Bauru e grande região

Regional

Região tem obras de arte em igrejas

por Rita de Cássia Cornélio

11/08/2013 - 05h00

Éder Azevedo

Igreja Nossa Senhora do Patrocínio, em Jaú

A Igreja Católica ainda está em festa. Recentemente, a autoridade máxima, o papa Francisco, visitou o País e deixou um caminho mais claro para todos os cristãos. Da região de Bauru, partiram várias caravanas de fiéis para participar da Jornada Mundial da Juventude. De Jaú, foram 50 jovens da matriz de Nossa Senhora do Patrocínio. Outras 11 paróquias da cidade também levaram seus fiéis para ver e ouvir o papa.

O retorno dos fiéis deu ânimo para a igreja, confessa o padre da matriz Nossa Senhora do Patrocínio de Jaú Celso Luiz Buscariolo. “Os nossos jovens foram de ônibus acompanhados do padre Tiago e voltaram muito animados para trabalhar com a comunidade.”

Para ele, o papa é uma pessoa feliz, faz aquilo que gosta, é transparente. “Quando ele quer  falar,  fala, do contrário, não fala.  Ele é ele mesmo, é real, não é uma pessoa que encena uma postura. Ele tem uma linguagem mais próxima da gente, que vem de encontro com as expectativas, ele conhece a nossa realidade.”

Padre Buscariolo lembra que tivemos vários papas com muito carisma, mas todos europeus. “O Bento XVI, sábio, inteligente, assim como o João Paulo II, mas não tinham a nossa linguagem, o nosso jeito. Agora temos um papa que viu de perto os nossos problemas, muito semelhantes aos da Argentina”. 

O momento, na opinião do padre, é de reflexão. “O papa falou sobre aqueles que deixaram á igreja e isso nos leva a reflexão. Ele reconheceu que a igreja não foi mãe, não abraçou, não acolheu como deveria seus fiéis. Isso nos leva a refletir sobre nossa atuação como missionários. Muitas vezes, o cotidiano enfraquece a ação pastoral, a nossa atitude como pastor. Vamos buscar inspiração nas palavras do papara para poder viver como pastor, cuidar do rebanho e dar a vida por ele.”

Mas a igreja nem sempre foi assim. Houve um tempo em que erguer templos era o foco. Na região, muitas igrejas católicas conservam até hoje obras de arte e se tornaram atrativos turísticos.  Em Bocaina, a matriz de São João Batista conserva 13 telas de Benedito Calixto, que foram restauradas recentemente. O templo tem ainda vitrais que são cabalas judaicas e lustres que são réplicas do Palácio de Versalles. No dia do padroeiro, a igreja recebe turistas de todo o país que além de participar do evento, conhecem obras de muito estilo.

Na cidade de Jaú, a matriz Nossa Senhora do Patrocínio tem estilo gótico e abriga obras do casal Makk, responsáveis pelas pinturas sacras concluídas em 1962. Tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal, o templo passa por período de restauração.

Em Avaí, a matriz passa por reforma externa, o telhado já foi trocado. As pinturas sacras que retratam o milagre da água e vinho, o batismo de Jesus dentre outros, de autoria de Alberto Paulovick, carecem de restauração. A comunidade busca verbas para fazer o trabalho.

 

Bocaina: igreja esconde ‘tesouros’

Visitar a Igreja Matriz de São João Batista de Bocaina é uma verdadeira aula de artes. Nela há vitrais, telas de Benedito Calixto e muita história interessante. Na entrada do templo foram construídas portas para barrar as pessoas “impuras”, que só tinham acesso ao interior dela após usarem água benta disposta em uma pia.

O professor de história João Batista Gabriel não economiza elogios à matriz. Ele frisa que além das obras de Calixto, que atraem inúmeros turistas, o templo tem outros atrativos. “Há vitrais interessantes. Dois deles redondos, dispostos na área central da igreja, que são cabalas judaicas. Chama a atenção porque são cabalas judaicas no interior de uma igreja cristã.»

