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"Profissional perde chance de aprender"

Para a oncologista Ana Lúcia Coradazzi, a correria do dia a dia deixou as relações médico/paciente muito institucionalizadas, atualmente

por Rita de Cássia Cornélio

10/01/2016 - 07h00

Arquivo Pessoal
A “vaqueira” era mestra em descomplicar as coisas. Era objetiva e espontânea em tudo, inclusive nas tomadas de decisão durante seu tratamento

A relação médico/paciente é descrita em vários capítulos do livro “No final do corredor”, escrito pela médica oncologista Ana Lúcia Coradazzi. Em um deles, “O batismo da bezerra”, uma lição aos profissionais que lidam com pessoas em estado terminal e que pela simplicidade fazem homenagens às pessoas queridas e que nem sempre são bem entendidas.

“As relações médico/pacientes estão muito institucionalizadas, hoje. O médico perde a chance do aprendizado maravilhoso que ocorre durante o processo de doença. Deixam de aprender como as pessoas vivem isso”, diz a Ana Lúcia.  

“Era véspera de Ano Novo, e o hospital estava mergulhado no clima confuso e agitado que toma conta de todos nessa época. Muitos serviços interrompem o atendimento, e é comum recebermos famílias e pacientes desesperados com um diagnóstico recente de câncer nas mãos e com dificuldade de conseguir assistência médica”, explica Ana Lúcia na introdução do livro.

Foi nesse cenário tumultuado que a oncologista recebeu um telefonema de um colega pedindo que ela atendesse uma paciente recém-diagnosticada com câncer de cólon, com metástases no fígado, que não conseguiria esperar muito para iniciar o tratamento. “Maria Lúcia tinha perto de 50 anos. Veio com o marido, Umberto, e assim que ela entrou no consultório senti que ela tinha algo especial. Estava vestida de forma bem simples, com uma camisa surrada, uma calça jeans larga e - foi o que me chamou a atenção – botas de vaqueiro! Maria Lúcia era a imagem da serenidade”, relata.

A paciente contou tudo sobre a doença, como tinha sido o diagnóstico, o achado das metástases e seu desejo de viver bem o tempo que lhe restasse. “Tinha uma lucidez impressionante no que dizia respeito à expectativa de vida restrita, e estava disposta a se submeter à quimioterapia, desde que isso significasse preservar sua autonomia por mais tempo. Começamos o tratamento no mesmo dia, e a partir daí passei a vê-la quinzenalmente.”

Maria Lúcia e o Umberto eram  proprietários de uma fazenda. Juntos, eles cuidavam da criação de gado. “Ela descrevia como tinha mudado a alimentação das vacas leiteiras e, com isso, aumentado a produção de leite. Falava do veterinário da fazenda, a quem ela admirava, e fazia relatos apaixonados sobre o nascimento dos novos bezerrinhos. Sua relação com o marido e com os filhos - e com a vida, de forma geral - era de uma simplicidade única.”

A “vaqueira” era mestra em descomplicar as coisas. Era objetiva e espontânea em tudo, inclusive nas tomadas de decisão durante seu tratamento. “Via sua doença como uma pequena parte da sua vida, e não permitia que essa pequena parte lhe usurpasse os momentos de felicidade. Fazia alguns meses que ela estava em tratamento quando chegou ao consultório. A vaca preferida de Maria Lúcia estava prenha. Durante semanas ela curtiu a gestação da vaca. Fazia tudo o que a doença e o tratamento ainda lhe permitiam.”

O tumor vinha progredindo apesar do tratamento. “Todos sabíamos que o tempo estava se esgotando. Era visível que estava cada vez mais difícil cumprir as tarefas que antes lhe eram tão simples e prazerosas. Ela não se queixava.  Umberto, apesar de preocupado, ajudava em tudo o que podia e encorajava a participação dela nas atividades da fazenda, mesmo que apenas dando palpites.”

Três dias depois do nascimento da bezerra, Maria Lúcia foi  ao hospital. “Estava fraca e emagrecida, com o abdome distendido, mas seus olhos mostravam aquele brilho que eu já vira tantas vezes. Ela contou que tinha assistido ao parto da vaca, e que a bezerra era a mais bonita que já tinha nascido na fazenda. Pediu que eu aceitasse a bezerrinha de presente - ressaltando que ela e o marido cuidariam do bichinho para mim, para que eu não me preocupasse com nada.”

