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Regional

A força do voluntariado nos hospitais

Um "exército" de homens e mulheres faz a diferença para dar um atendimento mais humanizado nos leitos dos hospitais de Jaú e Piratininga

por Aurélio Alonso

15/01/2017 - 07h00

Aurélio Alonso
 Voluntários Sidney Fernandes e Cirilo Neto visitam paciente na Santa Casa de Piratininga

O trabalho voluntário faz uma diferença grande. É esse "exército" muitas vezes invisível que ajuda a levantar recursos com campanhas beneficentes, dar alento a um paciente e que presta relevantes serviços à comunidade. O Hospital Amaral Carvalho (HAC) de Jaú aposta firme nesse tipo de ajuda que contribui para um atendimento mais humanizado. Em Piratininga, a Santa Casa já experimenta bons resultados com a chegada do grupo da Irmã Sheilla, os famosos "amarelinhos" como são conhecidos em Bauru, há pouco menos de um ano no fornecimento de alimentação aos acompanhantes dos pacientes internados.

Em Jaú, por exemplo, o trabalho de pessoas abnegadas como de Maria Itália Toffano Ronchi, de 90 anos, que, ainda dirige o seu Ford Ka e visita os pacientes no Amaral Carvalho, é um diferencial em momentos difíceis que muitas pessoa enfrentam quando precisam de ficar internadas em um hospital. Há 21 anos, dona Itália contagia com seu bom humor e dá exemplo de tanta disposição ao passar pelos quartos de um dos hospitais de referência para tratamento de câncer no Estado. "Isso me complementa na minha vida. Saio de lá muito bem", comenta dona Itália, que descobriu o voluntariado depois de ter acompanhado o tratamento de uma irmã.

O diretor de Apoio Social do Amaral Carvalho, Eduardo Tadeu Guedes Piragino, ressalta que a instituição tem 17 grupos de voluntários que são fundamentais para auxiliar os pacientes, muitos deles pessoas pobres que vem de longe se tratar em Jaú. "O tratamento de câncer é muito demorado. Tem paciente que precisa retornar por um período de cinco anos. Por isso é necessário ter essa rede de apoio para dar hospedagem e alimentação, desenvolvida pela rede de voluntários", conta.

Ao todo são 102 ligas espalhadas fora de Jaú que dão essa assistência social e se preocupa em acompanhar a consulta, a cirurgia e o tratamento. "Esse trabalho é muito importante, porque no caso da quimioterapia são seis ciclos. Cada uma tem um custo de R$ 20 mil. Por isso é importante que o paciente não abandone o tratamento. No ano passado atingimos índice excelente e graças a esse apoio social", diz o diretor.

Já no caso de Piratininga, os "amarelinhos" mantêm uma casa de apoio dentro do hospital. O trabalho parece simples, mas de acordo com Sidney Fernandes, muitas vezes a visita do voluntário nos quartos é um alento para o paciente e ao acompanhante. O hospital tem atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A maior parte é de pacientes que muitas vezes não têm recursos quando são internados. "Muitos residem em sítios. E nós conseguimos dar um café da manhã bem reforçado para os acompanhantes. Esse é o trabalho que desenvolvemos, mas muitas vezes também damos um conforto à pessoa", conta Cirilo Neto.

De 11 de outubro até dezembro do ano passado foram oferecidos gratuitamente 3.194 cafés da manhã. Em torno de 81 voluntários se revezam em um trabalho que vai de domingo a domingo em três horários. "Esse trabalho faz a diferença e é muito importante para dar um atendimento mais humanizado", conta o provedor da Santa Casa, Roberto Deganutti. Leia mais nas págs. 18 e 19.

'Amarelinhos' expandem o trabalho voluntário a hospital de Piratininga

A Santa Casa de Piratininga tem contado desde o ano passado com os voluntários do Grupo Irmã Sheilla ou "amarelinhos" como são conhecidos em Bauru. A vestimenta canarinho sobrepõe o nome batizado pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac).

