Bauru e grande região

Regional

Veículos em más condições na via

por Rita de Cássia Cornélio

28/07/2013 - 05h00

Não há quem não tenha visto nas ruas ou nas rodovias o trânsito de veículos com mais de 20 anos em péssimas condições de uso. Carros sem manutenção oferecem perigo não só para aqueles que viajam nele, como para os demais usuários da via. Mas por que eles ainda continuam circulando? Essa é a pergunta que não cala. Falta fiscalização rigorosa? A inspeção veicular não está totalmente implantada como dita o Código de Trânsito? Ou ainda, por que os usuários não são conscientes das consequências de uma falha mecânica?

 

Quioshi Goto

“Sem vistoria e fiscalização eficientes, veículos em más condições de conservação continuam transitando pelas ruas e rodovias de todo o País”, diz Archimedes Raia Jr.

Especialistas no assunto avaliam que uma série de itens faz com que os veículos em más condições continuem dividindo espaço com carros mais potentes e seguros em todo o País. Recentemente, na rodovia Marechal Rondon, uma Brasília pegou fogo durante o trajeto Bauru/Pirajuí. O condutor não teve como fugir da apreensão daquilo que restou do carro, e ainda vai responder pela falta de licenciamento.


É bem verdade que a maioria desses veículos está na posse de pessoas de baixa renda e que regularizá-los é sinônimo de ficar sem o carro. Em muitos casos, a despesa com a manutenção do veículo é maior do que o preço dele. Então, ele coloca o carro para rodar até o dia em que a polícia recolher. Isso pode representar anos de uso contínuo, desde que esse motorista saiba onde não circular.


A falha na fiscalização é apontada pelos especialistas como uma das causas de veículos sem condições de tráfego frequentarem as ruas e rodovias brasileiras. Sem contar as carroças e tratores que transitam irregularmente pelas rodovias do Interior, colocando em risco a vida de seus condutores e de outras pessoas que transitam próximo.


O comerciante João Ângelo, conhecido como João da Barraca, estabelecido no quilômetro 365 da rodovia Bauru/Iacanga, diz que veículos em péssimas condições de uso são raros em circulação naquela área. “Houve um tempo em que eles eram muitos, mas com as facilidades oferecidas para a compra de carro novo, a situação mudou.”


De vez em quando, ele ainda vê algum veículo nessa situação transitando na rodovia. “Eles circulam nos finais de tarde e bem cedo para evitar serem fiscalizados. Saem de propriedades rurais e usam um trecho da rodovia de pista simples para ir pescar ou visitar algum conhecido em outro sítio. Eles se movimentam lentamente e muitas vezes atrapalham os caminhões.”


Ele diz que nunca viu um acidente envolvendo os carros em péssimas condições de uso. “Eles andam pouco e principalmente nos finais de semana, em horários que o trânsito é mais tranquilo.”


Mas então, por que algumas pessoas continuam a usar carros velhos sem manutenção se os novos podem ser financiados em até 72 meses? De acordo com especialistas, o jeitinho brasileiro ainda está em vigor. O proprietário vai usando o carro até a polícia apreender. Quando isso ocorre, ele abandona o bem. Só que ele não percebe que, usando o carro sem manutenção, pode ceifar vidas. Vale lembrar que as indenizações por morte no trânsito chegam à cifra de R$ 1,2 milhão.

 

Malavolta Jr.

Edson, do Senai: “Dono de carro antigo não pode relaxar, senão, a manutenção sai cara”

 

Cerca de 30% da frota está irregular

Aspecto social está entre os principais entraves para a renovação dos veículos com mais de 20 anos, diz especialista

 

Aproximadamente 30% dos veículos que circulam pelo Brasil apresentam alguma irregularidade, segundo o engenheiro mestre e doutor em engenharia de transportes especialista em engenharia e segurança, professor Archimedes Raia Jr.


“Hoje temos uma estimativa de que cerca de 30% da frota brasileira é irregular. Alguns não têm documentação, outros estão com problemas mecânicos. Sem vistoria e fiscalização eficientes, eles continuam transitando pelas ruas e rodovias de todo o País.”


