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Política

Lula rejeita cenário pessimista no País

O ex-presidente minimizou a desaceleração do crescimento econômico e ironizou o medo da volta da ?hiperinflação?

por Vinicius Lousada

10/08/2013 - 05h00

Evitando a imprensa, bem-humorado com a militância, ovacionado por ela e cutucando o entusiasmo pelo lançamento de Alexandre Padilha como nome para a disputa pelo governo do Estado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou durante 20 minutos na abertura do Encontro do Interior de São Paulo do Partido dos Trabalhadores. Além de elencar avanços dos 10 anos de poder no governo federal, ele criticou o cenário de pessimismo em torno dos rumos do País.

Malavolta Jr.

Lula esteve acompanhado de Edinho Silva, Gilberto Carvalho, Alexandre Padilha e Rui Falcão, do comando petista

Lula afirmou que o PT cresceu demais e, em razão disso, a classe que governou o Brasil “desde quando Cabral chegou por aqui” tenta criar situações. “É preciso que a gente fique esperto para entender o que eles fazem”.

Aproveitando a melhora no índice de inflação – que em julho foi o menor dos últimos três anos -, ele ironizou a preocupação com a taxa de 6% anual, lembrando que, quando era metalúrgico, ela era de 80% ao mês. “Se tem alguém que vai fazer o possível e o impossível para não deixar a inflação voltar vai ser o governo do PT e da presidente Dilma [Rousseff]”.

O petista também minimizou o crescimento da economia aquém do esperado, argumentando que a tendência é a mesma em países emergentes como a China e a Índia. Segundo ele, o mundo não saiu completamente da crise porque os dirigentes preferem salvar bancos a pensar nos trabalhadores.

Além dos investimentos em infraestrutura, obras e do futuro do Pré-Sal, Lula enalteceu a abertura de universidades públicas e o acesso às privadas para as pessoas mais pobres, por meio do Pró-Uni. “Quem imaginava que o filho do faxineiro pudesse se formar engenheiro ou que a filha da empregada como médica”, disse, lembrando que estudou apenas até o quarto ano primário.

O ex-presidente da República disse ainda que, nos governos do PT, todas as denúncias de corrupção foram investigadas, dando fim à prática de jogar tudo para debaixo do tapete. “Quem fizer errado, tem que pagar. Vale para o PT e vale para os tucanos”.

Povo nas ruas

Lula ironizou a interpretação de que o movimento das ruas é sinal de enfraquecimento do governo petista. Segundo sua avaliação, o partido criou condições de ascensão social e, agora, essas pessoas querem mais. “O povo não se contenta mais com o ‘Minha Casa Minha Vida’. Quer a casa, mas com garagem e biblioteca. As pessoas compraram carros e, agora, cobram que o prefeito de sua cidade abra mais ruas”.

O presidente de honra da sigla disse que o PT não deve temer o debate e o diálogo com essas as movimentações, mas orientou que os políticos reajam quando chamados de ladrões de forma generalizada. “Só temos que ter medo daqueles que querem negar a política. Exemplos disso são Hitler e Mussolini”.

Saúde

O petista falou ainda sobre sua saúde. Ao justificar que precisaria ir embora às 21h – após ter subido ao palco por volta das 19h30 -, disse que precisou antecipar seus exames para desmentir boatos de que seu câncer teria voltado. Lula chamou os autores do boato de canalhas.

Ele também tentou desmentir a imprensa, dizendo que nunca conversou ou articulou sobre a candidatura de Alexandre Padilha ao governo do Estado.


Otimismo

Coube a Lula dar uma injeção de ânimo na militância em relação à eleição para governador do Estado do ano que vem. O PSDB – principal adversário dos petistas – está no poder desde 1995. “Nunca tivemos oportunidade como essa para ganhar São Paulo”. Apesar disso, o ex-presidente salientou que, para aproveitá-lo, a sigla precisa se mobilizar e construir uma aliança forte de partidos; e não poupou os adversários. “Tucano não é bobo. Eles têm aquele bico grande para enganar muita gente”.

Rui Falcão também pediu aos petistas que não se desanimem com as pesquisas que apontam queda nas intenções de voto à presidente Dilma Rousseff.


Militância aclama Padilha candidato ao governo

Os gritos da militância, os discursos e as faixas espalhadas pelo Haras Canarin não esconderam que o ministro da Saúde será o nome a ser lançado pelo PT na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes no ano que vem. Coube ao presidente estadual da sigla, Edinho Silva, e ao secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, colocar panos quentes.

No entanto, Lula apimentou a discussão. “Disseram que ele não é candidato, mas na hora que pegou a palavra, falou como candidato”, brincou o ex-presidente, arrancando aplausos dos militantes.

O petista explicou, porém, a importância de que Alexandre Padilha fique no Ministério da Saúde até que o Congresso Nacional aprove a Medida Provisória do programa “Mais Médicos”. “Depois, ele sai para a briga que quiser. É o que a gente espera de um discurso tão emocionado [do ministro]”, pontuou, antes de frisar a importância da reeleição de Dilma Rousseff.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, se apropriou de versos de Milton Nascimento – com algumas alterações – para dizer a Padilha: “Se muito vale o que já fez, mais vale o que virá”. Depois, emendou: “Cada um entenda como quiser”.

Alexandre Padilha não falou sobre candidatura em 2014. Apesar disso, soltou que “é com o PT e seus aliados que vamos fazer uma São Paulo melhor e mais justa”. O petista enumerou alguns investimentos e projetos do governo federal em parceria com os municípios, como a implantação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e obras em mais de 1.500 unidades de Saúde básica País afora. “Não existe uma cidade paulista que não receba algum tipo de recurso do Ministério da Saúde”.

Padilha também defendeu o programa “Mais Médicos” – que deve ser sua bandeira de campanha. “Vamos continuar investindo em estrutura, mas sem médico não se faz atendimento. Eu me apaixonei pela medicina quando, ainda pequeno, via minha mãe atender comunidades pobres aos sábados e domingos quando ainda sequer existia o SUS”.

O ministro cutucou as entidades médicas contrárias ao projeto, alegando que interesses corporativistas não podem sobrepor políticas públicas. “Eu também sou médico e nós não vamos tirar o emprego de ninguém”.

Empolgada

O discurso pró-Padilha mais entusiasmado, porém, partiu da vice-prefeita Estela Almagro (PT). “Eu sou disciplinada, mas como militante não posso deixar de dizer: sou Padilha governador!”.

A petista lembrou o decreto de estado de calamidade na saúde no município, em função da falta de leitos hospitalares “por omissão do governador”, segundo ela. Estela emendou que, se pudessem, todos os municípios paulistas decretariam calamidade na educação e na segurança pública. “São Paulo está doente. E não é qualquer médico que pode tirá-lo da UTI. Não é esse anestesista do Alckmin que vai tirar o Estado dessa situação. É de um sanitarista [Padilha] que precisamos”.

Fora do haras, seis pessoas estenderam faixas cobrando reajuste da tabela do SUS para as Santas Casas e melhorias na saúde pública de Bauru.