Bauru e grande região

Polícia

Perigo: chilena corta mais que cerol

A mistura usada para cortar é de óxido de alumínio e quartzo moído

por Lilian Grasiela

15/07/2013 - 05h00

Já se foi o tempo em que os jovens utilizavam as linhas com cerol para derrubar as pipas dos adversários. Um novo tipo de linha – a chilena –, que teria poder de corte quatro vezes maior do que o cerol, vem sendo utilizada com frequência por crianças e adolescentes em Bauru. Como a parte cortante se concentra, na maioria das vezes, apenas perto da pipa, ou seja, no alto, o flagrante por parte da Polícia Militar (PM) acaba sendo mais difícil.

 

João Rosan

O JC identificou o uso do novo material cortante na Nações Norte

Uma consulta rápida pela internet revela o poder destruidor da linha chilena e confirma sua disseminação entre jovens. Enquanto o cerol é fabricado com cola e pó de vidro, a nova “ferramenta” tem como componentes óxido de alumínio e quartzo moído, o que lhe confere poder de corte muito superior – o que agrava o risco e o perigo de seu uso.


A reportagem conversou com adolescentes que empinavam pipas no último sábado à tarde, às margens da Nações Norte, na área destinada a ser o futuro Parque do Castelo. Nos finais de semana, segundo eles, dezenas de jovens costumam se reunir na região para travar um verdadeiro “duelo” no ar. O vencedor simbólico acaba sendo aquele que consegue derrubar mais pipas.


Para isso, segundo eles, o uso da linha chilena é fundamental. “Ela corta bem mais. Ninguém mais usa o cerol”, revela um deles, de 14 anos, que mora nas imediações do Jardim Progresso. Os jovens afirmam que ninguém está lá só para empinar pipa. “A graça é cortar a linha do outro”, diz um adolescente de 13 anos, morador do Jardim Coral.


Eles contam que a linha chilena é facilmente comprada nas proximidades, em um estabelecimento que vende pipas. A reportagem foi até lá ontem de manhã. O proprietário informou que não comercializa mais o produto, mas indicou um morador do bairro que, segundo ele, venderia a linha em sua própria residência.


Para dificultar a identificação da linha chilena no caso de eventual fiscalização por parte da polícia, os meninos adotam uma estratégia. “O cortante fica só na parte de cima, perto da pipa”, explica um jovem de 18 anos. “Assim também não tem perigo da gente cortar a mão”.



Motociclistas e ciclistas


Durante o tempo em que a reportagem permaneceu no local, foi possível constatar o perigo que ciclistas e motociclistas correm ao trafegar por aquele trecho da Nações Norte. A maioria, sabendo da grande concentração de crianças e jovens empinando pipas na região, acaba diminuindo a velocidade.


Os adolescentes ouvidos pelo JC admitem saber dos riscos que o uso da linha chilena pode ocasionar, mas argumentam que tomam cuidado para não provocar acidentes e não deixam a pipa abaixar. Mas a técnica nem sempre funciona. “O problema é quando a rabiola enrosca na linha. Aí a pipa fica descontrolada”, conta um garoto de 13 anos.


O motociclista Douglas Carvalho, 40 anos, trafega com frequência pela avenida e alega que adota algumas medidas para evitar ser atingido por uma linha com cortante. “É só diminuir a velocidade”, diz. “E usar a anteninha (antena corta pipa). A minha quebrou, mas eu vou colocar outra”, diz.


Risco de atropelamento


O risco de atropelamento dos jovens é real, diz o motociclista. Com varas de bambu nas mãos, eles saem correndo para tentar pegar as pipas cortadas antes que elas caiam no chão e acabam invadindo a avenida, sem se preocupar com o trafego de veículos. “Eles cortam a frente da moto e nem olham para o lado”, afirma.


A equipe do JC flagrou o  momento em que um carro que seguia sentido Centro-bairro teve de desviar de um grupo de crianças que tentavam pegar uma das pipas no meio da avenida. Segundo o menino de 13 anos, cenas como essa são comuns. “Já vi meninos que saíram correndo, não viram o carro e quase foram atropelados”, diz. Questionado se toma cuidado, ele confessou: “Nem sempre”.

 

Polícia ainda desconhece uso da nova linha

O comandante da 4ª Companhia da Polícia Militar (PM), capitão Fabiano de Almeida Serpa, alegou desconhecer o uso da linha chilena em Bauru e confirmou que a constatação do material não é uma tarefa fácil. Porém, ele garante que as fiscalizações na região da Avenida Nações Norte são frequentes e serão intensificadas.


“Quando acontece uma apreensão de cerol, é mais por alguma denúncia até porque, para o policial, é difícil a constatação desse tipo de infração”, afirma. “Mas, quando a gente constata, a gente apreende o material. Se tiver com adolescente, a gente pega o adolescente, os pais e leva para a delegacia para fazer a apreensão do material”.


De acordo com o capitão, a avenida é palco frequente, sobretudo, de operações de trânsito. “A gente tem feito alguns bloqueios ali naquela região da Nações Norte, principalmente com foco contra rachas, veículos em alta velocidade e som alto, que é um problema que a gente tem de vez em quando lá”, pontua.

Casos recentes

Recentemente, a imprudência de crianças e adolescentes, seja relacionada à utilização de material cortante, seja correndo atrás de pipas, resultou em vítimas na cidade, uma delas fatal.


No dia 17 de setembro de 2011, um motociclista de 40 anos foi atingido por uma linha com cerol quando trafegava pela avenida Nações Norte. Ele teve um corte profundo no pescoço e, por dois milímetros, sua jugular não foi atingida.


O homem chegou a ficar internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base (HB) por três dias. Foram necessários 38 pontos para suturar o corte no pescoço, mas ele conseguiu se salvar.


No dia 25 de junho do ano passado, um pedreiro de 35 anos foi atingido por linha de pipa com cerol quando trafegava de moto pela rodovia Cezário José de Castilho (SP-321). Ele e o passageiro caíram da moto e sofreram ferimentos leves em razão da queda e cortes superficiais no pescoço.


No dia 22 de dezembro, um menino de 10 anos morreu atropelado no quilômetro 351 da rodovia Bauru-Marília, na altura do Núcleo Fortunato Rocha Lima. Ele empinava pipa próximo ao local e, durante a brincadeira, teria atravessado a via, pulando a mureta que separa as duas pistas.