A mulher disse à médica que iria batizar a bezerra. “Ela vai se chamar Ana Lúcia, para ninguém ter dúvidas de que ela é da senhora! Rimos bastante naquele dia.  Aceitei o presente e agradeci o gesto de carinho”. Dias depois, o estado de saúde dela se agravou e ela morreu. “Despediu-se do marido, fazendo com que ele prometesse que me traria as fotos da bezerra - promessa que, aliás, ele cumpriu sem hesitar. Despediu se dos filhos, de mim e de toda a equipe. Partiu em paz, a mesma paz que ela cultivara durante toda a sua vida.”


Mãe com câncer realiza sonhos da filha e a faz viver ‘conto de fadas’

O capítulo intitulado  “A Bela e a Fera” é um caso acompanhado pela médica Ana Lúcia Coradazzi que a inspira até hoje. Ela confessa que chorou muito quando a paciente Giovana morreu, mas nunca a esqueceu. “Giovana me ensinou muitas coisas. Sua garra e sua determinação me inspiram até hoje. Sua forma incrível de ignorar o que a assustava, seu jeito obcecado de conseguir tudo o que queria, seus sentimentos intensos e sinceros, até hoje permeiam os meus pensamentos, me enchendo de coragem. E, quando olho para minhas filhas, tão saudáveis e felizes, penso que elas também merecem ser princesas, com direito a vestido, coroa e o que mais elas quiserem. Pouco me importa se alguém achar que eu exagero.”  

A história começa falando dos olhos azuis de Giovana, que chamaram a atenção da médica ainda na sala de espera. “Giovana era bonita, no auge dos seus 27 anos. Tinha cabelos castanhos que desciam em pequenas ondas até a altura dos ombros. Mas o diagnóstico que a levara até nós não era nada animador: Giovana tinha câncer no intestino, já com metástases no fígado. A colega que a atendeu na primeira consulta veio discutir o caso comigo. Mostrou os exames, contou a história e em seguida  falou que ela tinha uma filha de 3 anos.”

Não era a primeira vez que a equipe médica  presenciava  história de uma mãe com filhos pequenos tendo que lutar contra uma doença cruel. “Alguma coisa em Giovana nos tocava o coração. Ela parecia ser muito mais forte do que seu corpo franzino. Tinha um olhar direto, às vezes até ameaçador. Era surpreendentemente objetiva. Queria saber de tudo sobre a doença, o tratamento e o prognóstico. E ao final de cada conversa, sempre terminava com uma referência sobre a pequena Larissa. Sua adoração pela menina era comovente. Ao  falar dela seus olhos se enchiam de uma doçura infinita.”

Nos primeiros meses de tratamento, tudo estava correndo bem. “Ela tinha poucos efeitos colaterais com o tratamento e as lesões hepáticas tinham desaparecido. Mas Giovana parecia insatisfeita. Faltava a algumas consultas, e outros dias aparecia sem avisar. Para evitar conflitos com a equipe, passei a atendê-la sempre. E foi assim que acabei entendendo que a vida de Giovana era praticamente um roteiro de novela. Ela era mãe solteira e podia contar pouco com a ajuda da família para cuidar da filha. Seu braço direito era uma amiga de infância, Camila.”

Giovana trabalhava muito e jamais reclamou. “Quando eu sugeri que ela desacelerasse, ela respondeu: “Doutora, quando eu terminar de pagar a bicicleta da Larissa eu diminuo. Ela dava tudo que Larissa desejasse. Giovana queria que a filha tivesse uma vida de conto de fadas, mesmo que fosse por pouco tempo. Um dia contou sua história pessoal. O namorado Ricardo era noivo quando ela engravidou. Inúmeras vezes ela tinha ameaçado romper com ele, mas quando compreendeu a gravidade da doença, terminou o noivado. Passaram a viver juntos.”   

