Bauru e grande região

Regional

Igreja é o que sobrou do apogeu inglês

O que restou da força da cafeicultura no século passado, em Gália, são casarões da antiga fazenda São João do Tibiriçá e templo católico

por Aurélio Alonso

27/11/2016 - 07h00

Aurélio Alonso
Igreja localizada na antiga Fazenda dos Ingleses, conhecida de São João do Tibiriçá, em Gália

O símbolo da opulência do que foi no passado a “Fazenda dos Ingleses” no município de Gália (70 quilômetros de Bauru) fica no alto de uma colina ao lado da estrada vicinal que liga a SP-331 à antiga propriedade rural. A igreja de tijolo aparente lembra os europeus renascentistas e góticos. O prédio mesmo deteriorado ainda atrai visitas pelo tamanho da torre no meio do mato. Ao entrar no templo há estacas ancorando o telhado. Não há registros precisos, a igreja foi erguida em 1930 no período em que investidores ingleses administraram uma enorme fazenda de café até sucumbir em 1956, quando a crise no setor não permitiu mais continuar os investimentos no município. A prosperidade durou 40 anos.

Seguindo a mesma estrada vicinal mais à frente fica a sede da Fazenda São João do Tibiriçá, com área hoje total de 481,88 alqueires paulistas. Após o declínio, a área foi toda fragmentada em diversas propriedades ao longo dos anos e vendida a produtores rurais.

Os investidores ingleses procedentes de Liverpool chegaram ao local no século passado, no final da década de 1920 nas terras do ainda Patrimônio de São José das Antas, que logo se tornaria município de Gália. A área do imóvel chegou a 2.367 alqueires com mais de 2 milhões de pés de café. A Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi subsidiária da Brasil Warrant.

Atualmente a fazenda está arrendada e foi alvo de três invasões por sem-terras reivindicando a destinação do imóvel para reforma agrária. O JC teve contato com o arrendatário que não quis dar entrevista justamente pelos prejuízos das últimas invasões. “Preferimos não falar já tivemos problemas de invasão e foi necessário pedir a reintegração de posse na Justiça. Tivemos muitos prejuízos”, alegou.

Dos poucos estudos mais aprofundados sobre o passado da fazenda é o de Marcelo Nivaldo Uzai apresentado para bacharel em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp de Marília do ano de 1996. O material está guardado na Biblioteca Pública Municipal Rosemari Gattás Bernezi de Gália, junto com há uma caixa de fotografias feitas por Israel Sergio Paulo D’ Iório que resgatou imagens de prédios em ruínas e casarões datado de 1994.

Além de estudos, há imagens da área e o depoimento em um blog de um grupo ligado a passeio de mountain bike. Um dos integrantes é o advogado Vicente Conessa, da cidade de Garça, que fez fotos e filmagens das condições precárias do templo. Isso despertou o interesse dele e de amigos de buscarem a preservação da igreja de São João do Tibiriçá.

A igreja é um dos roteiros preferidos pela beleza da região. “Estamos organizando uma associação para buscar o tombamento e conseguir verba para restauração”, conta.

O antigo armazém na cidade de Gália onde tinha um desvio ferroviário atualmente é uma fábrica de seda e  loja de roupa. O proprietário atual do imóvel, Ari Beraldin Jr., mantém uma bandeira inglesa para homenagear o passado do imóvel.

Investimento inglês durou 40 anos

Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi constituída por investidores ingleses no século passado e chegou a ter dois milhões de pés de café 

Israel Sergio Paulo D’ Iório/Divulgação
Foto antiga da fazenda da Companhia São João do Rio Tibiriçá, pertencente aos ingleses

Os ingleses investiram durante 40 anos na região de Gália. A Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi constituída por três investidores de Liverpool, quando resolveram formar uma grande fazenda de café em 2.367 alqueires com mais de 2 milhões de pés de café.

