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Bolsonaro contesta número de mortes

Presidente insiste em teses de superdimensionamento de mortes por Covid, que causou afastamento de auditor do TCU

por Estadão Conteúdo

10/06/2021 - 05h00

Alan Santos/PR

Presidente durante um encontro evangélico em Anápolis (GO)

Brasília - O presidente da República, Jair Bolsonaro, manteve, novamente, nesta quarta-feira (9), o discurso de que o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou um "superdimensionamento" de Estados em mortes por Covid-19 para que as unidades da Federação pudessem receber mais recursos públicos. Bolsonaro relacionou ao tratamento precoce da doença um possível número menor de óbitos pelo novo coronavírus no passado no Brasil, caso os dados não fossem inflados, na avaliação ele.

"Se nós retirarmos as possíveis fraudes, teremos em 2020 o nosso País como aquele que teve o menor número de mortes por milhão de habitantes por causa da Covid-19. E, aí, vem o importante: que milagre é esse? O tratamento precoce", afirmou o presidente da República, durante encontro com lideranças evangélicas em Anápolis (GO).

TRATAMENTO PRECOCE

Bolsonaro voltou a citar tratamentos sem eficácia como os chás de índios da Amazônia e reforçou, segundo ele, que nem mesmo vacinas têm comprovação científica no combate à doença.

O presidente da República voltou a citar, sem apresentar evidências, uma suposta origem do novo coronavírus. "Ainda não tenho provas, mas esse vírus nasceu de animal ou no laboratório? Tenho na minha cabeça de onde veio esse vírus e para quê", disse.

CRÍTICAS À CPI

 O presidente retomou as críticas à cúpula da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, os senadores Omar Aziz (PSD-AM), Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Renan Calheiros (MDB-AL), respectivamente presidente, vice e relator do colegiado.

Segundo o presidente, o governo federal adotou medidas para "vencer a tempestade" provocada pela crise sanitária, que, segundo ele, ainda não terminou.

TCU DESMENTE

Apesar de o presidente citar "acórdãos" do TCU que supostamente apontariam para a prática de supernotificação de mortes por Covid-19 nos Estados, o órgão já desmentiu o presidente duas vezes e informou que não produziu qualquer dado sobre erros cometidos no registro de óbitos associados à doença. 

O TCU informou ainda que nenhum processo sobre o tema foi julgado pelo colegiado até o momento. Um servidor (já afastado) teria produzido um documento que induziu o presidente ao erro. (Leia ao lado)

TCU afasta servidor que fez relatório citado por Jair Bolsonaro

O Tribunal de Contas da União (TCU) afastou do cargo por 60 dias o servidor que produziu um documento sobre mortes na pandemia do novo coronavírus. O pedido foi feito pelo corregedor do tribunal, ministro Bruno Dantas, e aceito pela presidente, ministra Ana Arraes. Além do afastamento, o auditor Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques está proibido de entrar no prédio do órgão. O caso será enviado à Polícia Federal para que seja aberto um inquérito para apurar sua conduta.

O levantamento não oficial feito por Marques aponta "supernotificação" de mortes por Covid-19 no País. O relatório foi inserido no sistema do TCU sem que constasse de qualquer processo do órgão. Esse documento foi citado na segunda-feira passada pelo presidente Jair Bolsonaro para "comprovar" a tese de que cerca de metade dos óbitos registrados como covid-19 não seria causada pela doença. O tribunal de contas o desmentiu no mesmo dia.

Dantas afirmou que o afastamento de Marques é necessário para que o auditor não influencie nas apurações. O servidor está impedido de acessar o sistema eletrônico do tribunal. Para o ministro, a conduta do auditor representaria infração disciplinar. "Mais grave, e isso precisará ser melhor apurado, é a manipulação da atividade fiscalizatória do TCU em razão de sentimento pessoal ou orientação política ou ideológica", disse o corregedor. Ele sugeriu que a PF investigue se houve crime de prevaricação, que diz respeito a atos contra a administração pública visando interesse pessoal.

Marques é auditor do TCU desde 2008 e é próximo de três filhos de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Seu pai, que é coronel, é amigo do presidente. Marques admitiu a sua chefia que seu pai forneceu os dados para Bolsonaro. Ontem, Flávio negou conhecer o auditor. "Se passar do meu lado eu não sei quem é", disse o senador ao ser questionado sobre o assunto em Washington.

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