A pitada de humor ficava por conta da espontaneidade impagável de Giovana. “Um dia, foi chamada pela diretora da escola porque Larissa comparecia às aulas fantasiada de princesa, de Mulher Maravilha ou de Barbie. Giovana respondeu, bem malcriada: ‘A minha filha vem vestida do jeito que ela se sente bem. As outras crianças é que vêm fantasiadas de alunos perfeitos’. A diretora não conseguiu argumentar.”

Sua determinação não tinha limites. “Era capaz de entregar-se completamente, e sua urgência de viver tudo o mais rápido possível se intensificou ainda mais após seu diagnóstico. Passou a correr contra o relógio, não perdia tempo remoendo sentimentos desnecessários. Amava profundamente, odiava intensamente, perdoava com todo o seu coração. Após quatro anos de luta, a doença derrubou Giovana. Ricardo e Camila não saíam do seu lado. Quando trouxeram Larissa, agora com 7 anos, eu não consegui ficar no quarto. Ela entrou em coma e eu fiquei ao seu lado, minhas mãos enroscadas nas dela. De repente, ela apertou forte minhas mãos, numa frustrada tentativa de continuar entre nós. Suspirou devagar pela última vez.”


As sapatilhas da humildade

“Maristela me impressionou logo na primeira consulta. Perto dos 60 anos, nem de longe aparentava sua idade. Vaidosa, maquiada, vestia-se sempre de forma clássica e imprimia sua personalidade em pequenos detalhes, como brincos com pedras exóticas.  Mas nenhuma peça de vestuário merecia mais sua atenção que os sapatos. Ela era apaixonada por saltos altos. Desfilava com saltos de todos os tipos e cores, de todas as alturas, e não escondia sua preferência por aqueles indecentemente altos, que certamente me dariam tonturas. Foi com um desses saltos impressionantes que ela veio ao consultório pela primeira vez. Ela tinha concluído o tratamento para um câncer de intestino alguns anos antes e, durante seus exames de rotina, tinham sido detectadas metástases no fígado”, conta a médica no capítulo batizado de “As sapatilhas da humildade”, conta a médica oncologista Ana Lúcia Coradazzi. 

Maristela tinha uma habilidade social incrível. Lidar com as pessoas fazia parte da sua personalidade. Era capaz de criar laços de empatia com todo tipo de gente. Tinha muitos  compromissos, alguns filantrópicos. Um tratamento oncológico  não combinava em nada com isso. Os exames confirmaram que a doença tinha voltado e não restaram muitas opções. Foi para a quimioterapia, que lhe impôs limitações físicas. Exceto pelos pés. Depois de alguns meses ela começou a apresentar dor nas plantas dos pés, comum durante o tratamento do câncer de intestino.” 

Maristela bem que tentou, mas não conseguiu manter-se sobre os saltos, até que ela desistiu.

“Um dia ela chegou para a consulta usando sapatilhas e disse:  ‘Doutora, não deu mais. Tive que me render às sapatilhas da humildade’. Os pés a incomodavam e, em função disso, ela começara a recusar convites. Começou a ficar deprimida, sentia falta da agitação social. Um dia pela manhã, Maristela tentou calçar seus sapatos e, ao sentir dor, começou a chorar.”

A mãe dela, já idosa, assistiu à cena e, minutos depois, trouxe a solução. “Com seus passinhos lentos, entrou no quarto de Maristela com um par das suas sapatilhas, feitas sob medida para os pés dos idosos. Colocou as sapatilhas no colo da filha e disse, firme: ‘Filha, está na hora de descer do salto e voltar a ser feliz’. Maristela, tentou calçar as sapatilhas da mãe e sentiu o conforto.  As sapatilhas lhe confortaram não só os pés, mas também o coração. Desde então, ela  passou a fazer piada sobre seu novo estilo perante os amigos. Ela entendeu, na atitude sábia de sua mãe, o quanto podemos enclausurar nossa própria felicidade com decisões estúpidas e inflexíveis. Enxergou o quanto o ato de mudarmos a direção do nosso olhar pode nos devolver a paz e a alegria de viver. As “sapatilhas da humildade”, como ela as batizou, tinham lhe devolvido sua vida.”