Pelo tamanho da área, a administração dividiu em seções, a sede, Ipiranga, Boa Vista, Água Limpa, Aliança e Mascarenhas, cada uma com seu administrador. Com o declínio, a área foi toda fragmentada em diversas propriedades ao longo dos anos e vendida a produtores rurais.

Na dissertação de Marcelo Nivaldo Uzai, elaborada em 1996 para bacharelado em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, a Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá foi constituída no final da década de 1920 nas terras dos Patrimônio de São José das Antas, que logo se tornaria município de Gália.

“Seus mais de 2 milhões de pés de café, suas atividades agrícolas, fizeram do lugar palco de um espetáculo sutilmente elaborado que, mesmo apresentado aparente forma aristocrática, se tornou um dos maiores empreendimentos agrícolas capitalistas do interior do Estado de São Paul. Chegou a ser conhecido como o ‘sonho dourado dos ingleses’, porém sucumbiu em 1956 quando a acentuação da crise cafeeira não mais permitiu a sustentação do modo de vida lá vivenciado por seus idealizadores”, escreve Marcelo Nivaldo.

Israel Sergio Paulo D’Iório/ Divulgação
Antigas instalações da Fazenda dos Ingleses em Gália em registro ainda dos anos noventa

A presença dos ingleses no Brasil foi acentuada no começo do século passado, segundo o historiador José Antonio Tidei de Lima, e influenciou a construção de várias estradas de ferro no território paulista. “Eles controlavam a comercialização do café em toda a Europa,” conta.

Segundo depoimento de Hamilton Carvalho, espécie de testemunha do apogeu inglês, a fazenda tinha área de 2.500 alqueires e foi grande produtora de algodão. Também foi um empreendimento industrial por possuir fábrica de fio de seda, herança deixada no município e na região. No local teve fábrica de aguardente, fábrica de cal, serraria, fábrica de farinha de mandioca e moinho de milho para produção de fubá.

Para ter uma ideia de como influenciou na economia e no número de habitantes, Gália chegou a ter 35 mil habitantes na década de 30 quando havia a fazenda de café, número que caiu para 18.076 de acordocom censo de 1959 após declínio da companhia, depois 10.488 em 1991 e atualmente são 6.960 habitantes, conforme dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Fim  

A economia cafeeira viveu uma turbulência no Brasil no século passado. No relato de Hamilton Carvalho ao blog Piramba MTB é citado que os ingleses se desinteressaram pelo investimento com a edição de uma lei do presidente Getúlio Vargas que fixou limites na remessa de lucros de companhias estrangeiras.

O grupo foi vendido então para Moreira Salles que não se interessou pela fazenda e a repassou para a Companhia de Agricultura, Imigração e Colonização (Caic), empresa paulista semi estatal voltada à policultura de mão de obra familiar e imigrante.

A Caic decidiu encerrar o empreendimento e dividiu a fazenda em parcelas. Os funcionários foram demitidos e acertados os direitos trabalhistas. Assim é o fim do sonho inglês nos trópicos.

Propriedade tinha cinema

Para a época era uma inovação. Na “Fazenda dos Ingleses” havia sala de cinema. O prédio não existe mais e foi demolido, conforme a reportagem constatou na última semana.

Na década de 30, o cinema já estava em alta e os ingleses destinaram um local específico para exibições. O prédio do cinema impressionava pela beleza de estilo e luxo. O filme “King Kong”, grande sucesso de bilheteria, foi lançado no Brasil em 1931 e no mesmo ano chegou até o cinema da Companhia. Recorte de jornal da época tinha o anúncio: “Cine São João. Em belíssima casa de Espetáculos Cinematográficos da Companhia Agrícola Rio Tibiriçá, que passou ultimamente por grandes reformas, exibe hoje a película recém produzida e grande sucesso nos Estados Unidos intitulada ‘King Kong’. Somente neste domingo”.

