Bauru e grande região

Regional

"Ouro negro" na cidade do morro

Bofete foi pioneira na sondagem profunda de petróleo no País, mas muito pouco foi encontrado e moradores desconhecem

por Cinthia Milanez

14/09/2014 - 07h00

O Morro de Bofete, um dos pontos turísticos mais importantes da cidade que fica na região de Botucatu, deu nome ao local que foi cenário da primeira perfuração profunda em busca do petróleo no País. De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, foram encontrados apenas dois barris do óleo e água sulfurosa durante uma sondagem feita por um grupo liderado pelo fazendeiro Eugênio Ferreira de Camargo, entre os anos de 1897 e 1901.

 

De família muito rica, ele foi estudar no exterior, onde decidiu investir na sondagem de petróleo no Brasil. Depois de adquirir a licença junto ao governo para procurar o produto na região de Bofete, já que havia comprado uma fazenda por lá, ele importou uma sonda e contratou um técnico americano, além do naturalista belga Auguste Collon, para fazer a perfuração e análise do conteúdo de um poço de 448,5 metros de profundidade, o maior até então.

 

Éder Azevedo

 José Antonio Nicola no local que hoje tem uma fonte de água, onde foi perfurado o poço

 

 

 

 

O pioneirismo de Eugênio foi tanto que ele chegou até a ser homenageado com o nome de uma rua em Bofete. O que muitos não sabem, porém, é que a fonte perfurada ainda está intacta e jorrando água sulfurosa, conhecida por surtir efeitos medicinais para a pele. O JC foi até a fazenda São Jorge, que abriga esse marco histórico até hoje, e promete contar, nas próximas páginas, detalhes de uma trajetória pouco conhecida, até mesmo, pelos moradores de lá.

 

“Moça, você só pode estar mentindo. Eu já li um livro que narrava detalhadamente a história de Bofete, mas não identifiquei uma linha sequer que citasse essa questão do petróleo”, confessa Lecimar Xavier Junqueira, que chegou a Bofete com apenas seis anos e, por isso, se considera uma autêntica cidadã bofetense.

 

Outro morador que assumiu desconhecer essa parte obscura da história de Bofete foi Adalto Holtz da Silva, 65 anos. “Eu nasci e fui criado aqui, mas não tenho lembranças dessa história”, comenta. Ele chega até a fazer uma crítica quanto ao assunto. “Hoje, não faz diferença na nossa vida, porque você disse que não foi para frente”, argumenta o bofetense. O secretário de Turismo, José Antonio Nicola, concorda com a opinião do morador, mas acrescenta que se houvesse muito mais do que dois barris do óleo a cidade poderia ter ido longe. Todavia, ele diz que Bofete está em cima da área de recarga do aquífero Guarani, que tem o maior armazenamento de água doce do planeta. 

 

Dois barris de petróleo e nada mais

 

Graças a Eugênio Ferreira de Camargo, um homem à frente de seu tempo que decidiu dar um passo maior do que as próprias pernas, a primeira sondagem profunda em busca do petróleo no País ocorreu em Bofete (138 quilômetros de Bauru), mas não terminou muito bem, porque foram encontrados apenas dois barris do óleo e água sulforosa, segundo o responsável pela Secretaria Municipal de Turismo da cidade, José Antonio Nicola.

 

Embora o manuscrito do naturalista belga Auguste Collon, que fez a análise do produto na época da exploração, entre os anos de 1897 e 1901, não revele que foram encontrados dois barris do óleo, o documento detalha que o petróleo descoberto tinha 1,09% de gasolina, 15,5% de querosene, 13,24% de diesel, 13,20% de lubrificante e 22,72% de graxas, mas nada de benzol, afastando, portanto, a origem relacionada à matéria carbonosa.

 

Como e por que essa pacata cidade foi escolhida para ser o cenário da expedição pioneira? É simples. Antes de Eugênio, tiveram muitas outras tentativas de encontrar petróleo no País, mas quase todas elas não possuíam fundamentos técnico-científicos.

 

Uma dessas investidas foi a do engenheiro austríaco Luiz Matheus Maylasky, que fundou a Estrada de Ferro Sorocabana, em 1871. Na ocasião, segundo documentos fornecidos pela Secretaria Municipal de Turismo de Bofete, ele conseguiu permissão do governo brasileiro para procurar o óleo na região da linha férrea. Na mesma época, outro cidadão foi autorizado a explorar o produto em Tatuí, território que abrangia Bofete. Eugênio, por sua vez, adquiriu o acervo dele e deu continuidade à busca.

 

De família muito rica, ele foi estudar no exterior, onde decidiu investir na sondagem do petróleo no Brasil. Depois de adquirir a licença, Eugênio comprou uma sonda e contratou um técnico americano, além do naturalista belga Auguste Collon, para fazer a perfuração e análise do conteúdo de um poço de 448,5 metros de profundidade em uma fazenda que ele também havia comprado em Bofete, localizada no quilômetro 171 da rodovia Castello Branco, e que guarda os resquícios dessa história até hoje.

 

'Buffet'

Desde a sua fundação, Bofete já levou os nomes de Samambaia e Rio Bonito. Porém, a partir de 1921, passou a ter a denominação que perdura até hoje e que foi inspirada no grande morro que cerca a cidade. Na época, dentro da paisagem, havia uma estrada que levava a Tatuí. Portanto, os sertanistas utilizavam o morro como ponto de passagem e guardavam mantimentos dentro das cavernas.

