Bauru

Polícia

Criança esquecida por 3 horas em veículo é sepultada e babá é presa

Prisão preventiva da mulher foi decretada ontem pela Justiça; Polícia Civil registrou caso como homicídio com dolo eventual

por Cinthia Milanez

27/08/2021 - 05h00

Facebook/Reprodução

Fabrício, Arthur e Karina: família reunida

Três horas e seis minutos. Esse foi o tempo que Arthur Oliveira dos Santos, de 2 anos, ficou trancado dentro do veículo da sua babá, Glaucia Aparecida Luiz, de 35, na região do Jardim Redentor, em Bauru, na tarde desta quarta-feira (25), dia mais quente do ano no município. Ontem (26), o corpo da criança, que chegou à UPA do Geisel já sem vida, foi velado em Bauru e sepultado em Macatuba, cidade natal dos pais do menino, sob forte comoção. Já a babá, detida por homicídio com dolo eventual, teve a prisão em flagrante convertida para preventiva pela Justiça. A defesa dela alegou, contudo, que "nunca houve a intenção de ocasionar tal resultado" (leia mais abaixo).

Ao converter a prisão na custódia para preventiva ontem, o juiz teria considerado a gravidade da ocorrência que tirou a vida do pequeno Arthur. O caso foi divulgado em primeira mão pelo JC na edição desta quinta-feira (26).

Conforme informações do boletim de ocorrência (BO), a segurança da UPA relatou à Polícia Militar (PM) que Glaucia chegou ao local e entregou o menino para a profissional encaminhá-lo à equipe médica, alegando que precisava avisar os pais.

Já na unidade, a mãe da criança, a operadora de telemarketing Karina Oliveira Souza dos Santos, de 25 anos, informou à PM que a babá disse para ela ir até a UPA, pois o seu filho passava por atendimento médico. Karina, inclusive, só tomou conhecimento da morte do pequeno quando chegou ao local. 

A babá Glaucia, por sua vez, retornou à UPA, onde informou aos policiais que saiu para deixar uma criança na casa dos pais e, como não tinha quem olhasse os outros dois pequenos sob os seus cuidados, levou os três. Na volta, a mulher disse que estacionou o veículo na frente da sua residência.

Ao sair do carro, a babá pegou a criança menor, a bolsa e outros itens, mas deixou Arthur dentro do automóvel, que, segundo ela, estava com a janela aberta. A mulher alegou que pretendia retornar em minutos para buscar Arthur. 

Em seu relato à policia, Glaucia disse que acabou precisando trocar a fralda da criança menor e, ao voltar para o veículo, já avistou a vítima desfalecida no banco traseiro.

IMAGENS

Porém, a polícia conseguiu imagens das câmeras de segurança de um imóvel vizinho, mostrando que Arthur ficou mais de três horas no carro. O JC também teve acesso às filmagens (veja no www.jcnet.com.br). O sistema de monitoramento revelou que Glaucia estacionou o carro, um GM/Celta, por volta das 13h45 e, 28 minutos depois, Arthur apareceu tentando abrir as portas e batendo no vidro do lado do passageiro. Sem sucesso, o garoto retornou ao banco traseiro.

Às 16h22, ainda de acordo com as imagens, a babá chegou a passar ao lado do veículo com um saco de lixo nas mãos, mas não viu a criança. Só às 16h51 que ela abriu diretamente a porta traseira esquerda do veículo e resgatou a vítima. Já na UPA, uma enfermeira disse à polícia que o menino estava com o maxilar enrijecido quando deu entrada na unidade.

Diante de todo o contexto, a autoridade policial deu voz de prisão em flagrante à mulher e requisitou perícia tanto no local dos fatos quanto no veículo.

'COMPLETA ILEGALIDADE'

No despacho fundamentado, o delegado Mário Henrique de Oliveira Ramos, que registrou o caso, argumentou que Glaucia cuidava das crianças de maneira clandestina. "Apenas com a ajuda da sua filha de 16 anos, a autora assume o risco de cuidar de cerca de 18 crianças e, em alguns casos, buscá-las em suas residências e levá-las até os mesmos locais, na mais completa ilegalidade".

O delegado plantonista sustentou, ainda, que "não há controle, não há respeito, não há responsabilidade (...) até o descaso com o ser humano na busca pelo lucro deve ter um limite".

Em entrevista ao Cidade 360º, logo no início da manhã de ontem, Ramos declarou que indiciou a mulher por homicídio com dolo eventual, quando o autor assume o risco do resultado morte. "Fazia cinco anos que a autora e a filha cuidavam dessas crianças sem estrutura alguma. Ela ainda buscava os pequenos nas suas casas sem possuir um carro adaptado com cadeirinhas. Sabia que tinha tudo para dar errado", afirmou.

'Ele amava aquele lugar', diz pai

Aceituno Jr.

Pai de Arthur, Fabrício Lucas dos Santos revela que o filho amava ficar com a babá

Pai de Arthur, o auxiliar de produção Fabrício Lucas dos Santos, de 28 anos, relata que a criança frequentava a casa da babá de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h, havia 10 meses. "Ele amava aquele lugar e até chorava porque não queria ir embora", acrescenta, ainda incrédulo com a tragédia.

O menino, que era filho único de Santos e da sua esposa, nasceu em Lençóis Paulista, mas vivia com os pais no Nova Bauru, em Bauru. "Eu não sei a verdade ainda, porém, confio muito na justiça divina", comenta o pai, que é evangélico.

Ainda de acordo com ele, Arthur era uma criança saudável e extremamente carinhosa. "Nós costumávamos brincar que qualquer pessoa conseguiria roubá-lo, pois ele abria os braços para todo mundo", conclui.

 

'Não teve a intenção'

Em nota, o advogado da babá Glaucia Aparecida Luiz, Lucas Formiga Hanada, informou que a defesa não pretende se pronunciar até a conclusão das investigações. Até a emissão do posicionamento, no final da manhã de ontem, ele declarou que "sequer o retorno da perícia necroscópica foi anexado ao auto de prisão em flagrante".

Ainda de acordo com a defesa, tanto a babá quanto a sua família colaboram com as investigações "a fim de esclarecer os fatos, até porque ela não teve a intenção de levar a criança a óbito". 

O advogado, portanto, ficou de ingressar com um pedido de liberdade provisória.

 

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