eu enxergo pessoas'

A diretora do Adolfo Lutz, em Bauru, um dos responsáveis pelo diagnóstico da Covid-19, fala sobre trabalho, trajetória e rotina atual

por Cinthia Milanez

21/06/2020 - 05h00

Aceituno Jr.

Virgínia Bodelão Richini Pereira: "O laboratório é o local em que me sinto mais segura, porque nós usamos todos os EPIs necessários"

Saiu de Cerqueira César, cidade próxima a Avaré, uma das figuras mais requisitadas pelos representantes de 38 municípios da região de Bauru nesta pandemia. Afinal, ela coordena o Instituto Adolfo Lutz local, responsável pelo diagnóstico da Covid-19 via SUS, ao lado da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) e do Lauro de Souza Lima. Virgínia Bodelão Richini Pereira, de 40 anos, fica cara a cara com o vírus diariamente, mas revela que o laboratório é o local em que se sente mais segura. Por lá, a cada novo teste da doença, ela garante que não vê apenas números. "Eu enxergo pessoas. A doença está muito próxima", relata a bióloga, que viu a sua rotina ficar "cinco vezes mais corrida" nos últimos meses.

A pós-doutora estudou em escola pública desde que se conhece por gente até o seu último grau de instrução. Além disso, ela vê a testagem em massa como a forma mais eficiente para combater a pandemia do novo coronavírus.

Abaixo, Virgínia fala sobre a sua rotina por trás da bancada do laboratório, que emite 200 laudos por dia, inclusive, aos finais de semana. Confira alguns trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - De que forma o seu conhecimento tem ajudado a enfrentar a pandemia do novo coronavírus?

Virgínia Bodelão Richini Pereira - Eu estudei a minha vida inteira em escola pública. Ingressei em Biologia na Unesp, em Bauru. Em seguida, fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado na Unesp, em Botucatu. Parte deste último curso eu realizei na Universidade de Alcalá, na Espanha. Tudo envolvendo doenças de interesse da saúde pública.

JC - De onde surgiu a vocação por esta área da Biologia?

Virgínia - No início da graduação, eu já estudei as doenças. Comecei com aquelas existentes em animais silvestres mortos por atropelamento. Em 2012, entrei no Adolfo Lutz, em Bauru, onde continuo trabalhando com algumas condições que afetam os animais, principalmente, a leishmaniose. Também atuo junto às doenças humanas, como dengue, zika e, agora, Covid-19.

JC - A senhora leciona?

Virgínia - Já lecionei para os ensinos Fundamental e Médio, ligados ao governo estadual. Atualmente, só dou aula para a pós-graduação da Unesp, em Botucatu.

JC - Como era a sua rotina antes da pandemia do coronavírus?

Virgínia - Eu já trabalhava nesta linha de pesquisa. Eu lia bastante e orientava os estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado. Nunca imaginei que a minha rotina ficaria cinco vezes mais corrida, como nos últimos três meses.

JC - Os testes feitos pelo Lutz, FOB/USP e Lauro de Souza Lima podem ser considerados 'padrão ouro'?

Virgínia - Sim. Tanto que o Lutz local só começou a analisar as amostras em 13 de abril deste ano. Até então, elas eram enviadas à Capital Paulista. Nós iniciamos com os casos graves, os óbitos e os profissionais da saúde. Desde o dia 25 de maio, ampliamos para os profissionais da segurança, da limpeza pública, do sistema funerário e do transporte público, além de pessoas com mais de 60 anos, cardiopatas graves ou descompensados, pneumopatas graves ou descompensados, doentes neurológicos, obesos, renais crônicos, imunodeprimidos, diabéticos, gestantes de alto risco, portadores de doenças cromossômicas, população em situação de vulnerabilidade social e casos suspeitos em instituições fechadas.

JC - A demanda pelos exames da Covid-19 aumentou e vocês não podem parar com os demais testes. A equipe está dando conta de tudo?