Ele critica a fiscalização e acha que a segurança coletiva não deve ser comprometida por interesses individuais. “Se é sabido que 30% da frota é irregular, por que essa frota não é retirada das ruas? Existem vários aspectos a serem considerados. O aspecto social é um deles. Muitos desses veículos são usados por pessoas de baixa renda que precisam trabalhar etc. Com isso, mais uma vez a segurança coletiva fica comprometida por interesses individuais.”


Se a fiscalização fosse eficiente e a inspeção veicular estivesse efetivamente implantada, muitos desses carros não estariam ocupando espaço nas vias brasileiras. “Muitos dos veículos em más condições de uso não têm documentação, por isso, nem passariam pela inspeção. Mas se a fiscalização fosse eficiente, esse carro seria apreendido.”


Na opinião dele, os usuários de carros em más condições de uso continuam circulando de caso pensado. “Ou seja, ele vai usando enquanto não for pego. Se a polícia apreender, ele abandona. Em muitos casos a regularização da documentação e da parte mecânica custa mais caro do que o valor do carro. A gente cansa de ver nas ruas e estradas carros sem condições de transitar. Eles passam pelo posto policial, mas poucos são abordados, infelizmente falta fiscalização”, diz Archimedes.



Concessionárias


O assessor técnico de segurança viária da AD Seguros Erasmo Guimarães enfatiza que os veículos fora de linha, com mais de 20 anos de fabricação, têm maior probabilidade de apresentar problemas.


“No sistema de freio, problemas na suspensão, quebra de um pivô, de um eixo. O estouro de um pneu pode provocar um acidente. Essas falhas mecânicas estão presentes em veículos antigos que não passam por manutenção e geralmente ocasionam acidentes.”


Na opinião dele, retirá-los da rodovia é só através da fiscalização. “As concessionárias das rodovias não têm o poder da fiscalização, o poder de polícia. Ela poderia, em tese, quando um veículo passasse pela praça de pedágio, interditar esse veículo. Mas não foi dada a ela essa incumbência. Então a Polícia Rodoviária é a fiscalizadora.”


Ele acha que os policiais que ficam nas bases das rodovias poderiam ficar atentos à passagem desses veículos e efetuar uma inspeção básica. Isso já seria o suficiente para retirar ou manter veículos antigos em circulação. “Eles poderiam fazer uma inspeção básica. Especialmente no sistema de segurança, direção, parte elétrica e freios. Isso seria suficiente”, avalia Guimarães.


Fiscalizações

A Polícia Rodoviária explica que são realizadas fiscalizações rotineiras em diversos pontos da malha viária da região. “Dependendo do tipo de infração constatada, esses veículos podem ser retirados das rodovias. Geralmente eles são recolhidos quando oferecem riscos de segurança viária,” explica o tenente Fernando Ferreira de Morais.  


Ele aponta como dificuldade para a fiscalização o fato dos cidadãos evitarem transitar em áreas onde a presença da polícia é constante. “O cidadão, sabendo das condições de seu veículo, evita transitar onde ele sabe que pode ter viatura policial em fiscalização. Evita passar na base policial.”


Para o tenente, quando um veículo quebra sobre a faixa de rolamento, coloca em risco a segurança dos demais usuários da via. “O veículo no acostamento atrapalha os demais usuários.”

Educação para reduzir acidentes

O coordenador do curso de mecânica do Senai/Bauru, Edson Silva acha que falta conscientização dos condutores na receita para diminuir o número de veículos em más condições de uso em circulação e, consequentemente, os acidentes provocados por eles.


“Eles estão presentes nas ruas das cidades e nas rodovias e apresentam perigo. Vou citar um exemplo que aconteceu comigo. Eu parei atrás de um ônibus que foi pegar passageiro. Veio um Corcel sem freio. Bateu atrás do meu carro e empurrou-o para baixo do ônibus. Com o impacto, meu carro chegou a levantar o ônibus. Eu quase quebrei o pescoço. Poderia ter sido fatal.”


Na opinião dele, geralmente os carros mais antigos estão nas mãos das pessoas menos abastadas. “E que não têm conhecimento. Infelizmente, nas escolas só se aprende português, geografia etc. Ninguém fala de segurança. Recentemente começou uma discussão para incluir a disciplina de trânsito nas escolas.”


