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Regional

Babosa vira um "super" nutriente

Experiência vem sendo adotada na região de Santa Cruz do Rio Pardo como um poderoso fertilizante na agricultura

por Aurélio Alonso

05/03/2017 - 07h00

Aurélio Alonso
Magno Alves em plantação de soja onde foi aplicada a babosa em Caporanga, pertencente a Santa Cruz

A babosa é muito conhecida como hidratante  de pele e até bom cicatrizante, mas o Aloe vera como é o nome científico tem demonstrado também como nutriente de planta e com bons resultados no aumento de produção de soja, milho e hortaliças na região de Santa Cruz do Rio Pardo. O “incentivador” desse nutriente natural chama-se Magno Alves que adquiriu a fórmula de um pesquisador da Unicamp, que não tinha interesse em desenvolver comercialmente e vendeu para que passasse a ser testada em vários tipos de culturas agrícolas. E vem dando certo. 

Alves tem um tino para empreendedorismo e sempre apostous em inovações. Ele já foi cabeleireiro, teve uma escola de ensino a distância de como desenvolver cortes diferenciados e chegou a ter 1.200 alunos, mas decidiu deixar o setor e apostar na babosa na agricultura.

Está plantando 450 mil pés de babosa e tem 3 milhões de mudas para garantir a matéria prima. Ele próprio faz o produto em um sítio em Santa Cruz e depois envia os galões a uma indústria de Sumaré para envazar a solução extraída da planta. “Isso vai pegar. A babosa tem mais de 200 elementos químicos e ajuda também a controlar a temperatura das plantas”, explica o engenheiro agrônomo Luciano Brugnari, de São Pedro do Turvo, que acompanha produtores no uso desse produto em Santa Cruz do Rio Pardo.

O JC percorreu algumas propriedades rurais na última semana que estão utilizando o produto e notou clima de otimismo. No setor de hortaliças, Adriana de Andrade Silva e o marido Elias Aparecido da Silva têm 12 estufas no Sítio São Benedito no bairro Ribeirão Bonito no Distrito de Caporanga, produzindo pimentão, pepino, tomate e tem uma parte de plantio de mandioca.

De acordo com ela, após a aplicação da babosa a mosca branca praticamente sumiu das estufas. “A produção aumentou muito e não há incidências de pragas, além de usar menos pesticidas”, cita. 

Não só ela, mas produtores de soja, café e milho estão testando o produto. Magno tem percorrido as propriedades incentivando os testes com o uso do produto.

O produtor de soja Edmur Pedroso da Silva já testa a babosa em plantio de soja em Santa cruz do Rio Pardo, Ipaussu e Itaberá, onde adquiriu um propriedade recentemente. “A primeira aplicação ocorreu há 90 dias, a planta fica mais viçosa. Pretendo também fazer aplicações no milho”, comenta.

O engenheiro agrônomo Luciano Brugnani afirma que existe uma tendência de cada vez mais por uma agricultura com produtos mais naturais. “A babosa é um nutriente para a planta. Quem faz a aplicação já percebe uma resposta imediata, mas ao mesmo tempo nutrir a planta rápido deixa ela mais forte e resistente a pragas. Não se trata de defensivo agrícola”, ressalta. 

Solução é extraída de planta

Relatos de agricultores apontam que a Aloe vera misturada a alho e outros produtos espanta insetos

Fotos: Aurélio Alonso
Magno Alves mostra a babosa utilizada para usar como nutriente

A babosa é uma planta conhecida para diversos fins medicinais há muitos anos. Muito difundida para problemas relacionados com a pele (acne, psoríase, hanseníase, etc.) e agora vem sendo utilizada também na agricultura como nutriente para diversos tipos de culturas agrícolas. Na região de Santa Cruz do Rio Pardo, produtores de hortaliças, café, milho e soja estão utilizando como um poderoso nutriente.

Numa rápida pesquisa na Internet constam relatos do uso dessa planta entre civilizações antigas como os egípcios, gregos e mesmo citações na Bíblia, deixando claro que era comum o uso desta planta na antiguidade. A Aloe vera é tida por historiadores como o grande segredo de beleza utilizado por Cleópatra, no antigo Egito, segundo a wikipédia.

Wagner Alves se transformou num grande produtor da matéria prima e atualmente vem fazendo a fórmula para venda em pequenos galões.

A descoberta do produto começou pela antiga atividade comercial do próprio Magno. Ele esteve no ramo de cabeleiro por longos anos e teve até escola para ensinar alunos a ingressarem na carreira.

Inicialmente, a pedido de uma parente doente lhe pediu que arranjasse a planta de babosa para que o cabelo dela não caísse, porque estava passando por um tratamento de quimioterapia contra o câncer. Foi quando ele começou a ter contato com a planta. Nessa época conheceu um químico que vendeu uma fórmula para usar o produto na agricultura.

