Bauru

Polícia

Explodem casos de 'barrigueiros' nas unidades prisionais de Bauru

Flagrantes de presos que engolem drogas e minicelulares triplicaram no primeiro semestre deste ano em relação a 2021

por Larissa Bastos

17/07/2022 - 05h00

Larissa Bastos

Delegado de polícia da assistência policial da Deic, Kleber Granja, fala sobre as investigações dos 'barrigueiros'

O sistema prisional de Bauru e a polícia estão em alerta para uma prática criminosa que explodiu neste primeiro semestre de 2022. São os chamados "barrigueiros", presos que, na tentativa de entrar nas unidades com porções de drogas, dinheiro ou mesmo pequenos celulares, ingerem esses itens. Para se ter uma ideia, neste ano, a média é de 16 flagrantes ao mês, quase o triplo do registrado no mesmo período em 2021, quando a média mensal foi de seis casos.

Inclusive, a Polícia Civil, por meio da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), trabalha a fim de identificar supostas organizações criminosas que possam estar financiando esses delitos (leia mais abaixo).

De acordo com um levantamento feito pela Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) a pedido do JC, nos três Centros de Progressão Penitenciária (CPPs) de Bauru, foram, somente neste primeiro semestre, 98 casos de sentenciados que, seja no retorno da saída temporária ou na volta do trabalho externo, acabaram flagrados com drogas ou telefones dentro do corpo. Esse montante já é maior do que o ano passado inteiro, quando foram contabilizados 83 registros.

Na maioria das ocorrências, o detento consegue expelir os produtos. Contudo, há casos mais graves, em que é necessário passar por procedimento cirúrgico. Nestes primeiros seis meses de 2022, 12 reeducandos foram operados em hospitais da cidade para retirar os ilícitos.

FLAGRANTES

Um dos casos recentes ocorreu no CPP-2 "Dr. Eduardo de Oliveira Vianna" no mês passado e chamou a atenção pela quantidade de flagrantes de uma única vez. Conforme o JC noticiou, no retorno da última saída temporária, quase 30 "barrigueiros" foram descobertos por agentes da unidade, sendo que seis precisaram passar por cirurgia e um foi até parar na UTI. Apenas neste presídio, aproximadamente 2 mil presos contam com o benefício da "saidinha".

Fernando Henrique de Melo Santana, diretor do CPP-2, avalia que os detentos têm, geralmente, três motivações para tentar entrar com os ilícitos. "A primeira é visando o retorno monetário por comercializar o item lá dentro. A segunda é para uso próprio. E terceira é tentar introduzir o item no presídio objetivando o pagamento de dívidas que têm dentro ou fora da unidade", explica.

Ele pontua, ainda, que os objetos mais comuns de serem apreendidos são minicelulares e seus acessórios - carregadores, chips telefônicos e fones de ouvido -, entorpecentes e dinheiro em espécie.

MOTIVOS

Para o diretor do CPP-2, o aumento no número de flagrantes é resultado de uma mudança de estratégia de fiscalização dos policiais penais (anteriormente conhecidos como agentes penitenciários) e do investimento no trabalho de inteligência dentro das unidades prisionais. Com isso, intensificou-se a revista, principalmente naqueles reeducandos que, com base em informações privilegiadas, são classificados como de maior potencial em serem "barrigueiros". Além dessa vistoria, os agentes também verificam periodicamente as celas das penitenciárias.

Agora, a tendência, ainda segundo Santana, é de que os números se estabilizem ou até diminuam nos próximos meses, considerando que o aumento de apreensões tem um efeito "educativo". Inclusive, os agentes continuam trocando informações com a Polícia Civil para que possíveis financiadores desse tipo de prática sejam identificados.

"As apreensões desestimulam novas tentativas, porque, de imediato, quando os presos são flagrados, eles retornam para o regime fechado e acabam transferidos. Mas, se continuar aumentando, usamos outro tipo de 'remédio' para sanar a questão", completa o diretor.

Morte de reeducando

Os "barrigueiros", além de arriscarem perder o benefício do regime semiaberto, também colocam a própria vida em jogo.

Fernando Cardoso, diretor do CPP-2, lembra do caso de um detento da unidade que, em setembro de 2021, engoliu uma embalagem com cocaína. Mas, o pacote acabou estourando dentro do estômago do homem, que morreu de overdose. "Isso mostra o quanto essa prática é arriscada".

Investigação visa identificar possíveis organizações criminosas financiadoras

Larissa Bastos

Delegado Kleber Granja, da Deic, fala sobre a complexidade das investigações de "barrigueiros"

Diante do expressivo aumento de registros de "barrigueiros" neste primeiro trimestre de 2022, a Polícia Civil de Bauru trabalha a fim de identificar supostas organizações criminosas que possam estar financiando essa prática para, assim, promover o tráfico dentro dos presídios do município. As apurações são conduzidas pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), mais especificamente pela 2.ª Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), justamente pelo fato de as ocorrências envolverem, em sua maioria, drogas.

De acordo com o delegado da assistência policial da Deic, Kleber Granja, é instaurado um inquérito para apurar cada um dos casos de presos que ingerem ilícitos para tentar ingressar nas unidades prisionais.

E, atenta ao crescimento significativo de flagrantes, a polícia investiga se há, por trás desses delitos, uma organização criminosa que possa estar financiando tal atividade dos detentos, visando lucrar com a comercialização de drogas dentro dos presídios. A corporação também busca identificar, de acordo com Granja, se este fluxo será sazonal ou se é apenas um evento casual.

OBJETIVO

O delegado explica que o primeiro objetivo do inquérito policial é identificar a responsabilidade criminal do indivíduo flagrado. Quando o apenado tenta introduzir entorpecentes, acaba indiciado por tráfico e regressa imediatamente para o regime fechado. Vale lembrar que os três Centros de Progressão Penitenciária (CPPs) de Bauru recebem apenas condenados em regime semiaberto.

Em seguida, os policiais ampliam a investigação para entender se existe um modus operandi protocolar, ou seja, se há um fornecedor comum das drogas a esses "barrigueiros". Para isso, é necessário um trabalho de inteligência de cruzamento de informações e análise de vários dados.

"Buscamos entender qual a metodologia que os detentos usam para esse processo de engolir a droga, onde isso é feito e como eles são cooptados. Também apuramos se há lavagem de capitais, ocultação de valores, entre outros. Como essa célula criminosa tem uma arquitetura mais elaborada, a investigação também tem que usar ferramentas extraordinárias de apuração", detalha Granja.

No entanto, por se tratar justamente de uma investigação mais complexa, os trabalhos podem levar cerca de seis meses.

SURPREENDIDOS

Para o delegado da Deic, são vários os pontos que podem também justificar esse aumento expressivo neste ano. Ele avalia que, como os reeducandos ficaram um longo período sem saídas temporárias, trabalho externo e visitas, por conta da pandemia, acabaram surpreendidos pelo fortalecimento do esquema de segurança nas penitenciárias após o retorno dos benefícios.

"Para introduzir os ilícitos, os presos engolem e se alimentam de algo para que o bolo alimentar camufle o pacote no estômago ou intestino ao passar pelo escâner, na tentativa de desbaratinar os policiais penais. Mas, como os agentes estão preparados, conseguem identificar o corpo estranho mesmo assim", complementa Kleber Granja.

Quando o item é expelido, identificam, na maioria das vezes, porções de drogas, principalmente da k4, popularmente conhecida como maconha sintética, pequenos aparelhos celulares e dinheiro.

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