São 81 voluntários que se revezam em três períodos - 7h às 9h30, 14h às 17h e 18h às 21h - para levar alimentação aos acompanhantes de pacientes da Santa Casa e do ambulatório. A experiência tem dado certo e agradado. "Ajuda a humanizar o atendimento no hospital", conta o provedor do hospital Roberto Deganutti.

O Grupo Irmã Scheilla presta assistência aos pacientes do Hospital de Base, Maternidade Santa Isabel, Pronto-Socorro, Instituto Lauro de Souza Lima e Berçário do Paiva. O Manoel de Abreu depois que fechou para a reforma, o grupo decidiu se transferir no ano passado para a Santa Casa de Piratininga. 

A Casa de Apoio fica em um prédio nas dependências do próprio hospital, onde é oferecido o café da manhã ou lanche da tarde aos acompanhantes. É nesse recinto que os voluntários se reúnem.

Na terça-feira, Cirilo Neto, José Aparecido Lopes, José de Castro, Milton Puga e Sidney Fernandes estavam percorrendo o ambulatório e os quartos do hospital. O Irmã Sheilla, embora tenha ligação com uma entidade espírita, não visa proselitismo religioso. "Há voluntários de outras religiões que participam. Quando fazemos uma oração aos pacientes não tem uma conotação a uma religião específica", conta Sidney Fernandes.

É um trabalho de apoio que é feito para auxiliar ao próximo. "Quando a gente vem aqui sempre sai renovado. Quem é solidário nunca fica solitário. Quem se dispõe a visitar um hospital ou um asilo, nunca vai se queixar de depressão ou que está isolado", conta Sidney.

O voluntário Milton Puga conta que a presença dos "amarelinhos" possibilita um apoio emocional e espiritual às pessoas que estão internadas. 

Os voluntários que têm vindo à Santa Casa são do antigo grupo que frequentava o Hospital Manoel de Abreu que fechou para reformas. "Bauru tem mais voluntários, mas gostaríamos de ter também moradores de Piratininga participando de nossas equipes", conta Puga.

Para Donizete Correia, qualquer instituição hospitalar precisa desse trabalho voluntário. "Os que fazem trabalho voluntário nem todos são aposentados. A gente encontra tempo para servir. É um dia por semana", diz.

Reforma de Casa de Apoio tem ajuda do hospital e da prefeitura

O coordenador do Irmã Sheilla na Santa Casa de Piratininga, Antonio Carlos Bircol, conta que a reforma do espaço para receber os "amarelinhos" foi feita no ano passado em conjunto com o hospital. A reforma foi possível com doações e auxílio também da prefeitura.

O atendimento dos voluntários é feito aos acompanhantes que recorrem ao Pronto-Socorro, Fisioterapia, Ambulatório e à Santa Casa.

O grupo inteiro tem 400 voluntários que se revezam nos principais hospitais de Bauru, mas só para Piratininga são 81 pessoas. As atividades tiveram início em 12 de outubro. Até o final do ano passado foram oferecidos 3.194 cafés.

"É muito difícil para a pessoa que está internada no final do ano. Aqui vem muitas pessoas que moram na zona rural e longe da área urbana. A gente oferece o café, mas os voluntários também conversam com os pacientes e acompanhantes", conta o coordenador que trabalha como agente penitenciário no CPP III (antigo Instituto Penal Agrícola, o IPA) e está no grupo da Irmã Sheilla desde 1999.

Com o fechamento do Hospital Manoel de Abreu em março do ano passado, o voluntariado se estendeu para a cidade vizinha de Piratininga. "O trabalho voluntário é uma coisa inata da pessoa. Você se sente bem e com o fechamento do Manoel de Abreu não tinha vagas e decidimos contatar com a Santa Casa de Piratininga e houve muito apoio", contou o coordenador.

