Bauru e grande região

Polícia

Travesti é internada em estado grave na UTI após ser espancada

Vítima teve ferimentos no crânio, perda de dentes e fratura no maxilar

por Tisa Moraes e Vitor Oshiro

16/09/2016 - 07h00

Uma travesti foi brutalmente espancada na madrugada dessa quinta-feira (15) e está internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base. A vítima, identificada preliminarmente como Mirela, estava sem documentos e ainda não foi procurada por familiares.

O caso foi registrado por volta das 3h40 na quadra 8 da alameda Copérnico, no Parque Santa Edwirges. Segundo informações do boletim de ocorrência, uma testemunha acionou a Polícia Militar ao ouvir uma discussão no meio da rua, que teria sido motivada por dinheiro.

Pouco depois de o barulho cessar, ela foi até o local para verificar o que havia ocorrido, quando se deparou com a vítima desacordada e com dois graves ferimentos no crânio. “Não havia, contudo, qualquer vestígio de autoria ou mesmo instrumentos, como pedra, pedaço de pau ou faca, que possam ter sido utilizados para feri-la”, detalha o delegado Rogério Dantas, responsável por investigar o caso.

O resgate foi realizado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que encaminhou a travesti até o Pronto Socorro Central (PSC). Segundo a Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Bauru, a mulher sofreu edema cerebral, perda de dentes e fratura no maxilar, entre outras lesões.

A informação é de que ela teria vindo da Bahia e era vista constantemente na região do Fortunato Rocha Lima. Sua identidade completa, contudo, ainda permanece desconhecida. Segundo informações prestadas pelo PSC, que ainda procura familiares da paciente que possam acompanhar o caso, Mirela é parda, aparenta ter 1,80 metro de altura e possui tatuagem de uma flor no seio esquerdo, além de piercing.

“Um inquérito será instaurado para investigar o que aconteceu. Além de solicitar o prontuário médico, vamos ouvir a testemunha e tentaremos localizar pessoas que conheciam a vítima, para, antes de tudo, saber quem ela é”, pontua Dantas. O boletim de ocorrência foi registrado inicialmente como lesão corporal, mas, de acordo com o delegado, poderá ser modificado para tentativa de homicídio, devido à gravidade dos ferimentos.

Recorrente

Membros da Comissão da Diversidade Sexual da OAB também acompanham o caso, que é classificado por eles como homofobia. “Em Bauru, os casos são recorrentes. Não é a primeira vez  e, provavelmente, não será a última que uma travesti é gravemente agredida”, lamenta Leandro Lopes, vice-presidente da comissão.

Ao tomarem conhecimento sobre o ocorrido, ele e o vereador Markinho da Diversidade (PP) estiveram no PSC para tentar identificar a vítima, o que não ocorre em um primeiro momento. “Ou não a conhecemos ou não a reconhecemos pela desfiguração que constatamos. Ela se encontra entubada e inconsciente”, conta Leandro. Na sequência, eles foram até a Central de Polícia Judiciária (CPJ) para cobrar celeridade nas apurações.

No fim da noite, Markinho conseguiu informações preliminares de que a vítima se chama Mirela e é da Bahia. “Disseram que ela fica na região do Fortunato, mas não tem residência fixa. Também não teria familiares em Bauru. Vamos torcer pela recuperação para que ela possa apontar quem fez isso. Ao nosso ver, foi tentativa de homicídio”, finaliza o vereador.

Homofobia

Segundo Leandro Lopes, da OAB, uma das prementes metas dos movimentos LGBT é a criminalização da homofobia, visto que trata-se de um crime de ódio, direcionado a um grupo específico de pessoas, tal como o racismo. “As pessoas LGBTs são vítimas das mais variadas agressões, especialmente as travestis e transexuais”, pontua.

Ele lembra, ainda, que recente relatório divulgado pela ONU revelou que, no Brasil, a cada 26 horas uma pessoa é morta por homofobia. “Entretanto, por omissão legislativa, a homofobia ainda não é crime tipificado no Código Penal. Na maioria dos casos, o agressor responde pelos crimes enumerados na lei penal, a exemplo de homicídio, injúria e lesão corporal”, conclui.