Os lustres são atrativos a parte para os visitantes que se dispõem a olhar para cima. “São réplicas dos lustres do Palácio de Versalhes, com vários detalhes. Na entrada da matriz, portas de madeira interna foram instaladas para barrar as pessoas impuras que deveriam ficar do lado de fora. Elas entravam na porta principal e eram ‘impedidas de entrar’ pelas portas laterais de madeira. Ao lado delas havia uma pia com água benta. A pessoa “impura” entrava e se benzia na pia com água benta e só então podia entrar na igreja.”

A matriz possui paredes decoradas sem ponto de descanso, enfatiza o professor. “A igreja possui vários estilos. Tem colunas romanas, capitel (extremidade superior de uma coluna) que é grego. O trabalho feito nas paredes não possui ponto de descanso.”

As 13 telas de Benedito Calixto são, sem dúvida, o maior atrativo. “As telas foram colocadas nas paredes e o restauro, ocorrido durante o ano de 2008, ocorreu no local. Elas não foram retiradas para que não sofressem danos.”

Todas as telas já foram restauradas. O valor da restauração foi de R$ 270 mil, uma média de R$ 13 mil cada obra, fruto da Lei Rounet, onde várias empresas contribuem para a restauração de uma obra. “A igreja fica aberta para visitação. Quando ela não está aberta, o visitante pode ir até a secretaria que fica em frente a matriz e pedir que ela seja aberta. Uma pessoa abre e leva para visitação sem problema algum. Aumentou muito a visitação após o restauro das telas, porque foi amplamente divulgado todo o  processo de restauração. Atraiu e atrai  especialmente estudantes universitários de artes e arquitetura.” 


Matriz conserva acervo artístico 

A matriz de São João Batista em Bocaina (69 quilômetros de Bauru) tem um dos mais ricos acervos artísticos do Estado de São Paulo, as telas de Benedito Calixto, que estão dispostas no interior do templo. Ali também estão os restos mortais do pároco que permaneceu por mais tempo à frente da comunidade local, padre Mariano Curia, que permaneceu por 21 anos na cidade.

Documentos constantes do livro Tombo da Diocese de São Carlos trazem a narrativa do padre Curia relatando a edificação da igreja: “Tomando posse em 17 de maio de 1893, achei a capela bastante pequena e desprovida de altares e outros objetos necessários aos cultos e, em vista disso, nomeei uma comissão composta dos senhores Aquilino José Pacheco, Francisco Pacheco de Almeida Prado, Vicente de Alvarenga Rangel, Victório Garcia de Almeida, Manoel Valadão de Freitas e Joaquim Francisco da Silva, afim de deliberarem e somarem tais faltas”.

Os próprios membros dessa comissão constituída pelo padre foram os responsáveis pela doação do altar-mor e dos altares laterais da capela. Depois de construir os altares e dotar a capela de outras melhorias, obtidas graças à ajuda da comunidade católica do povoado, em 1907 o padre Curia nomeou uma nova comissão de paroquianos, desta vez com o objetivo de promover a ampliação da capela e a edificação de sua torre. “ (...) a 31 de outubro de 1910, recebia inteiramente pronta a nova matriz, entregando ao empreiteiro o saldo que tinha de receber e passando ele um recibo do valor final da empreitada”, relata o padre Curia no livro Tombo da diocese.

A praça da matriz foi inaugurada no dia 12 de novembro de 1899, ainda durante a administração da quarta Intendência (1899 a 1901). Antes, portanto, da transformação da antiga capela no templo que hoje pode ser visto.

Fotografias da época mostram a praça fechada de arame liso, cujos fios eram sustentados por colunas de ferro assentadas sobre um muro baixo, contendo ainda quatro portas, também de ferro. Naquela época, o acesso à praça não era permitido depois de determinado horário da noite.

O maior orgulho de todo morador de Bocaina ao referir-se à Igreja Matriz da cidade não está na praça que a contorna, mas sim nas paredes interiores do templo, que ostentam um dos mais valorosos acervos artísticos de todo o Estado de São Paulo. São as 13 telas sacras de Benedito Calixto, considerado um dos maiores expoentes das artes plásticas brasileiras na segunda metade do século 19 e início do século 20.