Provedor afirma que o trabalho de voluntários humaniza atendimento 

O provedor da Santa Casa de Piratininga, Roberto Deganutti, conta que o projeto de voluntariado colabora na humanização do atendimento aos pacientes. Há dois anos no cargo, ele conta que quando assumiu a situação da instituição hospitalar não era boa. "O hospital é bastante humanizado na parte espiritual e no atendimento aos que frequentam a Santa Casa e o Pronto Atendimento (PA)", ressalta.

A Santa Casa tem 27 leitos e dependente bastante de recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) e do município. Um convênio com a prefeitura possibilita o repasse de cerca de R$ 3 milhões por ano para a Santa Casa. Com esses recursos é mantido o PA que atende a população 24 horas por dia, além de serviços de fisioterapia, laboratório e de exames de imagens incluído nesse pacote.  "Essa parceria vem bem enquanto a situação financeiras do país está boa, mas quando começa a complicar não é diferente na área de Saúde. Fechamos num aperto muito grande, porque é difícil mesmo", explica o professor da Unesp aposentado.

Deganutti afirma que no momento o setor de saúde do município em comparação a 24 municípios próximos é a melhor prestação de serviço à população. Nos últimos dois anos pacientes de Bauru têm procurado o hospital de Piratininga. "Temos insistindo que se não houver investimentos na área de Saúde, a previsão é que daqui a quinze anos o município deve chegar a 30 mil habitantes por causa da criação de novos condomínios no município. Aí não terá condições de manter essa estrutura", conta.

O provedor ressalta ainda que o voluntariado tem sido importante para auxiliar na área de saúde. Além do grupo da Irmã Sheilla, Deganutti cita a realização de leilão de gado que garante boa receita para o hospital. O do ano passado foram arrecadados R$ 82 mil. "É um dinheiro que ajuda na despesa própria que a Santa Casa pode investir sem muita burocracia daquilo que é de verba carimbada", finaliza.

Dona Itália é voluntária há 21 anos 

Dona Itália é uma senhora inquieta. Não parece que tem 90 anos. A sua disposição é invejável para muitos jovens. Mesmo com essa idade, ela é quem dirige o seu Ford Ka pelas ruas de Jaú, depois de ter quatro Escort, o seu carro preferido até sair de linha. O nome de batismo é Maria Itália Toffano Ronchi e uma das abnegadas voluntárias do Hospital Amaral Carvalho (HAC). É uma espécie de embaixadora do voluntariado.

Mãe de dois filhos, um com 50 e outro com 66, dona Itália é comunicativa e está na linha de frente dos trabalhos voluntários do principal hospital de tratamento de câncer na região. Há 21 anos desempenha essa atividade. "Nasci para isso", emenda.

Muito comunicativa, o Hospital do Câncer de Barretos já chegou a convidá-la para fazer palestras e exercer atividades lá. Como é muito longe, ela preferiu ficar em Jaú.

Com dona Itália não tem tempo ruim. "Quando entro no hospital é como se eu estivesse entrando no salão de festas. É alegria. Chego para o paciente e falo: o senhor está corado, está bem. É para levantar a autoestima," conta a voluntária.

Nascida na Itália, dona Itália teve que se naturalizar quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. O pai foi um próspero fazendeiro de café até ocorrer a crise de 1929.

Descobriu o voluntariado quando precisou de acompanhar o tratamento de câncer de uma irmã, que foi importante na sua vida e ajudou-a criá-la. De uma família de nove irmãos, Dona Itália já residiu em Campinas até se aposentar.

No momento difícil quando precisou definir se a irmã seria internada no Hospital do Servidor em São Paulo ou no Amaral Carvalho de Jaú, a opção foi a segunda. "Aqui seria bem melhor do que na capital. Foi quando descobri o hospital e fiquei encantada com o atendimento e decidi retribuir com a ajuda como voluntária", conta.

A irmã ela cuidou por 8 anos até o falecimento. Dona Itália admite que sempre quis ajudar o próximo. "Isso me complementa a minha vida. Quando saio do hospital, saio cheia de vontade para voltar", revela a voluntária.

