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Regional

Morte de abelhas ainda é mistério

Após 9 meses do envio de material para o IC, laudo não saiu sobre a causa da morte de milhares de insetos em Lençóis

por Lilian Grasiela

14/01/2012 - 10h45

Lençóis Paulista – Após quase nove meses do envio de material para análise, o laudo que poderá apontar o que causou a morte de milhares de abelhas, no final de abril do ano passado, em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru), ainda não ficou pronto. O fenômeno, que permanece um mistério, voltou a ocorrer e, agora, o apicultor responsável pela denúncia inicial promete recorrer à Justiça para descobrir qual a causa do problema.

O professor Celso Eduardo Jacon percebeu que suas abelhas europeias e meliponinas (sem ferrão) estavam morrendo sem nenhuma razão aparente em abril de 2011. A colmeia era cultivada por ele em uma propriedade às margens da rodovia Osni Mateus (SP-261), na zona rural de Lençóis, para efeitos de pesquisa e produção de mel. No total, aproximadamente dez colmeias foram extintas.

Na época, o professor relatou que sítios vizinhos também estavam enfrentando o mesmo problema e estimou que cerca de 40 colmeias haviam sido extintas em apenas uma semana na região, o que representa média de seis milhões de abelhas. Um boletim de ocorrência de dano foi registrado na delegacia do município no dia 29 de abril e amostras de animais mortos e mel foram enviados ao Instituto de Criminalística (IC) em São Paulo para análise.

Contudo, após quase nove meses de espera, Jacon revela que o laudo que poderia indicar o que causou a morte das abelhas ainda não retornou à delegacia e que o caso permanece um mistério. Ele acredita que as colmeias foram envenenadas por defensivos agrícolas que são aplicados em lavouras de cana-de-açúcar. "Eu gostaria de saber o que está acontecendo porque isso está matando nós também", diz.

A Polícia Civil do município confirmou ontem que o laudo do IC ainda não chegou à delegacia e que um ofício foi enviado ao órgão em São Paulo cobrando o envio do resultado das análises. Ainda segundo a Polícia Civil, o IC se comprometeu a enviar o laudo à delegacia no prazo de dez dias para que as investigações possam ter início.

 

Sem ter a quem recorrer

O professor Celso Eduardo Jacon revelou que não sabe mais a quem recorrer para solucionar o mistério em torno da morte das abelhas. Além do registro do fato junto à Polícia Civil, na época em que o fato foi descoberto, ele chegou a procurar a diretoria de Agricultura e Meio Ambiente de Lençóis, mas o órgão não teria lhe dado retorno.

Orientado pelo advogado Benedito Antônio de Camargo, ontem, Jacon registrou novo boletim de ocorrência na delegacia de Lençóis Paulista para comunicar que a morte misteriosa de abelhas criadas por ele para monitoramento voltou a ocorrer, desta vez na região onde mora, na área urbana do município.

Antes, ele chegou a participar de reunião na Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) em Bauru, órgão vinculado à Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento, onde foi orientado por apicultores a pagar pela realização do exame nas abelhas mortas.

O professor revela que entrou em contato com a Casa da Agricultura em Lençóis, mas que o órgão disse que não pode fazer nada. "Que raio de Secretaria de Agricultura que nós temos nesse país que não oferece essas condições para os produtores?", questiona. Agora, ele diz que pretende recorrer à Justiça para descobrir a causa da morte das colmeias.

O advogado de Jacon informou que, na próxima segunda-feira, vai levar o problema ao conhecimento da prefeita da cidade, Izabel Cristina Campanari Lorenzetti (PSDB), para que o município ajude a solucionar o fato.

 

Morte de abelhas em Iacanga

Em agosto de 2010, apicultores da região de Iacanga (50 quilômetros de Bauru) detectaram a morte de 250 colmeias em diversas fazendas. Até o final do ano, foram contabilizadas aproximadamente 8 milhões de abelhas mortas, que resultaram em prejuízos estimados em R$ 50 mil. O caso foi denunciado ao Jornal da Cidade pelo então presidente da Associação Bauruense de Apicultores Meliponicultores e Ambientalistas (Abama), Guilherme Carlos de Oliveira Telles Nunes. A suspeita, segundo ele, era de que as abelhas tivessem morrido em decorrência de contaminação por Fipronil, agrotóxico de uso controlado – conhecido como Regent – que não pode ser aplicado em citrus, mas estaria sendo utilizado em plantações de laranja nas imediações das propriedades onde ficavam as colmeias. O caso também foi denunciado na delegacia de polícia de Iacanga, Polícia Ambiental e Casa da Agricultura da cidade.

No dia 17 de agosto, três produtores contrataram o advogado Alexandre Abdala, que levou o caso à Promotoria de Justiça de Ibitinga. Por meio de ação cautelar, Abdala conseguiu autorização para que fossem colhidas amostras da plantação de laranja de uma fazenda onde um funcionário teria confirmado o uso do Fipronil na florada da fruta. Análises feitas por laboratório de Piracicaba confirmaram a presença do agrotóxico na plantação.

No início de 2011, o delegado de Iacanga, Doniseti José Pinezi, concluiu as investigações sobre o caso e relatou o inquérito ao Juízo de Ibitinga pedindo a responsabilização do dono da propriedade onde foi aplicado o Regent por crime ambiental. Em depoimento, ele negou ter usado o produto no laranjal, mas o delegado ressaltou que se baseou em laudos documentais e testemunhais para solicitar sua condenação.