Bauru e grande região

 
Entrevista da semana

A sua missão é juntar as peças dos homicídios

O titular da DIG e da Delegacia de Homicídios, em Bauru, conta como teve contato com a Polícia Civil já na infância e detalha o passo a passo de uma investigação

por Cinthia Milanez

05/07/2020 - 05h00

Aceituno Jr.

Cledson Nascimento, que se coloca como policial "25 horas por dia", conta que já chegou até a morar em delegacia e faz questão de ressaltar o trabalho da sua equipe

Filho da dona de casa Antonieta e do escriturário Cisenando (já falecido), Cledson Luiz do Nascimento conheceu a Polícia Civil ainda criança, porque morava a duas quadras do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 4 (Deinter 4), no Bela Vista, em Bauru. Hoje, aos 43 anos, ele é titular da 3.ª Delegacia de Homicídios e da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), vinculadas ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) de Bauru, órgãos que, por coincidência ou não, respondem diretamente à instituição vizinha da sua antiga residência.

Bom de conversa e sempre solícito à imprensa, o delegado desempenha um trabalho instigante ao imaginário de muitos. Ele tem como missão juntar as peças de "quebra-cabeças mortais" e, com o auxílio da sua equipe, solucionar homicídios e latrocínios, além de roubos.

Mesmo com a rotina atribulada, fazendo com que atendesse três ligações no decorrer desta entrevista, Cledson, que se diz policial "25 horas por dia", encontrou tempo para falar sobre a carreira, os momentos difíceis - até de morar dentro da delegacia - e, claro, a atuação da Polícia Civil local na resolução dos crimes considerados mais graves. Confira alguns trechos da conversa:

Jornal da Cidade de Bauru - O desejo de ser policial surgiu ainda na infância?

Cledson Luiz do Nascimento - Eu sou de Bauru. Nasci no Bela Vista, na rua 12 de Outubro, a duas quadras do Deinter 4. Logo, conheci a Polícia Civil ainda na infância. Além disso, o doutor Cardia, cujo filho era o meu amigo enquanto criança, frequentava a nossa vizinhança, porque tinha um compadre que vivia por lá.

JC - O senhor estudou em Bauru?

Cledson - Sim. Eu estudei na Escola Estadual Torquato Minhoto, no Bela Vista. Depois, passei pelo CTI, na Unesp. Nesta época, queria cursar Engenharia. Concomitantemente, fiz Senai e cheguei a trabalhar como ferramenteiro. Só que o meu irmão, o Cisenando (mesmo nome do pai), que é 14 anos mais velho do que eu, sugeriu o Direito, argumentando que a carreira oferecia um campo muito amplo. Em 1995, passei em Direito, na ITE.

JC - Quanto tempo depois de formado o senhor começou a atuar junto à Polícia Civil?

Cledson - Fui estagiário da Cesp já com o concurso de delegado em andamento. Eu me formei em 1998 e entrei para a Polícia Civil em 1999, quando tinha só 23 anos. Na época, me designaram para trabalhar na Capital Paulista, especificamente, no 37.º DP, em Campo Limpo, uma região bastante complicada, afinal, apresentava um índice de criminalidade muito alto.

JC - Como retornou a Bauru?

Cledson - Como São Paulo nunca foi a minha cidade, eu dobrava os plantões para ficar alguns dias em Bauru, onde conheci a minha esposa, a Ana Carolina. Nós nos casamos e continuei trabalhando na Capital neste mesmo esquema, porque não queríamos construir a vida por lá. Em 2005, depois de três tentativas frustradas de voltar ao Interior, consegui uma vaga em Herculândia, que fica ao lado de Tupã. Morei na delegacia, porque não tinha condições de alugar um imóvel na cidade. O meu primeiro elogio no Diário Oficial, inclusive, ocorreu depois que esclareci um latrocínio naquele município. Em 2007, comecei a atuar em Arealva e a minha vida ficou bem mais tranquila. Em 2008, assumi como delegado assistente da DIG, em Bauru, onde fiquei até 2013. Depois, me chamaram para ser titular da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes). Em 2016, voltei para a DIG como titular e não mais deixei o cargo. Hoje, acumulo tal função com a coordenação da 3.ª Delegacia de Homicídios. Ninguém faz sucesso sozinho. Por onde passei, trabalhei com equipes competentes, focadas e engajadas.

JC - O senhor já viu muita coisa na sua carreira. Qual foi o caso mais emblemático?

Cledson - Eu me recordo do crime que vitimou a Vitória [Graziele Fernandes], uma menina de 6 anos que foi sequestrada, abusada, queimada e morta. Na época (maio de 2012), estava na DIG e já tinha a minha filha, a Júlia. Chocou muito e me fez pensar em como o ser humano consegue ser tão cruel.

JC - Em situações como esta, como o senhor consegue manter a objetividade?

Cledson - Nós não podemos ver o suspeito como um inimigo. Se ele cometeu qualquer delito, por mais grave que seja, precisa responder através do devido processo legal. Não sou justiceiro, mas delegado. E o meu papel é buscar a verdade ou aquilo que chegar mais perto disso.

JC - Como o senhor tira a violência da cabeça na hora em que chega em casa?

Cledson - Eu não consigo me desligar do meu trabalho. Agora, com estes recursos tecnológicos, ficou ainda pior. Porém, entendo que, quando estou em ambiente familiar, não devo passar determinadas emoções. Mesmo assim, elas acabam escapando, mas a minha esposa é muito compreensiva.

JC - O senhor comentou que os recursos tecnológicos fazem com que leve ainda mais trabalho para casa. Por outro lado, eles também ajudam a polícia a elucidar os crimes?

Cledson - Cada vez mais, os recursos tecnológicos auxiliam qualquer investigação, se bem utilizados. Só que falta um pouco mais de colaboração das empresas com a polícia. A criptografia, por exemplo. É necessário certo investimento para quebrá-la e muitas não estão dispostas a tanto.

JC - Como é a investigação de homicídio?

Cledson - Enquanto professor da Academia de Investigação Criminal, posso afirmar que qualquer investigação é baseada no tripé lei, ciência e lógica. O homicídio propriamente dito é o único crime que ninguém pode dizer que jamais cometerá. Você está na sua residência, um indivíduo entra e você bate na cabeça dele com uma panela, fato que leva à morte do criminoso. Mesmo em legítima defesa, não deixa de ser assassinato. Na investigação, o primeiro passo é preservar o local, que pode abrigar os vestígios do autor. Depois, você precisa conhecer o perfil da vítima para chegar até o criminoso: verificar se tinha inimizades, vícios, relacionamentos extraconjugais etc. Assim, você junta peça por peça até montar o quebra-cabeça.

JC - Com a pandemia, o trabalho da Polícia Civil mudou? De que forma?

Cledson - Tivemos que abrir mão dos colegas do grupo de risco. Alguns se afastaram e outros estão em teletrabalho. Paralelamente, o Tribunal de Justiça determinou que as Varas expedissem mandados de busca só em casos extremos. Tudo isso comprometeu a produtividade.

JC - O atual cenário contribui para a redução de crimes contra a vida?

Cledson - A pandemia não segura um assassino. Com as pessoas em casa, aumentaram as ocorrências envolvendo violência doméstica, por exemplo, que podem evoluir para um homicídio.

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