“Um motorista que não é prudente vai rodando com o veículo até que ele quebre ou que seja apreendido pela polícia. Ele não tem consciência de que um acidente pode matar uma pessoa. Problemas no pneu, suspensão, freio, direção são sistemas que quando falham, geralmente causam acidentes.”

Veículo deveria ter vida útil de 10 anos

Um veículo deveria ser usado por 10 anos. É claro que há exceções. Após esse tempo, o carro começa a apresentar problemas e o gasto com manutenção muitas vezes não compensa, explica o professor de mecânica e coordenador do curso do Senai/Bauru, Edson da Silva.


“Depende do usuário. Há aqueles que rodam 10 mil km/ano e aqueles que circulam 50 mil km/ano. Em média, o carro deveria ter vida útil de 10 anos, porque após esse período a manutenção se torna onerosa.”


A dica do especialista é ir ‘consertando’ aos poucos e não deixar os problemas se acumularem para não sentir muito os gastos. “O preço da peça para o carro velho e novo é o mesmo. Quando você troca um pneu no carro novo, está com um carro novo. Quando você coloca um pneu novo em carro velho, ele continua velho. O dono do carro mais antigo não pode relaxar. Do contrário, a manutenção vai onerar o bolso dele.”


Ele ensina aos menos avisados que os problemas mais graves que um veículo pode apresentar dão “aviso”.


“Tanto a suspensão, freio e direção avisam que vão dar problema. Se o condutor pisar no freio e der ruído, o carro deve ser levado para a oficina. Se o carro passar sobre um buraco e fizer barulho é problema na suspensão, vá para a oficina. Se o volante começar a ficar duro ou com folga, vá para a oficina. Pneus com mais de cinco anos de idade podem apresentar problemas.”


Silva enfatiza que a questão dos pneus deve ser considerada pelos condutores. “O pneu com mais de cinco anos pode desmanchar, porque ele começa a queimar de dentro para fora. Imagina ele desmanchando numa curva? Mesmo o pneu novo pode representar perigo se estiver com baixa pressão. O pneu deve ser calibrado semanalmente.”


A maioria das montadoras, de acordo com o professor de mecânica, pede para verificar os freios a cada 15 mil quilômetros. “Com a revisão de 15 mil quilômetros, o carro se torna mais seguro. Quando o mecânico vai checar esses itens, ele vai ver o fluido de freio, pastilha de freio, pneu, amortecedor, molas, terminal de direção, caixa de direção. O automóvel tem muitos componentes. Às vezes, por conta de um parafuso o carro pode capotar ou bater.”

Custo de manutenção é menor do que o valor de indenizações

O assessor de segurança viária da AD Corretora de Seguros Erasmo Guimarães é enfático em afirmar que dar manutenção em veículos é mais barato do que pagar uma indenização em caso de acidente. A regra é válida tanto para os proprietários de carros de passeio quanto para as empresas transportadoras. Segundo ele, as indenizações por morte no trânsito têm gerado valores na casa de R$ 1 milhão a R$ 1,2 milhão.


Guimarães, através da seguradora, discute com nove concessionárias de rodovias a segurança viária. “Damos assessoria para as concessionárias. Temos um projeto chamado segurança de acidentes. Fazemos reuniões periódicas com as concessionárias analisando aqueles que geraram mortes.”


Segundo ele, a equipe percebeu que se um veículo sem manutenção se envolver em um acidente, a empresa vai arcar com indenizações. “Pode parecer que a manutenção do veículo gere custo, mas mesmo assim, ainda é menor do que os valores arbitrados pela Justiça no caso de morte, no mínimo R$ 1 milhão. É um montante vultoso.”


Recentemente, um caminhão de uma transportadora de madeira se envolveu em um acidente fatal na área da Cart. O acidente foi trágico, vitimou duas pessoas. “O veículo não estava em boas condições para trafegar. É bem verdade que a ação do motorista cooperou para o evento, uma vez que fez uma ultrapassagem sem condições”, observa Guimarães.


