Bauru

Entrevista da semana

Uma vida dedicada a estudar seres de milhões de anos

Presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, professor da Unesp de Bauru coleta fósseis pela América Latina e ajuda a contar a história da Terra

por Larissa Bastos

17/10/2021 - 05h00

Aceituno Jr.

Renato Pirani Ghilardi mostra o peixe fóssil Vinctifer, de 65 milhões de anos

A ciência estima que a Terra exista há mais de 4,54 bilhões de anos. Você já parou para pensar sobre as incontáveis espécies que já viveram por aqui durante esse vasto período de tempo? Esta é a missão de Renato Pirani Ghilardi, de 47 anos, que dedica sua vida à Paleontologia. Seu trabalho é estudar esses seres de milhões de anos e entender como funcionavam esses organismos. O interesse pela área, que nasceu ao ver formigas dentro de potes de maionese na infância, o levou a uma projeção nacional. Desde 2019, inclusive, o professor de Bauru preside a Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP).

Formado em Biologia pela Unesp de Botucatu, em 1994, e em Filosofia pela Universidade de Franca (Unifran), em 2017, com mestrado e doutorado em Paleontologia pela Universidade de São Paulo (USP), na Capital Paulista, Renato é professor livre-docente na Unesp de Bauru - onde leciona sobre Geologia, Paleontologia e Filosofia - e também chefe do Laboratório de Paleontologia de Macroinvertebrados (Lapalma) da mesma instituição.

Durante essas quase três décadas de trajetória, o paleontólogo já descobriu espécies de animais inéditas pela América Latina e, junto com seus alunos, colabora para contar um pouco da evolução do planeta Terra. Quando ele não está em campo ou nos laboratórios, adora colecionar filmes e miniaturas de corujas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como começou sua história com a Paleontologia?

Renato Pirani Ghilardi - Sempre gostei muito de insetos, artrópodes, aranhas, escorpiões... quando criança, gostava de colocar formigas dentro de potes de maionese para observar como elas se comportavam (risos). Pensei em fazer Veterinária, mas optei por Biologia por ser mais amplo. Saí de casa, em Osasco, com 17 anos, para estudar na Unesp de Botucatu. Mas, durante o curso, um professor me ofereceu uma bolsa em um trabalho como paleontólogo. Desde então, não parei mais. Fiz mestrado e doutorado na USP e, 15 dias após defender meu doutorado, fui contratado efetivamente pela Unesp de Bauru, em 2004, após dois anos atuando como professor substituto.

JC - Sobre o que foi o seu mestrado? E o doutorado?

Renato - No mestrado, trabalhei com fósseis de conchas de bivalves encontradas em Rio Claro, de 380 milhões de anos atrás. No doutorado, trabalhei com trilobitas (artrópodes de corpo segmentado, membros articulados e carapaça), bichos que são minha paixão. Eles existiram há 320 milhões de anos. Meu sonho é acordar um dia e por meu pé em uma pantufa de trilobitas (risos).

JC - E como era a estrutura da Unesp nessa área quando o senhor chegou?

Renato - Eu fui o primeiro paleontólogo do Câmpus da Unesp de Bauru e, em 2007, consegui montar o Laboratório de Paleontologia de Macroinvertebrados, o Lapalma.

JC - Quais trabalhos vocês desenvolvem?

Renato - Nós coletamos fósseis e os trazemos para desenvolver pesquisas de mestrado e doutorado. Já fui coletar fósseis de dinossauros em cidades próximas, como Monte Alto e Marília. Porém, como não é minha área de atuação, que é de invertebrados, tive que ir para lugares mais distantes. O foco maior é no Paraná, mas, nos últimos seis anos, fui para o Acre, Maranhão, Tocantins, Uruguai, Colômbia… já descobri novas espécies de vários invertebrados, como moluscos, cnidários, braquiópodes...

JC - E como chegou à Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP)?

Renato - Foi em 2019, quando tive dois triunfos quase concomitantes. Fui nomeado presidente da SBP e conquistei o título de professor livre-docente na Unesp de Bauru, que são poucos. Na Sociedade Brasileira, comecei a atuar com assuntos mais políticos, de combate ao tráfico de fósseis, como o caso do fóssil do terópode (que ficou conhecido por Ubirajara jubatus) que está na Alemanha, e buscar a regulamentação da profissão. São cerca de 500 paleontólogos associados em todo o Brasil. Não é um número alto.

JC - Como o senhor definiria a importância da Paleontologia?

Renato - É a ciência que mostra a nossa história, desde o momento em que surge a vida e todo o processo de evolução biológica mesmo. A Paleontologia é uma das únicas ciências que comprovam que a evolução existe.

JC - Algum momento marcante?

Renato - Momentos marcantes ocorrem diariamente na Paleontologia. Encontrar um fóssil é algo que me emociona bastante. Eu penso: 'esse fóssil está há 200 milhões de anos esperando eu encontrá-lo, esperando eu dar uma assopradinha nele' (risos). São poucas as coisas que se preservam por tanto tempo. E estou falando de um milhão ou bilhão de anos de preservação. Então, quando você encontra algo preservado, encara a missão de contar para as pessoas sobre esse pedacinho da história do nosso planeta. Em resumo, um fóssil pode mostrar como era o ambiente onde ele vivia, como era o estilo de vida dele e como o organismo dele funcionava. É muito compensador remontar a história do nosso planeta.

JC - E fora dos laboratórios e do campo, como é a sua vida?

Renato - Sou casado com a ortopedista Ayda Dias há seis anos. Construímos nossa vida aqui em Bauru, cidade que gosto muito. Também sou cinéfilo. Tenho um acervo de 4,5 mil filmes. Também gosto de curtir meus dois gatos, o Linus Pauling - nome dado em homenagem ao famoso químico - e a Mirella. E sou apaixonado por corujas. Sempre que viajo para alguma cidade, trago alguma miniatura de lembrança. Ganho muitas de presente. Hoje, já tenho quase uma centena delas. Nem tenho mais onde colocar (risos).

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