De acordo com relato de Hamilton Carvalho disponível na internet, o cinema passava filmes aos sábados e domingos com preço da entrada quase simbólico, mas as classes sociais eram rigorosamente divididas dentro do salão entre si. O cinema só tinha uma máquina de projeção, quando acabava um rolo, acendiam-se as luzes por alguns minutos até que o operador instalasse rolo seguinte e reiniciasse a projeção.

No início havia a projeção de um cine jornal com notícias políticas e esporte, um trailer dos filmes que seriam apresentados nas próximas semanas e podia haver um desenho animado do Popeye, contou Hamilton Carvalho.

As companhias teatrais do circuito paulistano estendiam suas turnês até a Companhia Inglesa. Em notas de jornais da década de 30 há registro de apresentação da peça teatral “Olhos do Saber Eterno” do dramaturgo John Rallfon da Companhia Teatral Arthur Azevedo de São Paulo.  

Igreja ameaça desabar

Aurélio Alonso
Interior do templo tem estaca para evitar o desabamento do telhado da igreja de São João do Tibiriçá

A arquitetura neogótica da igreja da fazenda São João Batista de Tibiriçá virou um  ponto de “peregrinação” nos finais de semana, principalmente pelos adeptos de passeios ciclísticos.

Por fora, o prédio chama atenção, mas basta entrar no templo para perceber que as condições são precárias e pode desabar. Há viga escorando o telhado. Os vitrais estão todos quebrados.

Neogótico ou revivalismo gótico é um estilo de arquitetura revivalista originado em meados do século XVIII na Inglaterra.

O templo foi erguido no período do apogeu da cafeicultura. Fica no alto de uma colina, antes de chegar à “Fazenda dos Ingleses”. O advogado Vicente Conessa, pertencente ao grupo Piramba de Mountain Bike de Garça, percorre aquela região em passeios nos finais de semana.

“A igreja chama atenção pela arquitetura e pelo estado em que ela se encontra, o que acaba atraindo mais curiosidade. A história do local é interessante, principalmente da fazenda que foi dividida em várias propriedades menores. O que sobrou foram a igreja e algumas casas. Queremos salvar a igreja”, comenta.

No blog do grupo há filmagens e fotos da igreja. O que despertou o interesse para buscar o tombamento do imóvel. “Teria que fundar uma associação para buscar recursos para fazer a restauração da área”, conta Conessa. Ele já procurou, inclusive, o prefeito eleito de Gália, Renato Inácio Gonçalves (PSD) para tentar “salvar” aquele patrimônio. “A gente há alguns anos vai lá e nota que o lugar está cada vez mais perigoso. Já colocaram até viga de madeira para tentar sustentar o teto, mas não se sabe o certo quanto tempo aquilo vai suportar”.

O grupo Piramba tem um blog com relatos de moradores de Gália que relatam como era a antiga fazenda. O estudante de arquitetura Lucas Barbosa esteve há um mês no local colhendo informações para trabalho acadêmico. “Uma parte do prédio já ruiu e não tem mais como restaurar. Fiz uma pesquisa de iniciação científica de levantamento de dados que está começando”, ressaltou. 

De acordo com a tese de doutorado de autoria de Vladimir Benicasa sobre “Fazendas Paulistas Arquitetura Rural no Ciclo do Café”, os tradicionais espaços destinados ao culto religioso não foram esquecidos, no meio rural da região Central. As capelas isoladas começam a surgir na paisagem das fazendas de café principalmente na década de 1890, alguns após a extinção do trabalho escravo quando a mão de obra se torna majoritariamente constituída por imigrantes.

“A proliferação das capelas externas responde a uma outra necessidade. Ela se torna um dispositivo controlador a mais, para fazer com que o colono se ausente o mínimo possível da fazenda, mesmo aos finais de semana, tendo assim o menor contato possível com o atrativo ambiente urbano”, relata Benicasa no capítulo “Rumo ao Oeste Paulista: o quadrilátero do açúcar se rende aos cafezais”.

