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Polícia

Após denúncia grave de maus-tratos, crianças são acolhidas

Casal de irmãos estaria sofrendo agressões dos pais adotivos; menino relatou que pai passava até fezes de cão em seu rosto

por Ana Beatriz Garcia

10/03/2018 - 07h00

Samantha Ciuffa
Delegada Priscila Bianchini diz que pais e crianças serão ouvidos

Depois de denúncia anônima, o Conselho Tutelar de Bauru acolheu duas crianças, um menino de 11 e uma menina 7 anos. A causa do acolhimento é a investigação da Polícia Civil sobre maus-tratos parte dos pais adotivos. Além de constantes agressões físicas e psicológicas, o garoto afirma que o pai já passou até fezes de cachorro em seu rosto. Os nomes de todos os envolvidos foram preservados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

De acordo com boletim de ocorrência (BO), na tarde da última quinta-feira (8), o Conselho Tutelar esteve na escola em que as crianças estão matriculadas. Além de saberem que, por diversas vezes funcionários constataram que as crianças estavam com marcas de cintadas pelo corpo, conseguiram conversar com o menino e colher informações sobre os maus-tratos.

O garoto relatou que é proibido de comer os alimentos que estão na casa, pois só deve comer o que a mãe lhe dá, caso contrário, apanha. Também disse que, quando não recolhe as fezes do cachorro no quintal, o pai as passa em seu rosto. Já a menina afirma que também apanha, mas que o irmão é sempre mais punido. Além disso, ela afirma que os pais não a deixam ficar perto do irmão, alegando que este é uma má influência para ela, ainda conforme o registro policial.

A visita foi motivada por uma denúncia anônima recebida no dia anterior, em que os vizinhos teriam presenciado o menino sendo empurrado conta o portão de forma agressiva, além de ser xingado e colocado para fora de casa. No mesmo dia, o Conselho Tutelar esteve no local, mas foram impedidos de conversar com a criança, conforme narra o BO.

ANTECEDENTES

Antes desta denúncia, o Conselho Tutelar havia sido acionado em duas oportunidades em relação à família. A primeira foi ainda antes da adoção, em 2015, quando o casal era guardião das crianças.

De acordo com registro policial, o Conselho Tutelar recebeu queixas da escola em que as crianças estudavam, contando que elas estariam recebendo agressões físicas e psicológicas por parte da dupla. Na época, foram realizados atendimentos com a família e feitos encaminhamentos para serviços específicos, os quais realizaram estudos psicológicos das crianças, concluindo que a adoção poderia se concretizar.

Novamente, em 2017, o Conselho Tutelar recebeu denúncias via telefone e disque 100 relatando que as crianças estariam sofrendo violências físicas e psicológicas dos pais, que, nesta época, já eram adotantes definitivos, conforme narra o BO. Após visita realizada à casa da família, o menino teria relatado que o pai o agredia na ida à escola com palavras de baixo calão e que, por vezes, dada “croques” em sua cabeça e empurrões em sua barriga. Nessa ocasião, os pais foram orientados e encaminhados para tratamento psicológico deles e das crianças.

A reportagem entrou em contato com a conselheira tutelar responsável pelo registro da ocorrência, que alega não comentar casos específicos.

Polícia Civil instaurou inquérito para apurar

A ocorrência foi registrada na Central de Polícia Judiciária (CPJ) como lesão corporal e maus-tratos e será distribuída para a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) a fim de dar prosseguimento nas investigações.

“Vamos instaurar um inquérito policial. Os pais serão intimados para ouvirmos eles, as crianças e os demais envolvidos na ocorrência. Quanto maior a gravidade, há possibilidade até de enquadramento em outros crimes ainda mais graves”, afirma a titular da DDM, a delegada Priscila Bianchini.

“Também será necessário pedir uma avaliação psicológica dessas crianças. O importante, neste momento, é realmente deixá-las sob a tutela do Estado”, conclui a delegada.

SERVIÇO

Denúncias sobre maus-tratos, violência, ou abusos contra crianças e adolescentes podem ser realizadas por meio do número de telefone 100, por qualquer cidadão. A ligação é gratuita. O serviço funciona para todo o país, todos os dias da semana, das 8 às 22 horas, inclusive nos feriados. Não é preciso se identificar.