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Internacional

Repressão chavista muda a estratégia da oposição na Venezuela

Maioria se afastou das ruas com medo da violência imposta por Nicolás Maduro

por Pablo Pereira

12/05/2019 - 19h00

Martin Mejia/Associated Press/Estadão Conteúdo
Manifestante contrária ao governo de Nicolás Maduro confronta policiais durante uma passeata

Caracas - O medo da repressão pelas tropas de Nicolás Maduro, que se intensificou após a crise militar de 30 de abril, com a forte reação do governo da Venezuela aos protestos, mudou a ação da oposição liderada pelo autoproclamado presidente Juan Guaidó, embora a esperança de mudança no regime ainda permaneça entre os venezuelanos.

"Milhões de pessoas iguais a mim têm esperança na mudança", disse, em entrevista, o motorista José Hernández, pai de Yhoifer Jesús Hernández Vasquez, 14 anos, que morreu no dia 2, após ter sido baleado durante manifestação no dia 1 de Maio.

Na primeira semana de repressão policial, a Venezuela registrou pelo menos outras quatro mortes em protestos. Na ocasião, o líder opositor Leopoldo López deixou a prisão domiciliar graças a deserções no comando do serviço de inteligência (Sebin). López está refugiado na Embaixada da Espanha em Caracas.

No início da tarde do dia 1, segundo dia dos protestos, a manifestação na região da Base Aérea La Carlota, ponto da frustrada tentativa de tomada do poder pela oposição, se transformou em repressão.

Blindados da polícia fizeram carga sobre manifestantes no acesso à Praça Altamira, em Chacao, região metropolitana da capital. Na confusão, que deixou dezenas de feridos, Yhoifer foi atingido. Levado à Clínica Ávila, não resistiu.

Desde aquele dia, o pai do menino, que estava com o filho no protesto, não se separa de uma imagem de Yhoifer, registro da última visita de ambos à praia. Apesar do luto pela perda do único filho, o motorista mantém esperança em mudanças políticas na Venezuela.

Para o cientista político venezuelano Benigno Alarcón, diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello, a resistência ao chavismo se mantém ativa. "Não se pode dizer que a oposição esteja desgastada", avaliou. "O que há no país é censura de informações e talvez uma decisão de revisar a estratégia de confronto usada pela oposição", disse o cientista político.

De acordo com Alarcón, hoje "mais de 80% da população" venezuelana é de oposição ao regime chavista. Foi justamente em 2007 que um referendo popular derrotou a reforma constitucional proposta por Chávez - e os estudantes venezuelanos foram peça relevante da oposição.

Para Alarcón, Guaidó ainda se mantém como um líder político e dificilmente será preso pelo chavismo. "Seria uma medida perigosa para o regime", explicou o cientista político.