 

Obras de Calixto

As obras que se encontram no templo foram as últimas no gênero executadas por Calixto, artista nascido na cidade de Itanhaém em 1853 e falecido em São Paulo no ano de 1927. Calixto chegou em Bocaina no dia 10 de setembro de 1923, iniciando a pintura das telas alguns meses depois.

De acordo com relatos da época,

as obras que se encontram na igreja Matriz de São João Batista poderiam estar ornamentando as paredes da igreja Matriz de Jaú, localizada a pouco mais de 20 quilômetros de Bocaina. Isso só não ocorreu porque, segundo esses relatos, a comissão constituída naquela cidade para entender-se com Calixto não teria chegado a um acordo em torno do preço cobrado pelo artista para a execução do trabalho.

Sabedor deste fato, o então vigário de Bocaina, José Maria Alberto Soares, deu início a uma intensa troca de correspondências com Calixto, ao mesmo tempo em que ia recusando outras propostas para a decoração das paredes do templo. Dessa troca de correspondências teria brotado uma sólida amizade, além de mútua admiração entre o sacerdote e o artista, o que teria influenciado fortemente a decisão dele em aceitar a encomenda das telas para a matriz de Bocaina.

Na primeira encomenda feita a Calixto constavam oito telas: “São João apresentando o Divino Mestre ao Povo”; “Anunciação à Virgem Santíssima”; “Descida da Cruz”; “São João diante de Herodes”; “Decapitação de São João Batista”; “São Pedro”; “São Paulo”; e a “Alegoria ao Santíssimo Sacramento”. Algum tempo depois, foram encomendados outros quatro trabalhos: “Transfiguração de Thabor”; “Discípulos de Emaús”; “Visitação de Nossa Senhora”, e “São Zacharias”.


Jaú tem matriz em estilo gótico

É na área central da cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru) que está a Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio. O prédio, em estilo neogótico, chama a atenção não só pelo valor arquitetônico, mas também pelo valor histórico/religioso. A inauguração do templo ocorreu em 9 de junho de 1901, mesmo não estando completamente concluído.

A planta foi elaborada pelo belga João Lourenço Madein e mostra a forma de cruz com dimensões de 40 metros de comprimento e 19 de largura. Ladeando todo o prédio, há uma mureta trabalhada em arcos. O acesso à porta principal se dá pela escadaria ou pelas rampas laterais. A forma de cruz que foi dada a igreja originou-se da necessidade de uma área maior para a obra.

Na concepção da planta, observou-se a necessidade de aproveitar todo o terreno. Assim não dispondo de área suficiente de fundo, foi preciso aproveitá-lo na largura tanto quanto as proporções o permitissem. Todas as peças, como janelas, colunas etc, são de pedra artificial e fabricadas mesmo em Jaú. A grande janela sobre a entrada principal, assim como as janelas laterais, de seis metros de diâmetro, aos oitões da cruz estão assentadas com essa pedra e dão um aspecto grandioso ao edifício. As telhas foram importadas da França.

Essa foi a terceira igreja erguida no povoado, hoje município de Jaú. A primeira capela que era simples, um rancho de pau-a pique coberto de folhas de jeribá foi inaugurada em 1853. O primeiro pároco de Jaú foi Feliciano de Amorim Sigar.


Lei Rounet para restauro

Em Jaú, os leigos da Igreja Católica formaram uma associação para captar recursos que possibilitem a restauração das pinturas internas e a reforma da matriz Nossa Senhora do Patrocínio. “É uma igreja centenária que foi tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal. Está em processo de restauração. Nela há pinturas do casal Makk que estão sendo restauradas. O prédio todo passa por reforma”, explica o padre Celso Luiz Buscariolo.

A restauração mais a reforma vão custar aproximadamente R$ 4,5 milhões. “Estamos trabalhando na captação de recursos porque, além do restauro das pinturas dos afrescos, vamos recuperar o barrado, pintura externa, revestimento e vitrais.”

