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Em entrevista, suspeito admite ter acendido rojão que matou cinegrafista

À polícia, porém, Caio Silva de Souza, preso hoje na Bahia, afirmou que só falará em juízo

por Folhapress com Agência Brasil

12/02/2014 - 05h35

O auxiliar de serviços gerais Caio da Silva Souza admitiu, em entrevista para a Rede Globo, que acendeu o rojão que atingiu e matou o cinegrafista da Rede Bandeirantes Santiago Andrade. A vítima foi ferida na manifestação ocorrida no Centro do Rio, na última quinta-feira, contra o aumento da tarifa de ônibus. Para a polícia, no entanto, ele afirmou que só falará em juízo.

 

Tânia Rêgo/ABr

Policiais conduzem Caio da Silva Souza para prestar depoimento

Ainda segundo a reportagem da Globo, Souza disse que não sabia que era um rojão e afirmou que acendeu o artefato com o tatuador Fábio Raposo, 22 anos, que também está preso. Para ele, o artefato era um "cabeção de nego". Os dois foram identificados após serem divulgadas imagens deles durante o protesto.

 

Na conversa, ele também disse que há jovens que são atraídos por terceiros a participarem do protesto: "Alguns vão aliciados sim, outros não". Questionado sobre quem o teria aliciado, ele não deu maiores detalhes. "Isso eu não sei dizer à senhora, a polícia tem que investigar", acrescentou.

 

Souza disse que fugiu pois ficou com medo de ser morto. Ele foi preso na madrugada desta quarta-feira (12), na cidade de Feira de Santana (a 100 km de Salvador, na Bahia). "Ele não admitiu, não negou (o crime). Só fala em juízo", disse o delegado responsável pelo inquérito, Maurício Luciano de Almeida, da 17ª DP (São Cristóvão).

 

Caio Souza estava em uma pousada e teria chegado ao local na tarde da terça-feira. Segundo a polícia, vizinhos disseram que o jovem deixou sua casa em Nilópolis, na Baixada Fluminense, com uma mochila e acompanhado do pai e da madrasta, na manhã de segunda.

 

"Encontramos o Caio num cômodo pequeno da pensão. Ele estava extremamente acuado e assustado, sem se alimentar", afirmou o delegado.

 

Almeida não confirmou que o jovem usou nome falso. Ele disse que contou com o apoio da namorada de Caio Souza e com o advogado dele Jonas Tadeu para localizá-lo na Bahia.

 

Em entrevista à Rede Globo, Jonas Tadeu afirmou não considerar que houve uma fuga e, sim, uma apresentação. Já o delegado diz que o jovem aceitou negociar com a polícia no meio da fuga. Ele deixou o Rio ainda na segunda-feira em um ônibus.

 

A intenção dele, de acordo com a polícia, era fugir para casa dos avós paternos na cidade de Ipu, no Ceará. Mas o jovem não teria dinheiro para continuar a viagem. "A família do Caio é muito pobre. A mãe desempregada, não tem renda. Ele chegou a pedir uma assistente social pra ela", disse o delegado.

Chegada ao Rio

Santiago Andrade chegou nesta quarta-feira (12) ao Rio de Janeiro e se dirigiu à Cidade da Polícia, complexo que reúne as delegacias especializadas da Polícia Civil fluminense. Ele foi trazido de avião por policiais civis do Rio. 


O desembarque ocorreu no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim. A comitiva seguiu de carro até a Cidade da Polícia.

Caio Souza está acompanhado pelo advogado Jonas Tadeu, deve prestar depoimento e ser encaminhado ao sistema penitenciário fluminense. Contra ele existe um mandado de prisão temporária expedido pela Justiça do Rio.

Prisão

Caio Silva de Souza, 23 anos, foi preso por volta das 3h (horário de Brasília) em uma pousada no centro da cidade. O recepcionista da pousada Hergleidson de Jesus Moreira disse que Souza se hospedou por volta das 16h de terça-feira (11) com o nome de Vinícius Marcos de Castro. Ele não soube informar se o suspeito apresentou algum documento porque não estava trabalhando no momento do check-in.