Ela é responsável por conseguir espaços em imóveis para promover bazar beneficente que auxilia no levantamento de recursos. A "embaixadora" procura comerciantes e empresários que têm imóveis fechados na área central para ceder por alguns dias para as atividades do HAC. Em uma dessas andanças, ela sofreu um pequeno acidente de carro ao estacionar. Mesmo com toda a idade, ela é quem dirige o veículo e renovou a sua carta de habilitação.

A conversa com dona Itália fluiu. Muito falante, ela conta que é importante o trabalho voluntário. "Temos que fazer alguma coisa para o próximo. Temos que ajudar quem tem menos", conta, embora já admite que está mais do que na hora de parar, mas não sabe quando.

Trabalho voluntário é fundamental ao Hospital Amaral Carvalho 

O trabalho voluntário é considerado fundamental para humanizar o atendimento no Hospital Amaral Carvalho (HAC) de Jaú. A rede social é bem extensa e não mais se resume só aos jauenses. Há grupos fora do município que ajudam a realizar leilões para levantar fundos, pessoas que vão ao hospital fazer o corte de cabelo e até maquiagem de pacientes, grupos teatrais que ajudam na pediatria e voluntários que mantêm atividades para arrecadar recursos com a venda de artesanato.

O diretor de Apoio Social do HAC, Eduardo Tadeu Guedes Piragino, explica que a Fundação Amaral Carvalho tem uma entidade denominada Anna Marcelina de Carvalho desde 1993 composta de 17 grupos com 200 voluntários registrados dentro das regras de uma lei federal sobre voluntariado sem remuneração, mas onde constam as obrigações a cumprir. "É fundamental esses grupos. Um deles é do setor de estética, os voluntários visitam os quartos de adultos e crianças para cortar o cabelo, fazer a barba dos homens ou maquiagem nas mulheres. Isso ajuda na recuperação do paciente. Quem não tem a sua vaidade?", questiona.

Esses grupos cada um deles têm uma coordenadoria e uma diretoria que também é composta de voluntários. "No caso do tratamento de câncer esses serviços são fundamentais, porque sem assistência social é difícil. O câncer demora muito anos no tratamento. É diferente de um paciente que tem uma pneumonia e vai em um hospital geral. Um paciente com câncer vai em média no hospital durante cinco anos. Na maioria dos casos os atendimentos são pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e são pacientes carentes. O paciente que vem a Jaú tem que fazer 25 aplicações de radioterapia. Essas pessoas não têm dinheiro para pagar hospedagem e alimentação. E faz parte da Fundação Amaral Carvalho manter casas de apoio", declara.

Na maior parte dos hospitais é comum acontecer o abandono do paciente durante o tratamento por não ter condições de ficar na cidade. O HAC hospeda o paciente nessa estrutura mantida pelo voluntariado. "Essas casas de apoio têm leito com roupa de cama, toalha para tomar banho, item de higiene pessoal como escova e pasta de dente, sabonete, xampu e até chinelo. E pelo menos cinco refeições por dia, porque para tratar do câncer é importante que o paciente se alimente em qualidade e não em quantidade. Isso é da assistência social bancada pelo Amaral Carvalho", comenta.

Piragino cita um dado da Secretaria de Saúde do Estado referente ao ano passado de que o número de abandono em hospitais no tratamento de câncer no Estado de São Paulo foi 16%. No Amaral Carvalho o abandono foi zero. "Veja como é extensa essa questão do voluntariado. Além da entidade Anna Marcelino e assistência social que a fundação faz, nós temos 108 ligas de combate ao câncer fora de Jaú que dão assistência aos pacientes carentes em suas cidades. A liga se preocupa que esses pacientes cadastrados para não perder a consulta, a radioterapia, quimioterapia e cirurgia. Essa rede integrada faz com que a gente tenha muito sucesso no tratamento e na cura", explica o diretor.