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Histórias reais que ensinam a melhorar

Oncologista de Jaú escreve livro relembrando pacientes que marcaram seu dia a dia; sob o ponto de vista do médico, relatos são emocionantes

por Rita de Cássia Cornélio

10/01/2016 - 07h00

O ano de 2015 acabou e com ele vieram as promessas de ano novo: emagrecer, fazer ginástica, comer melhor, rever amigos, parentes... Mas mudar interiormente é um papo mais sério. Exige mais, aciona o querer, o esforço próprio etc. Para inspirar os leitores para essa mudança, nada melhor que um livro que mexe com a vida das pessoas. Um livro daqueles que, quando a gente lê, se pergunta: “Por que eu reclamo tanto da vida, dos problemas”.

“No final do corredor”, escrito pela médica oncologista Ana Lúcia Coradazzi, de Jaú (47 quilômetros de Bauru), é uma obra apaixonante. Nos leva a refletir sobre como estamos vivendo e como queremos morrer. Lançado em dezembro do ano passado, ele traz histórias reais de pacientes terminais de câncer na visão do profissional médico.  

“O ineditismo do livro é a visão do médico. Em geral, as histórias de pacientes terminais são descritas por eles mesmos ou por seus familiares. O médico escrever e mostrar como essas histórias impactam  suas  vidas não é frequente . A relação médico/pacientes está institucionalizada. O profissional  perde a chance de aprender com o  processo da doença. Ele é transformador tanto para quem passa como para quem quer apreender”, explica Ana Lúcia Coradazzi.  

São histórias reais  que prendem a leitura, e de um aprendizado infinito.  “As pessoas têm um grande preconceito com relação aos pacientes com câncer na fase terminal. A maneira como vejo isso não é nem um pouco pessimista. Porque, na verdade, a pessoa que convive com o câncer, independente do desfecho da doença, da cura ou da evolução a óbito, aprende.”

O foco do livro não é o final das histórias, que quase sempre é a despedida desse mundo. “É o processo. Porque é uma doença que ameaça a vida em grande parte dos casos. A hora que você  tem uma doença que ameaça sua vida é que a morte passa a ser uma possibilidade. Então, você tem que pensar. A vida toma outro rumo. A doença  dá uma percepção única para as pessoas. A maioria de nós passa a vida inteira achando que não vai morrer nunca.”

Diagnóstico
Muitos pacientes dizem que o pós diagnóstico de câncer melhorou a vida deles. “Eles relatam que  passaram a valorizar  a família e as coisas que lhes dão prazer.  Mudam o estilo de vida independente de morrer ou não. Acho que a morte é um detalhe. Eu gostaria que as pessoas soubessem que não é preciso passar pela experiência da doença para promover mudanças internas e ser melhor. As que passam por isso,  ensinam para a gente. Só  que você só aprende se estiver pronto para ouvir.”

Os profissionais de saúde têm a chance de aprender com as histórias dos pacientes e muitas vezes desperdiçam  a oportunidade, na opinião da oncologista. “Os médicos,  os enfermeiros e a equipe como um todo têm a chance de vivenciar essa experiência maravilhosa. E se eles conseguirem encarar  como aprendizado vai ser uma lição de vida. Muitos encaram como uma situação triste. Eu não vejo assim, porque a morte faz parte da vida. Ela não é uma tragédia. No processo de transformação com a doença, a ideia é que a gente trabalhe isso fazendo com que o paciente tenha certeza que valeu a pena viver.”


‘Ninguém vira santo porque está morrendo’

Mulher ficou ao lado do marido até a morte dele, mas libertou-se de suas grosserias

A médica oncologista Ana Lúcia Coradazzi é uma pessoa sensível, que aproveita todos os ensinamentos recebidos diariamente dos pacientes. Ela garante que ninguém vira santo só porque está morrendo. “Na verdade, a gente morre do jeito que vivemos. Isso faz a gente pensar:  tenho que ser uma boa pessoa o tempo inteiro não só no final.”