Por volta das 22h, o recepcionista conta que um homem ligou para a pousada dizendo ser irmão de Souza. Ele disse para o recepcionista que chegaria mais tarde para se hospedar e pediu para falar com o suspeito.


Segundo Moreira, por volta das 3h (horário de Brasília) chegaram na pousada policiais civis, acompanhados do advogado e da namorada do suspeito. Após a mulher e o advogado conversarem com o manifestante, ele deixou o quarto acompanhado por dois policiais civis.


O recepcionista disse que só descobriu que o homem preso era o manifestante foragido do Rio quando entrou na Internet para pesquisar.


Jonas Tadeu, advogado do suspeito, disse que o cliente estava indo à casa do avô no Ceará e que não sabia que havia um mandado de prisão expedido contra ele. Depois de conversas por telefone com o advogado, o jovem desistiu da viagem e desembarcou na cidade de Feira de Santana.


"Ele não foi preso, eu entrei no quarto com a namorada dele, conversamos e ele se apresentou à autoridade. Ele não saiu algemado", disse o advogado.

Jovens aliciados


Em entrevista para a Rede Globo, o advogado de Souza disse que ele e outros jovens são aliciados para praticar atos violentes durante os protestos. "Desculpa falar assim, mas esse jovem é miserável financeiramente, de baixo discernimento, de ideais de mudar o mundo", afirmou Tadeu.


Questionado sobre quem são os aliciadores, ele disse que por conta do sigilo da profissão não poderia revelar. Ele também negou que Souza seja adepto à tática black bloc.


Busca


O nome de Souza foi confirmado pelo tatuador Fábio Raposo, 22 anos, que teria entregue o rojão ao jovem. Raposo está preso desde domingo no Complexo de Bangu, zona oeste, acusado de homicídio doloso qualificado mesma acusação que pesa sobre Souza. O advogado de Raposo tentava obter para seu cliente o benefício da delação premiada, mas não conseguiu.


Para o delegado Maurício Luciano, ao colocar o rojão naquele local, o rapaz tinha intenção de matar. "Foi um homicídio intencional. Não foi um atentado à liberdade de imprensa. Infelizmente, o Santiago estava na linha de tiro. A intenção era ferir ou matar os policiais", disse o delegado.


Na terça-feira (11), o advogado já havia dito à reportagem que o manifestante ia se entregar. Ele afirmou ainda que o manifestante sofre de "descontrole emocional" e ficou assustado ao ver sua foto em um cartaz de procurado.


Dezesseis policiais, agentes do serviço de inteligência e o Disque-Denúncia foram mobilizados na busca por Souza, que teve prisão preventiva decretada na noite de segunda-feira.


Na terça, as buscas começaram às 4h com policiais percorrendo locais onde Souza costuma ir: a casa onde mora com o pai, em Nilópolis (Baixada Fluminense), o hospital onde trabalha e um endereço na região dos Lagos, a pelo menos duas horas dali, que costuma frequentar.


De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, Souza, empregado de uma empresa terceirizada, trabalha em regime de plantão de 12 horas, com 36 horas de folga. No dia em que o cinegrafista foi atingido, ele estava de folga. No dia seguinte deveria trabalhar, mas desde então não aparecia no hospital.


Souza registra passagens pela polícia. Em 2010, ele foi detido na Baixada Fluminense sob a suspeita de portar 33 gramas de cocaína e crack. A droga foi encontrada a dois metros de Souza por policiais militares, após uma perseguição. O inquérito foi arquivado por falta de provas.


O manifestante ainda registrou uma ocorrência na delegacia informando ter sido agredido num protesto.


Filhinhos de papai


O prefeito Eduardo Paes disse que os suspeitos da morte são "filhinhos de papai mimados". Ele defendeu a prisão dos indiciados.


"Eles precisam ficar na cadeia por muito tempo. Precisamos é de menos impunidade no Brasil e no Rio. Protesto faz parte, o que não pode acontecer é sair na rua tirando seus recalques, atacando os outros com violência."


Também no Rio, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, afirmou que os manifestantes que usam a violência nas ruas repetem práticas da ditadura militar.


"Não podemos ser condescendentes com quem acha que pode tudo só pelo fato de ser um manifestante", disse.