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Perícia é refeita em local de acidente

por Rita de Cássia Cornélio

19/06/2015 - 07h00

Éder Azevedo

Peritos durante vistoria no km 368 da SP-304, onde ocorreu acidente em outubro do ano passado

Um homem simples com a cabeça coberta com um chapéu e olhar perdido, andando de um lado para outro como que a procura de algo, fez parte da cena inicial do trabalho de perícia no quilômetro 368 da rodovia Deputado Leônidas Pacheco Ferreira (SP 304).  Palco de uma das maiores tragédias de trânsito registrada na região. O local foi vistoriado, a pedido da Justiça de Ibitinga, para que se esclareça as causas do acidente que ceifou a vida de 13 pessoas, na noite de 27 de outubro do ano passado.  Onze pessoas morreram no local e as outras duas, dias depois.

 

A perícia foi determinada pelo juiz de Direito de Ibitinga, Roberto Raineri Simão, porque  foram detectadas falhas no laudo inicial. (leia nesta página, ao lado).

 

Pai de uma das vítimas, Antônio Giraldi, 55 anos, foi ao local em busca de resposta para uma dor que atormenta toda a sua família. “Queremos saber o que aconteceu realmente. Alguns falam que a culpa foi do motorista do caminhão. Outros, do (motorista) do ônibus. Tem gente que fala que foram os dois. O acidente ainda atormenta a família.  A família caiu”, falou com seu jeito simples. 

 

Discreto

 

Ele conta que ficou sabendo da perícia no local e não se furtou de participar, ainda que discretamente. “Tenho quatro filhos. O Angelo Mateus Giraldi tinha 16 anos. Era o caçula e o mais mimado. Eu não voltei a trabalhar até hoje, tive depressão e minha mulher também.  O nervoso, segundo os médicos, provocou a cegueira em um dos meus olhos.” 

 

Ele espera esclarecimentos das autoridades. “Todas as famílias estão sofrendo. A nossa dor  é intensa e eterna. Saber quem foi o culpado da tragédia não vai aliviar, mas amenizar. Hoje as famílias se encontram e se consolam entre si, mas ainda está muito difícil. 

 

No local  foram colocadas 13 cruzes de madeira que sinalizam as mortes. Flores e uma jardinagem simples tem significado para as famílias. Foi ideia do Dr. Flávio, ele perdeu a mulher e o filho na tragédia.” 

 

Laudo

 

A perícia realizada ontem no local do acidente foi determinada pelo juiz de Direito de Ibitinga, Roberto Raineri Simão, porque foram detectadas falhas no laudo inicial. “Nele não consta que no dia do fato a pista estava sem sinalização horizontal e nem cones luminosos  que indicassem uma obra. Nada que fizesse distinção de pistas. Os motoristas estavam às cegas. Eles não sabiam se estavam na sua mão de condução, na faixa adicional ou na mão contrária”, explicou o representante do escritório que defende as vítimas, Edilberto Acácio da Silva Filho. 

 

Silva filho diz que tanto é verdade que a posição de impacto foi invertida. “Ambos estavam em linha de colisão. A perícia vai nos ajudar a ratificar as informações da falta de sinalização. A empresa Bandeirantes, construtora contratada pelo Departamento de Estrada e Rodagem (DER) para fazer a obra, não tinha preparo suficiente para a execução. O laudo vai nortear o juiz e mostrar que não foi uma fatalidade.” 

 

O perito judicial Sérgio Hernandez Saldias  vai analisar as imagens do local para dar um parecer técnico. “A má sinalização no momento do acidente somada aos demais provas poderá determinar as responsabilidades. Um acidente de trânsito tem três causas: falha humana, falha mecânica e ambiental. A sinalização está dentro das causas. Vou avaliar. Percebemos que a pista foi totalmente modificada e atende a conformidade da lei, agora.” 

 

Sinalização

 

O perito assistente Clóvis Santos Xerxenevsky, representando as famílias das vítimas, acompanhou todo o trabalho. “Falhas sempre existem. Essa foi muito flagrante pelo que consta nos documentos. Não tinha sinalização. Os condutores não foram culpados, mas o tempo de resposta foi lento. O motorista até 42 anos responde em um segundo e meio a um estímulo de perigo. Ele enxerga, o estímulo vai para o cérebro e na sequência  para a medula. Depois para os braços e pernas que vão reagir. O motorista não teve a reação e bateu. Ele sabe o que aconteceu.”  O engenheiro da construtora Bandeirantes Francisco Armando Braz discorda do perito assistente. “A sinalização existia.  No momento as provas se dispersaram pelo caminho em função da colisão. A pista é construída em várias camadas. Em cada uma delas é colocada faixas provisórias. O que houve é uma imperícia por parte dos motoristas. Pelo laudo, o caminhão estava na contramão. A velocidade é difícil avaliar uma vez que o tacógrafo do caminhão foi queimado e do caminhão não apareceu.”