O especialista explica que os acidentes provocados por defeito nos veículos são muito poucos. “Eles aconteciam há muito tempo atrás, falha mecânica imprevisível ao motorista. Hoje, com os veículos novos não há grandes possibilidades de ocorrer essa falha mecânica. As indústrias automobilísticas são muito criteriosas com a questão segurança, fazem recall quando percebem algum defeito.”


Guimarães frisa que o que se percebe nos acidentes envolvendo veículos em mau estado de conservação na região é que o condutor está sendo negligente. Para ele, o foco deve ser o condutor. “Temos estatísticas que mostram que 92% dos acidentes são provocados por falhas humanas. Inclusive se houver uma falha no veículo, antes de ter a falha nele, acontece a falha humana. Porque ele sabe que o carro não tem condições de estar circulando.”

 

Inspeção: problema que permanece

A inspeção veicular só é obrigatória em São Paulo e no Rio de Janeiro; Código de Trânsito prevê apenas “check-up”

 

A inspeção veicular, de acordo com o Código de Trânsito, é uma ação anual que deve ser feita na época da renovação do licenciamento. Nessa oportunidade, deverá ser observada toda a parte mecânica, a emissão de poluentes e vários outros itens. Porém, como não está implantada em Bauru e região, os veículos sem condições de uso continuam transitando.

 

Quioshi Goto

A inspeção feita nos municípios só verifica a numeração do chassi para evitar furtos; a segurança fica “em haver”

O fato é que até hoje a inspeção veicular não está efetivamente implantada, ressalta o professor doutor Archimedes Raia Jr. “Só existe em São Paulo, Rio de Janeiro, fora disso não existe. A inspeção veicular de acordo com a lei não é essa inspeção feita na Ciretran. Aquela que dá uma olhadinha quando o proprietário vai transferir o carro.”


Ele explica que a inspeção feita atualmente só verifica e fotografa a numeração do chassi. “É mais focada na questão dos furtos e roubos de veículos. Na verdade, quando levamos na oficina credenciada eles tiram fotos do número chassi para impedir a transferência desses bens.”


A inspeção veicular prevista no Código Brasileiro de Trânsito é como um check-up no carro. “Eles terão que verificar a situação dos freios, se o veículo emite poluentes, se tem catalisador, escapamento, ou seja, seria um check-up do carro.


Como os humanos fazem um check-up no médico, a inspeção é feita em uma oficina credenciada. No Brasil todo não tem. É uma discussão grande porque envolve muito dinheiro. Estados e municípios discutem quem fará a  inspeção e quem será o responsável.”


O professor de mecânica e coordenador do curso do Senai/Bauru, Edson da Silva concorda com Archimedes.


“Na cidade de São Paulo, que tem dinheiro, não está acontecendo como deveria. Imagina nas cidades do Interior e no Norte/Nordeste. A lei está lá, mas há uma disputa para saber quem ganha mais com essa lei. A inspeção é cobrada e um negócio bastante lucrativo. A pessoa monta um negócio com cliente garantido. A lei está nessa situação, quem vai ganhar a licitação para montar esse tipo de empresa?”


Silva frisa que na década de 80 começou-se a falar de inspeção veicular. “A coisa se arrastou para a década de 90, se arrastou de novo e estamos indo para 2013, e não sai do papel. Em São Paulo começaram a fazer inspeção veicular preocupados com a poluição, e não com segurança. Se um dia a inspeção veicular for efetivada em todo o País, vamos nos igualar à Europa. A vida de um carro vai ter no máximo 10 anos.”


A inspeção veicular ambiental é uma medida prevista no Código Brasileiro de Trânsito que visa avaliar a emissão de poluentes de automóveis e motos. Atualmente é adotada somente na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro. Visa reduzir a quantidade de poluentes emitidos pelos veículos nas cidades.


Na vistoria, os técnicos verificam se o motor está regulado, se há emissão visível de fumaça, vazamentos aparentes ou alteração no sistema de escapamento e medem os níveis de ruído e de emissão de monóxido de carbono e hidrocarbonetos, os dois principais poluentes emitidos pelos carros.


Na cidade de São Paulo, além de motos e veículos a diesel, somente os carros fabricados a partir de 2003 estão obrigados a passar pela inspeção, condição para conseguir o licenciamento.