Ex-armazém virou fábrica e loja

Prédio onde funcionou o depósito para embarque de café da Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá está bem preservado na área urbana de Gália

Aurélio Alonso
Ari Beraldin Jr. tem uma bandeira da Inglaterra para homenagear os antigos donos do armazém

O que restou do patrimônio dos ingleses na área urbana de Gália ainda é possível se deparar com o prédio do antigo armazém da Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá subsidiária da Brasil Warrant que está bem conservado, pertencente a uma fábrica e loja de roupas. O imóvel foi comprado em 1980. A edificação de tijolo à vista ostenta uma placa 8-11-1929. Nesse local tinha um desvio ferroviário para o transporte do café. Os trilhos foram retirados em 1976, quando a Companhia Paulista fez uma retificação para suprimir o trecho Bauru-Garça pelo sul da serra das Esmeraldas.

A linha tronco oeste da Paulista com o ramal de Agudos chegou ao povoado de São José das Antas em 1927, quando a estação ganhou o nome de Gália para seguir uma sequência alfabética. O atual proprietário do imóvel da antiga companhia inglesa, Ari Beraldin Jr., tem uma fábrica de seda na área de 10 mil metros quadrados, onde também funciona uma loja e até um viveiro.

Descendente de italiano, Beraldin decidiu colocar uma bandeira inglesa na parede onde funciona a loja para homenagear o passado do prédio. A antiga estação ferroviária fica um pouco à frente desse imóvel, onde atualmente funciona uma marcenaria.

Aurélio Alonso
Antiga plataforma do armazém da Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá pertence a uma fábrica 

O antigo armazém da companhia inglesa dispunha de um terminal próprio para o embarque de café, sem interferir no tráfego ferroviário normal. Dali, nos anos 30 e 40 embarcavam por ano, diretamente para o exterior, cerca de 50 mil sacas de café despolpado, trabalho executado pelos escritórios da Brasil Warrant (subsidiária da Companhia Agrícola do Rio Tibiriçá) em Santos, conforme relato de Hamilton Carvalho feito em junho deste ano ao grupo de bike Piramba que faz passeios ciclísticos pela região. “Aqui armazenava o café colhido na fazenda. O prédio é de 1929. O meu pai adquiriu essa área em 1980. A bandeira é uma homenagem pela colonização inglesa, pela arquitetura e pelo trabalho deles no passado”, afirma Beraldin.

Ele conta que tem planos de instalar no terreno um antigo vagão ferroviário. “Quero resgatar como era antigamente. Tenho planos de colocar trilhos e os vagões. A ideia é transformar isso em cartão postal para a cidade”, conta.

A dificuldade é a falta de apoio institucional. Beraldin já andou procurando nas antigas estradas de ferro peças, mas tem encontrado dificuldades. “Os vagões pertencem à União. Gostaria trazer uma locomotiva, mas deve ser difícil para transportar para cá. Talvez a logística torne inviável. A esperança é trazer um vagão antigo”, finalizou. 

José Pascon Rocha/Divulgação
Uma das últimas fotos da antiga estação ferroviária de Gália tirada no dia 14 de abril de 1976

Trecho da ferrovia foi desativado

Os vestígios do patrimônio ferroviário de Gália está desaparecendo. O trem deixou de passar pelo município em 1976. A antiga estação ferroviária é atualmente uma marcenaria. Praticamente não existe mais nada das características do prédio.

O tronco oeste da Companhia Paulista que partiu de Itirapina até o Rio Paraná foi construído em 1941, a partir de retificação das linhas de três ramais (Jaú), de Agudos (que também não existe mais) e de Bauru.

A estação de São José das Antas era do pequeno povoado originado de um engenho de cana, quando a Companhia Paulista chegou com o ramal de Agudos em 1927 e trocou o nome para Gália. Em 1941, passou a fazer parte do tronco oeste, mas em 1976 foi desativado, com a inauguração da nova linha ao norte, entre Bauru e Garça.