Plantação de babosa em Santa Cruz do Rio Pardo para garantir a matéria prima usada na produção da fórmula para usar na agricultura

Daí em diante passou a plantar a babosa em área de parentes e extrair o produto até chegar na atual produção testada na agricultura. Tem também a fase de convencimento de agricultores bem desconfiados, mas todos abertos aos testes.

No ramo de estufas é onde mais rapidamente se percebeu a eficiência, porque tem ambiente controlado. 

A babosa tem suas propriedades para tratar a pele e era transportada pelos soldados de Alexandre, o Grande, como medicamento de primeiros socorros para curar ferimentos, abreviando sua cicatrização, conforme relatos históricos.

Os chineses da antiguidade faziam uso da Aloe vera como medicamento, isso há 6.000 anos. Não é novidade essa planta ter um uso e eficiência para a agricultura. “Junto com a babosa acrescentei cobre e até alho que tem uma função de repelir insetos. Mas a fórmula não era tão fácil de ser produzida. Foram vários anos de estudo, experiências e conhecimentos que culminaram, enfim, na produção do fertilizante. O interessante é que a babosa tem propriedades hidratantes, é repelente de insetos e estimula o apetite.”

Magno conta que nos estudos que fez descobriu que o Biotônico Fontoura, usado para abrir o apetite, possui babosa em sua fórmula.

Nos relatos da produtora de hortaliças Adriana de Andrade Silva é que em pouco tempo percebeu que o pimentão ficou mais resistente ao sol, porque retira da terra muito mais nutrientes do que os produtos convencionais.

Planta fica mais viçosa e muito resistente a insetos, diz produtora 

Aurélio Alonso
Adriana de Andrade Silva usa a babosa como nutriente no plantio de pimentão em estufa em Caporanga

O Distrito de Caporanga no município de Santa Cruz do Rio Pardo é onde se concentra uma diversificada produção agrícola. A localidade fica na margem à direita da SP-225 para quem sai de Bauru e segue para o Interior, após passar o trevo da rodovia Castelo Branco. A paisagem se mistura a plantações de soja e de estufas de hortaliças.

O Sítio São Benedito fica no bairro Ribeirão Bonito, onde tem uma pequena capela com porta blindex. A religiosidade faz parte da vida dos moradores. Logo no início da semana, eles se reúnem para rezar para garantir boa safra. O casal Elias Aparecido e Adriana de Andrade Silva produz pimentão, pepino, tomate e parte da área planta mandioca. Ao todo são 12 estufas.

A babosa tem sido utilizada há cerca de três anos. “Percebi que o uso contínuo deu resistência para a planta. Quando foi aplicado o produto estava propenso a deixar de plantar pimentão. Em uma semana deu para perceber que melhorou muito”, conta Adriana.

O único empecilho é o preço do pimentão no mercado que tem oscilado para baixo, dando prejuízos aos agricultores. Na última semana a caixa de 11 quilos estava em R$ 11,00, enquanto o ideal para não ter prejuízo seria R$ 25, mas há oito meses já oscilou entre R$ 100 e R$ 120. “No momento está ruim, mas já chegou a R$ 5, quando nem compensava colher”, contou.

Deixando de lado o fator lei de mercado que sacrifica muito o produtor, Adriana Andrade contou ao JC que percebeu que a aplicação de Aloe vera reduziu a mosca branca e até um tipo de lagarta que causava estragos nas plantas. “O produto funciona como repelente”, contou. A aplicação é feita com 3 ml a 5 ml em cada litro de água. Depois é borrifada a solução de babosa na plantação com bombas iguais às de aplicação de defensivo.

Produto é considerado fertilizante

Engenheiro agrônomo Luciano Brugnari, que acompanha o uso de babosa em estufas, diz que as plantas ficam mais resistentes após as aplicações

O engenheiro agrônomo Luciano Brugnari é um dos entusiastas do uso da babosa na agricultura na região de Santa Cruz do Rio Pardo. Ele vem acompanhando o uso do produto, principalmente em hortaliças, onde a resposta é mais rápida do que na cultura agrícola de larga escala.

Ao JC, ele explica que o produto natural tem respaldo técnico. A fórmula foi desenvolvida por um químico que decidiu vendê-la a Magno Alves por estar mais perto de centro de produção agrícola.

A babosa é uma planta que apenas quatro espécies são seguras para uso em seres humanos, dentre as quais destacam-se a Aloe arborensis e a Aloe barbadensis Miller, sendo esta última reconhecida como a espécie de maior concentração de nutrientes no gel da folha, de acordo com a wikipédia.

