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Chile elege primeira mulher trans para Câmara dos Deputados

Emilia Schneider, 25, líder estudantil, é bisneta de general assassinado pouco antes de Allende assumir o poder

por FolhaPress

22/11/2021 - 16h56

Emilia Schneider no Instagram

Emilia Schneider, 25, primeira mulher transgênero eleita para a Câmara dos Deputados do Chile

Os eleitores chilenos, que foram às urnas neste domingo (21), alçaram a primeira mulher transgênero à Câmara dos Deputados do país. Emilia Schneider, 25, foi eleita com cerca de 14,5 mil votos pelo distrito 10, formado por seis comunas da capital Santiago.

Estudante de direito na Universidade do Chile, ela integra o partido Comunes, de esquerda, um dos quatro que, ao lado do Partido Comunista, compõem a aliança Apruebo Dignidad, do candidato à Presidência Gabriel Boric. Com 3,28% dos votos, a legenda elegeu seis candidatos para a Câmara, mas não conquistou cadeiras no Senado.

A deputada eleita se tornou conhecida ao longo dos últimos anos ao participar de uma série de mobilizações sociais que transformaram a história recente do país. Já como estudante universitária, esteve na linha de frente da onda de protestos feministas que ocuparam as ruas em maio de 2018 e também atuou nos megaprotestos que, um ano depois, exigiram e conquistaram a convocação de um plebiscito para formular uma nova Constituição.

Hoje pioneira por ser a primeira mulher trans eleita para o Parlamento chileno, Schneider também foi a primeira transgênero a presidir a Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECh), criada em 1906 e a primeira organização do tipo na América Latina. Gabriel Boric, egresso do curso de direito da mesma instituição, também presidiu a FECh.

A estudante é bisneta de René Schneider (1913 - 1970), comandante-chefe do Exército chileno à época da eleição do socialista Salvador Allende. O general, que fora assassinado em 1970, ficou conhecido por defender a não intromissão das Forças Armadas na política institucional, e sua morte gerou comoção nacional.

Nas redes sociais, a deputada eleita comemorou a vitória. "Por um lado, avança o ódio. Por outro, há esperança", escreveu, referindo-se ao fato do ultradireitista José Antonio Kast ter ido para o segundo turno junto com Boric, de esquerda. Kast, entre outros pontos, defende o regime de Augusto Pinochet --período que recusa-se a chamar de ditadura.

Entre as propostas que apresentou durante a corrida eleitoral, Schneider possui uma extensa lista voltada para as mulheres, as crianças e a população LGBTQIA+. Políticas voltadas para os direitos reprodutivos, como a legalização do aborto, estão entre as prioridades.

A chilena também afirmava que, se eleita, se somaria a outros parlamentares para pressionar por mais apoio à Assembleia Constituinte. Priorizar a tramitação de assuntos relativos à formulação da nova Constituição é uma das medidas entre suas propostas.

O fortalecimento da educação pública, com estímulo a discussões sobre educação sexual nas escolas, bem como a reformulação do sistema de pensões privadas no país, pauta recorrente nos protestos populares, também integram o programa apresentado por Schneider.

Em entrevista à rádio local ADN após a divulgação dos resultados oficiais, a deputada eleita disse que, quando assumir a cadeira, vai priorizar o impulso a medidas que combatam os efeitos da pandemia de Covid-19 --38,1 mil chilenos morreram da doença, e cerca de 83% da população está com esquema vacinal completo.

Schneider disse que, se por um lado está feliz, por outro está preocupada com o avanço dos discursos de ódio, "que se aproveitam do medo". "Estamos convivendo com distintas visões, mas os setores que creem que todos merecemos mais direitos e dignidade são maioria", declarou.

A chilena afirmou que uma possível eleição de Kast representaria um retrocesso para as mulheres e a população LGBTQIA+. "Com [Donald] Trump, nos Estados Unidos, e [Jair] Bolsonaro, no Brasil, vimos um aumento nos ataques de ódio contra a nossa comunidade", disse. "Nossa dignidade enquanto mulheres foi posta em risco."

Declaradamente contrário ao direito ao aborto, Kast, então deputado, foi um dos parlamentares mais ativos contra a promulgação da Lei de Identidade de Gênero, que em 2018 permitiu que pessoas trans atualizem dados como o nome e o sexo com os quais foram registradas ao nascer.

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