Bauru

Política

'Poder público precisa rever forma de encarar as adolescentes grávidas'

Afirmação é de especialista do Estado; números da gravidez na adolescência em Bauru foram detalhados ontem

por Tânia Morbi

12/05/2022 - 05h00

JuRehder

Gravidez

A coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde, Albertina Duarte Takiuti, avalia que a gravidez na adolescência é um fenômeno culturalmente hereditário, que faz aumentar as diferenças sociais. A médica participou da audiência que debateu a gravidez na adolescência em Bauru, realizada nesta quarta-feira (11), na Câmara, chamada pela vereadora Chiara Ranieri (União Brasil), como presidente da Comissão de Educação e Assistência Social da Câmara. "Gravidez na adolescência é um caminho de escravidão, aumenta a desigualdade. Quem engravida precisa de muito mais esforço e mais apoio para continuar adolescente, e não por acaso é a mulher pobre, negra, de periferia que engravida mais", afirmou.

Na avaliação da especialista, o poder público precisa rever a forma como trata as jovens que engravidam. "O Estado tem que assumir que ela não é culpada, é vítima, que não foi um desejo ou opção, mas falta de opções. Ela não teve garantias de saúde, de educação ou de futuro", garantiu.

Em sua opinião, compartilhada por todos os participantes do evento, todos os setores da sociedade precisam trabalhar de forma conjunta para desenvolverem ações eficientes de prevenção. "Temos que aprender que este adolescente precisa ter espaços de autoestima, muitas vezes não é a escola, não é família, mas o conjunto", comentou

NÚMEROS

A audiência foi proposta pela vereadora Chiara após ter acesso a informações sobre os casos de gravidez na adolescência ocorridos entre os anos de 2018 e 2021, detalhados por setores, regiões e bairros da cidade, além de números relativos à idade das adolescentes e mês de nascimento dos bebês. Bauru teve 1.338 adolescentes que deram à luz, quando tinham entre 12 e 18 anos.

Entre todos que participaram da audiência, foi unânime a constatação de que Bauru não possui uma política pública que reúna objetivos e diretrizes comuns, de todos os setores sociais envolvidos, voltada para este tema. "Aqui em Bauru, estamos longe de ter uma política direcionada aos adolescentes - esse debate existe no Estado há quase 20 anos. É preciso avançar", avaliou Chiara.

Participaram vereadores, representantes das secretarias de Saúde, Educação e Bem-Estar Social (Sebes), a coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde, Albertina Duarte Takiuti, e o Procurador da República do Ministério Público Federal Pedro Antônio de Oliveira.

NÃO ACOMPANHOU

O diretor da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde, Ezequiel Santos, que representou a secretária, Alana Burgo, que testou positivo para Covid-19, ressaltou que é preciso desenvolver uma política pública direcionada ao bem-estar do adolescente.

Ezequiel apresentou índices que mostram que Bauru não conseguiu acompanhar os indicadores de redução da gravidez na adolescência alcançados pelo Estado de São Paulo e pelo Brasil. Sua fonte foi o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc).

Entre 2010 e 2020, enquanto em todo país o índice de gestantes adolescentes, entre todas as mulheres grávidas, era de 19,3% e foi pata 13,9% em 2020, e no Estado houve redução de 14,8% para 9,8%; em Bauru, passou de 14,1% para 11,2%.

AÇÃO CONJUNTA

A diretora de Departamento da Proteção Social Especial da Sebes, Rose Maria Carrara Orlato, comentou as consequências da gestação nesta faixa etária. Segundo ela, ocorrem 60% de evasão escolar; em 80% dos casos o pai não assume a paternidade e em 70% das vezes a criança é cuidada pelas avós maternas.

Pela Educação, a coordenadora da área de Ciências da Secretaria de Educação, Eliége da Silva Meneghetti, concordou que são necessárias ações conjuntas para abordar o problema.

"Este assunto é muito complexo e necessita de várias instituições vinculadas trabalhando em equipe para que haja efetividade nas ações", afirmou.

O presidente da Comissão de Saúde da OAB-Bauru, Carlos Alexandre de Carvalho, resumiu. "A gente só vai ter desenvolvimento social quando começarmos os problemas de forma conjunta".

Participaram também da audiência representantes dos Conselhos Tutelares 1 e 2, e municipais de Educação; da Assistência Social (CMAS), de Saúde, dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), e de Políticas para as Mulheres.

Ler matéria completa

×