Bauru e grande região

Polícia

Bando morto em confronto tinha metralhadora que derruba avião

Três morreram em tiroteio no Vale do Igapó; quadrilha iria roubar em Ourinhos ou Cabrália

por Vitor Oshiro e Marcele Tonelli

24/05/2019 - 01h15

Polícia Militar/Divulgação
Metralhadora ponto 30 é usada em guerras e tem capacidade de 600 disparos por minuto

Reprodução                                     Fotos: Polícia Civil/Divulgação
Alan Pereira da Silva, 27 Francis F. de Jesus, 36   Ricardo Domingues, 32 
Samantha Ciuffa
Marcas do intenso confronto ficaram pela chácara alugada

Três integrantes de uma quadrilha que planejava roubar agências bancárias na região de Bauru foram mortos, no fim da noite da última quinta-feira (23), em uma chácara alugada no Vale do Igapó, após confronto com a Força Tática da Polícia Militar (PM). Um quarto indivíduo conseguiu fugir por meio da mata ao ver a chegada das equipes, que foram recebidas a tiros ao apurar a denúncia anônima da presença do grupo no local. Fortemente armado, o bando tinha até uma metralhadora de guerra ponto 30, capaz de derrubar aeronaves e de efetuar 600 disparos por minuto.

Com artefatos explosivos, a quadrilha, segundo a polícia, se preparava para receber mais integrantes e equipamentos para explodir caixas eletrônicos em Cabrália Paulista ou em Ourinhos.

Entre os mortos, está Alan Pereira da Silva, de 27 anos, um balconista morador de Bauru, que já era investigado por relação com criminosos que furtavam bancos. Os demais são o ajudante de cozinha Ricardo Monteiro Domingues dos Santos, 32 anos, que morava na Capital e tinha passagens por roubo; e Francis Ferreira de Jesus, de 36 anos, também morador da Capital, que foi policial militar e acabou exonerado justamente por envolvimento com roubo a banco em 2010 em São José dos Campos.

Francis, inclusive, foi abordado pela Polícia Rodoviária em Bauru, em março deste ano, suspeito de uma tentativa de furto a uma agência bancária na avenida Duque de Caxias.

Nenhum policial ficou ferido e o caso foi registrado na Polícia Civil como homicídio simples decorrente de intervenção policial, associação criminosa e porte de armamento de uso restrito.

Além da metralhadora com 190 munições, a polícia apreendeu no local 22 munições de fuzil AK 47, carregador de pistola com 12 munições, um colete a prova de balas, duas armas calibre 40 (umas delas com a numeração raspada) e uma calibre 380 (numeração raspada), além de quatro cartuchos de emulsão explosiva, material suficiente para destruir uma agência bancária inteira.

A atuação da quadrilha será alvo de inquérito. Tanto a Polícia Militar quanto a Civil também instauram procedimentos para apurar o confronto. "Pelo que vimos no local, a ação dos policiais foi legítima, tanto que o escudo da equipe foi atingido por dois disparos, mas, independente disso, fazemos a apuração com base no levantamento nos dados da Polícia Técnico-Científica", diz o tenente-coronel Ézio Carlos Vieira Mello comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior.

O EMBATE

Polícia Militar/Divulgação
Mala encontrada no interior do carro usado pelo bando estava repleta de artefatos, o suficiente para causar, de acordo com a PM, grandes danos a agências bancárias

Comandante da Força Tática, o capitão Vinicius Sayki conta que a equipe chegou ao Vale do Igapó por volta das 22h30, após acionar reforço para apuração da denúncia anônima. As viaturas chegaram na alameda das Carpas, endereço do imóvel alugado, sem dar sinais ou luzes.

"Sabíamos, mais ou menos, onde era a chácara. Desembarcamos e fomos a pé. Até que, em um determinado momento, um indivíduo saiu no portão e gritou 'moiado', e correu para mata. Uma equipe de policiais o perseguiu e a outra entrou na chácara, onde foi recebida a tiros", conta Sayki.

Ainda de acordo com o capitão, já no interior do imóvel, três policiais teriam avançado para a área de lazer aos fundos, onde estavam Ricardo e Francis. Enquanto outros três PMs checavam a casa. Na sala da frente do imóvel, estava Alan.

"Todos dispararam contra os policiais. O Alan estava no imóvel da frente e acertou a parede ao disparar. Lá no fundo, Ricardo e Francis também dispararam e acertaram o escudo dos PMs", conta Sayki.

Ricardo foi atingido por um disparo no tórax e na face. Alan morreu com dois tiros no tórax e Francis atingido por um disparo de fuzil (da PM) no tórax. O Samu foi acionado e constatou os óbitos.

Na área de lazer, restos de carne sobre o balcão e latas de cerveja sobre a mesa indicavam que o bando, aparentemente, teria feito um churrasco naquela noite antes do confronto. "Não sabemos quando a chácara foi alugada. Só temos a informação de que o Alan estaria monitorando o caixa em Cabrália. E que mais criminosos viriam para cá trazendo mais armamentos de São Paulo", pontua Sayki.

APREENSÃO

PM/Divulgação
Imagem com indicação divulgada pela Polícia Militar mostra escudo alvejado pelos disparos do grupo fortemente armado

Consta no BO que a pistola calibre 40 raspada estaria próxima ao corpo de Francis e a calibre 380 junto ao corpo de Ricardo. A segunda pistola calibre 40 estava junto a Alan.

O armamento utilizado pelos policiais que atiraram contra o bando também foi recolhido para perícia.

A metralhadora e os explosivos foram encontrados pela polícia, após o confronto, no porta-malas de um Fiat Pálio com placas de Santo André, que seria de Ricardo.

O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) foi acionado para recolher e destruir o artefato ainda na madrugada de ontem. Os corpos dos acusados foram encaminhados ao IML de Bauru.

Em busca do 4.º homem

A apuração sobre o caso será comandada pelo delegado Cledson Nascimento, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que pediu coleta de material biológico no local para tentar identificar o quarto acusado que fugiu. Nessa sexta-feira (24), a proprietária da chácara seria ouvida pela polícia.

"Já sabemos que esta era uma quadrilha de alto poder de fogo, que poderia causar sérios danos e colocar a população em risco", cita. "O Vale do Igapó é um local de fácil acesso às rodovias e, por isso, tem sido escolhido por criminosos", completa o delegado.

A reportagem conversou com vizinhos da chácara em questão. Eles relataram que a ação na quinta-feira (23) não durou mais que cinco minutos e que vários disparos foram ouvidos. "Dá um certo receio continuar aqui, apesar de sabermos que esses criminosos apenas se instalam no Vale, mas agem longe", comentou um morador de 35 anos, que pediu para ter identidade preservada.

Caso semelhante em 2015

Na tarde de 17 de outubro de 2015, uma equipe da PM foi recebida a tiros ao localizar a chácara alugada por um bando, na alameda Poriguá, também no Vale do Igapó. Três criminosos foram alvejados e morreram. Outros três foram presos.

A quadrilha estava munida de um arsenal de grosso calibre, além de três jalecos de enfermagem, um estetoscópio, roupas e calçados sociais. Dias depois, a polícia descobriu que eles não roubariam caixas eletrônicos na região, mas iriam tentar libertar um líder de uma facção criminosa que passaria por cirurgia em Botucatu.