Brugnari explica que a babosa é uma planta que tem mais de 200 elementos químicos que vão desde micro a macro nutrientes. Além de tudo isso, o vegetal tem 18 dos 20 aminoácidos essenciais para a planta. “Somente isso já é o suficiente para ter uma resposta considerável para o uso na agricultura”, ressalta.

O engenheiro agrônomo destaca que por ser uma planta com muita reserva de água - 98% de base de água - e ter aloína, um elemento que consegue fixar nutriente na planta. A aloína é um composto obtido a partir do suco (não do gel) das folhas interiores e secas do Aloe vera (babosa), é um poderoso laxante. “A aloína é como se fosse uma cola. Esse elemento é muito usado na indústria para cosmético e medicamento,” cita.

A babosa tem conseguido resultados satisfatórios na agricultura, porque quando ela é aplicada também ajuda a reduzir a temperatura interna das plantas. “Temos um clima tropical que mais tende ao calor do que ao clima ameno. A babosa consegue reduzir a temperatura da planta. Em estufa, onde a temperatura é um pouco fora daquilo que a planta necessita, isso é muito importante.”

O engenheiro agrônomo cita que nas estufas onde acompanhou a aplicação do produto no distrito Caporanga, município de Santa Cruz do Rio Pardo, constatou a redução do uso de defensivo. “A planta quando recebe algum nutriente, ela assimila melhor e aceita esses nutrientes. Ela consegue criar uma autodefesa melhor, superior ao que recebe com tratamento químico. O uso de defensivo químico resolve o problema de imediato, mas por curto prazo. Por quê? Ele acaba agredindo a planta de uma certa forma. Se você está doente e toma um medicamento para dor de cabeça às vezes esse remédio agredi o estômago”, compara.

Ele explica que o produto é um poderoso nutriente aplicado nas plantas que as deixam mais resistentes às pragas, mas não se trata de fungicida. Além da região de Santa Cruz do Rio Pardo, onde tem mais de 40 experimentos em vários tipos de culturas agrícolas, há testes no Paraná e Góias. “Na minha opinião esse produto natural vai pegar sim, já conheço o trabalho faz tempo e tem respaldo técnico de pesquisador”, finaliza.

Você sabia?

De acordo com a wikipédia, “Aloés” vem do romano aloé, através do japonês aloes, que é o primitivo de aloe. “Babosa” vem do substantivo cordial “baboso”, numa referência à resina produzida pela planta.

Produtores de soja também fazem experimentos

Jornal Debate
Leandro Logullo comparou com outro produto e aprovou
Aurélio Alonso
Edmur Pedroso da Silva é produtor de soja em Santa Cruz  

Um setor que sempre testa inovações é o plantador de soja. A safra deste ano tem sido considerada boa na região de Santa Cruz do Rio Pardo. Os produtores rurais Leandro Logulho, Edmur Pedroso Silva e Andrew Rodrigues admitem que a babosa vai bem num tipo de cultura agrícola que precisa produzir em larga escala.

A Aloe vera tem sido usado em experimentos e também tem sido comparada com outros tipos de defensivos. Leandro Logulho contou ao JC que é um produto natural. “É uma tendência de se buscar um produto natural. Nunca existiu um que não seria de origem química. O Aloe vera produz todos os elementos e usei na safra de soja. A planta ficou forte. Fiz uma comparação ao aplicar outro produto em área uma ao lado da outra. A de babosa atendeu as expectativas”, contou.

O segundo produto testado foi de origem industrial, de alta tecnologia. Logulho contou que até brincou com Magno Alves fazendo uma comparação com o futebol que ele iria colocar um concorrente forte, do tipo colocar para jogar contra o time do Barcelona. “O produto (à base de babosa) deu um resultado mais visível. Da planta é extraída produtos naturais que têm no dia a dia e feita com uma composição equilibrada. Isso funciona bem”, contou o produtor.

Logulho destaca que a fórmula espanta a mosca branca. Inicialmente começou numa pequena área e posteriormente aplicou em 160 alqueires na região de Santa Cruz do Rio Pardo, Timburi e Ipaussu. “O custo é interessante. Só para efeito comparativo a base de babosa custa 40% a menos do que o químico. O interessante que é natural.”

O produtor de soja Edmur Pedroso da Silva admite que inicialmente aplicou em 10 alqueires, mas depois estendeu para 120 alqueires. “Após 30 dias já foi visível perceber na planta uma melhora. Foi uma surpresa”, contou. A produção dele é de 170 sacas por alqueire, mas neste ano a estimativa é de aumento de 15%. Ele planta em suas propriedades em Santa Cruz, Ipaussu e agora em Itaberá, adquirida recentemente.

Andrew Rodrigues, da Agrícola e Pecuária Esperança, aplicou em um alqueire e meio. Ele tem áreas em Santa Cruz e Bataguaçu (MS).