O casal Makk, Américo e Eva, pintores sacros internacionais, foram contratados na década de 60 para executarem os painéis da matriz de Jaú. As obras artísticas foram iniciadas em outubro de 1961 e concluídas no ano seguinte.

Durante o andamento dos trabalhos, não faltaram problemas para resolver, já que alguns fiéis mais conservadores estranharam o realismo anatômico das figuras. O rigor com que a anatomia feminina das imagens era tratada – quando Américo reproduzia a fisionomia e as linhas sinuosas do corpo da esposa Eva –, causava incômodo a um grupo de fiéis.


Bancos da matriz de Duartina vieram de Portugal

A Igreja Matriz de Santa Luzia, em Duartina, foi fundada em 26 de abril de 1925, pela diocese de Botucatu. No local onde está instalada, existiu uma capela de madeira que foi destruída por um incêndio. A padroeira é Santa Luzia, a protetora dos olhos.

O templo conserva até hoje os bancos que vieram de Portugal, assim como a imagem da padroeira, confeccionada em madeira. O primeiro padre de Duartina foi Antonio da Graça Cristina, mas o que mais permaneceu na paróquia foi o monsenhor Jorge Antonio Martinelli.


Avaí: matriz tem obra de Alberto Paulovick

A Igreja Matriz de São Sebastião de Avaí (39 quilômetros de Bauru) tem pinturas internas do ano de 1946 executadas pelo artista plástico Alberto Paulovick. A 1ª missa na igreja foi realizada pelo padre Leonardo Hendricks, assim que o altar foi colocado no ano de 1928.

O religioso é tido como o fundador da matriz que substituiu a capela que havia sido construída em 1911. As pinturas internas retratam as Bodas de Caná, o milagre da água e do vinho,  o samaritano, o batismo de Jesus, segundo o vigário paroquial Gilberto José de Melo.

O templo foi construído na praça conhecida como Largo da Matriz até 1916. A construção teve início no mês de outubro de 1927, sendo que em 1930 já estava praticamente erguida, mas sem o acabamento e sem a colocação das duas torres que só foram colocadas no final de 1930. A colocação da imagem de São Sebastião só se deu em 1941, com a presença de quase toda a população avaiense.

 

Reconhecimento

Todos aqueles que colaboraram com a construção do telhado da igreja tiveram seus nomes cravados em um livro que foi pintado no lado esquerdo de quem entra na matriz. “Ao adentrar na matriz, do lado esquerdo de quem entra, deparamos com a pintura de um livro de homenagem, com a página aberta com os nomes das pessoas que contribuíram para a construção do telhado da igreja”, diz o vigário paroquial Gilberto José de Melo.

A igreja passou por reformas. A última foi feita em 1945, de acordo com o vigário paroquial Gilberto José de Melo. “Vamos desencadear uma campanha para fazer a troca do telhado e da iluminação. A igreja está muito danificada. O problema do telhado acabou provocando infiltrações nas paredes que prejudicaram as pinturas sacras.”

Restaurar a pintura de São Sebastião, o padroeiro da igreja é o próximo passo após a reforma. “Estamos fazendo uma pesquisa porque a pintura de São Sebastião não é original. Faltam detalhes. Estamos pensando em fazer a restauração e incluir itens do quadro original”, afirma

Tanto a reforma como a restauração do quadro do padroeiro, de acordo com Melo são em longo prazo. “Para o próximo ano estamos planejando fazer a pintura interna da igreja, mas a reforma vai ocorrendo aos poucos. A comunidade é carente. Conforme os benfeitores vão ajudando, vamos fazendo.”

A matriz ficou vários anos sem religioso, mas no final do ano passado, Melo chegou para atender a necessidade da comunidade. “Cheguei aqui em dezembro como diácono, hoje sou vigário paroquial. Estou residindo no município.”  A igreja matriz de São Sebastião, juntamente com o Museu Municipal “Francisco Pitta” e Aldeia Ekeruá, fazem parte do Circuito Turístico Caminhos do Centro Oeste Paulista.

Fonte: Museu Municipal “Francisco Pitta”, de Avaí