Virgínia - Nós também somos responsáveis pelo diagnóstico de dengue, tuberculose, meningite, HIV e sífilis. Existe, ainda, outro setor que trabalha em conjunto com a Vigilância Sanitária, analisando água, alimentos e leite materno. Mesmo com uma equipe reduzida, estamos nos esforçando para dar conta do recado. Faço uma avaliação muito positiva do nosso desempenho. Tanto que, geralmente, os resultados dos exames da Covid-19 ficam prontos dentro de 24 horas.

JC - A sua equipe, atualmente, é formada por quantas pessoas?

Virgínia - No Centro Regional do Adolfo Lutz, em Bauru, contamos com 40 profissionais divididos em três setores: Núcleo Técnico-Operacional, Ciências Biomédicas, bem como Ciências Químicas e Dermatológicas. Os testes da Covid-19 são feitos por uma equipe especializada em Influenza, ligada à segunda área citada, que abriga em torno de 18 trabalhadores. Eu, por exemplo, já cheguei a ir para a bancada, afinal, tenho experiência em Biologia Molecular.

JC - Como tem sido a sua rotina agora?

Virgínia - Eu entro às 8h, mas o meu telefone toca o dia inteiro. Os representantes de vários municípios da região [o Lutz local atende Bauru e outras 37 cidades] me ligam cobrando laudos e eu preciso atender. Fico quase 24 horas à disposição deles, inclusive, aos finais de semana.

JC - Tem algum hobby?

Virgínia - Eu e o meu marido não temos filhos. Nós gostávamos de viajar e frequentar festas, bares com música ao vivo etc. Agora, tentamos nos divertir em casa mesmo.

JC - A sua rotina é bastante atribulada. Quando preenche os laudos, a senhora vê números ou pessoas?

Virgínia - Eu nasci em Cerqueira César e, desde o início da pandemia, não vejo a minha mãe e a minha avó, que tem 97 anos. Uma colega da minha mãe, de 84, se infectou. Portanto, eu enxergo pessoas. A doença está muito próxima.

JC - E como a senhora se previne?

Virgínia - Na porta de casa, coloquei um tapete sanitizante, onde limpo os pés. Quando entro, tiro toda a roupa. O laboratório é o local em que me sinto mais segura, porque nós usamos todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários. Na rua, a coisa complica. Eu até parei de ir ao supermercado. Só faço compras pelo delivery.

JC - Quais equipamentos vocês utilizam?

Virgínia - O nosso laboratório é NB2 de segurança. Ele abriga uma cabine que renova o ar. Lá, os funcionários também usam aquela máscara N95, protetor facial, avental grosso, luvas, touca e propé, uma espécie de revestimento para os sapatos. Saindo deste local, retiramos os EPIs. Existem outras salas que não exigem tanta proteção, como aquela onde analisamos o RNA extraído do vírus. O material, neste estágio, não mais possui o poder de infecção. Para avaliá-lo, basta colocar máscara cirúrgica, jaleco, touca e luvas. Os itens evitam a contaminação das amostras.

JC - Quantas amostras o Lutz local já analisou?

Virgínia - Mais de 5 mil. Nós conferimos e distribuímos as amostras para a FOB/USP, bem como para o Lauro de Souza Lima. No Lutz, começamos com 100 por semana e, depois, passamos para 100 por dia. Atualmente, emitimos 200 laudos diários.

JC - Por fim, qual é a mensagem que a senhora deixa aos profissionais da saúde?

Virgínia - A turma da 'linha de frente' merece respeito e precisa ser valorizada, porque está cara a cara com os pacientes.

O QUE DIZ A GESTORA

“Nunca imaginei que a minha rotina ficaria cinco vezes mais corrida, como aconteceu nos últimos três meses”

“Mesmo com uma equipe reduzida, estamos nos esforçando para dar conta do recado”

“A turma da ‘linha de frente’ merece respeito e precisa ser valorizada, porque está cara a cara com os pacientes”

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