“Há uns bons anos, existia um móvel utilizado para estocar alimentos, denominado buffet e, a partir daí, os tropeiros passaram a chamar a paisagem de Morro de Buffet”, acrescenta o titular da Secretaria Municipal de Turismo, José Antonio Nicola. Com o sotaque sertanejo, porém, acabou se transformando em Morro de Bofete, que deu o nome à cidade e é um dos principais pontos turísticos de lá.

 

Fazenda pode virar complexo turístico 

 

 

Há 40 anos, o empresário Jorge Antônio Miguel Yunes comprou a fazenda onde foi feita a primeira sondagem profunda de petróleo no País, hoje denominada São Jorge. Inclusive, a fonte perfurada ainda está por lá, jorrando água sulfurosa até hoje. Yunes fez questão de manter a prova viva de uma história que não deixa de ser curiosa. Esse local, todavia, ainda não é explorado para atrair turistas. Por outro lado, o empresário está disposto a realizar negociações junto ao poder público de Bofete.

 

Já o secretário municipal de Turismo, José Antonio Nicola, está elaborando um projeto com o intuito de levar visitantes até a fazenda que abriga a fonte pioneira. “Nós estamos conversando, inclusive, já divulgamos imagens da fazenda no nosso endereço eletrônico”, acrescenta o titular da pasta. Por enquanto, a propriedade fica aberta apenas para visitação, não para uso da fonte de água sulfurosa em banhos medicinais ou dos lagos com o intuito de pescar, por exemplo. 

 

Enquanto a propriedade ainda não é explorada para atrair turistas, a equipe de reportagem do JC conheceu tudo por lá e aproveita esse caderno para descrever grande parte do que foi visto. “São 1.400 alqueires, distribuídos em 32 escrituras, o que abrange não só Bofete, mas os municípios de Torre de Pedra, Porangaba e Guareí”, explica o administrador das terras, Gilbert Becker. Entre as duas mil cabeças de gado e a produção de areia, estão o salão de festas de 600 metros quadrados, 30 suítes, diversos lagos com pista de cooper ao redor, além de obras de arte espalhadas por todos os cantos. 

 

 

Serviço

O local fica no quilômetro 171 da rodovia Castello Branco e funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h30. 

 

Pioneirismo surpreende moradores

 

“Moça, você só pode estar mentindo”. Com uma mistura de indignação e orgulho, a moradora de Bofete (138 quilômetros de Bauru) Lecimar Xavier Junqueira, 38 anos, resume a impressão da maioria dos habitantes da cidade quando descobre que a primeira perfuração profunda em busca do petróleo no País ocorreu por lá.

 

“Eu já li um livro que narrava detalhadamente a história de Bofete, mas não identifiquei uma linha sequer que citasse essa questão do petróleo”, reitera Lecimar, que chegou à cidade com apenas seis anos e, por isso, se considera uma autêntica cidadã bofetense. “Quem chega aqui, não quer mais ir embora, ainda mais se tomar conhecimento dessa curiosidade”, brinca.

 

Como os demais entrevistados pela equipe de reportagem do JC, Lecimar sabe da existência da fazenda São Jorge, endereço exato da primeira perfuração profunda do petróleo, mas nunca havia imaginado que a propriedade foi cenário de um fato marcante na história da exploração do produto no Brasil. “Fico surpresa e orgulhosa”, desabafa a moradora.

 

Já o bofetense Anibas Antunes de Oliveira, 35 anos, tem uma teoria “na ponta da língua” para justificar o fato de poucos moradores conhecerem por completo esse episódio da história da cidade. “Minha família é muito tradicional por aqui e, através dela, ouvi rumores sobre o assunto. Eu acredito que muitos desconhecem, porque a atividade foi muito rápida e não obteve sucesso”, arrisca Oliveira.

 

Sem lembranças

 

Mesmo assustado diante dos cliques da máquina fotográfica, Adalto Holtz da Silva, 65 anos, se esquivou, mas acabou concedendo uma breve entrevista ao JC. “Eu nasci e fui criado aqui, mas não tenho lembranças dessa história”, comenta. Ele chega até a fazer uma crítica quanto ao assunto. “Hoje, não faz diferença na nossa vida, porque você disse que não foi para frente”, argumenta.

 

O responsável pela Secretaria Municipal de Turismo, José Antonio Nicola, concorda com a opinião do morador e acrescenta que, se houvesse muito mais do que dois barris de petróleo, a cidade poderia até ser a capital do País. “Embora essa exploração não tenha dado certo, a nossa região possui outra riqueza, já que está em cima da área de recarga do aquífero Guarani, que tem o maior armazenamento de água doce do mundo”, conta.

 

Para o titular da pasta, a água chegará a valer muito mais do que o petróleo. “Hoje, nós estamos com falta d’água e, como ninguém sobrevive sem o líquido, acredito que ele ficará caro em um futuro não muito distante”, explica Nicola. Diante disso, ele enxerga Bofete como uma cidade que brilhará aos olhos do mundo, não por conta do “ouro negro”, mas pelo “ouro transparente”.