O capítulo intitulado “A Morte também Liberta” é uma história real  em que a médica  percebe que quem estava sendo libertado pela morte não era o paciente, e sim sua mulher.  “Dona Maria e seu Manoel estavam juntos há 50 anos. Ela tinha 17 anos quando se casou e Engravidou.  Desde então, sua vida  tinha se resumido a satisfazer as vontades dele. Tarefa inglória. Ele era português, genioso e teimoso. Pouco se dirigia a ela, a não ser para criticá-la. Era um homem rude e difícil, e o diagnóstico de câncer piorou seu comportamento. Quando os conheci, ele estava com a doença bem avançada, prestes a partir. Foi internado para controle de dor.”

Desde o primeiro dia, o relacionamento deles chamou a atenção de toda a equipe. “Ela ajudava ele em tudo. Preparava as refeições do jeito que ele gostava, sabia os horários dos programas de televisão que ele assistia. Víamos uma mulher que parecia tão treinada quanto um cão.  Nunca ouvia um agradecimento.  Com o agravamento da doença, ele não conseguia mudar de posição na cama. Mas seu mau gênio não o abandonava. Não olhava para ninguém, não respondia minhas perguntas, e ignorava dona Maria sem rodeios.”

Ela, dócil e submissa, parecia imune às suas malcriações. “Sempre sozinha. As duas filhas foram até o hospital e não entraram no quarto. Foram para ver a mãe. Um dia, seu Manoel amanheceu mais mal-humorado e chutou a bandeja de café em cima de uma funcionária.  Dona Maria, constrangida, começou a limpar. E quando ele virou o rosto numa atitude de desprezo, ela colocou um pequeno crucifixo sobre a cabeceira da cama, para protegê-lo.”

Dias depois, seu Manoel morreu. “Fui ao quarto imaginando como seria a reação dela.  Não poucas vezes conversamos sobre o que a mantinha ao lado dele. E não chegávamos a uma conclusão. A não ser de que ela não tinha coragem para enfrentá-lo. Entrei e fiquei surpresa com o que vi.  Ela arrumava suas coisas, de costas para o corpo imóvel do marido. Cantava uma canção portuguesa, tranquila. Olhou para mim e sorriu, seus olhos brilhavam.”

A oncologista atestou a morte. “Ao me voltar para ela não sabia o que dizer. Seu alívio era tão evidente que seria ridículo expressar pêsames. E absurdo felicitá-la pela perda, que era a vontade contida de todos ali. Apenas a abracei e ela perguntou se precisava assinar algum documento. Agradeceu  e se foi. Sem olhar para trás.”

Ao vê-la saindo, a médica pensou: “Como erramos a respeito dessa mulher. Nela tudo o que não faltava era coragem. Perto dos 70 anos, ela estava pronta para começar a viver. Seu sorriso aliviado transparecia seu sentimento de missão cumprida. Sua força estava na resiliência infinita. Me lembrei de um filme do Sylvester Stallone, em que o personagem principal dizia: ‘Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto consegue apanhar e continuar. O quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha”. Dona Maria era a suprema campeã.”


Aprendendo diariamente

A oncologista Ana Lúcia Coradazzi confessa que tem aprendido muito com seus pacientes terminais. “Eu vejo uma transformação muito clara, mas não é pontual. É um processo que não para. A cada dia aprendo com um paciente. Percebo que aprendo coisas novas. Nova maneiras de encarar fatos da vida. Nova forma de fazer determinadas coisa. Isso é muito bom.”

A história de Giovana, que fez a filha  viver um conto de fadas até sua morte, marcou demais a vida da médica. “Essa paciente me marcou muito. Teve um impacto muito grande na forma como eu lido com as minhas filhas. Porque nós, profissionais de saúde, muitas vezes deixamos os filhos em segundo plano, não valorizamos. Damos muitas broncas. Isso não pode, isso não deve. Ela priorizava a vida da filha porque ela sabia que não iria ter muito tempo. Aprendi.”

Ela lembra uma frase que está no último capítulo do livro. “É de Rubem Alves: ‘A ideia de que a medicina luta contra a morte é errada. A medicina é uma luta pela vida boa da qual a morte faz parte. Ela traduz bem a forma com que a gente lida com paciente que têm doenças que ameaçam a vida’. Eu fiz residência em hematologia depois, oncologia clínica e me especializei em cuidados paliativos para completar minha formação. Como oncologista temos que saber lidar com sofrimento dos outros.”