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Agricultura sintrópica em harmonia com a natureza

Agricultura sintrópica é defendida pelo suíço Ernst Götsch que associa produção com florestas. Sistema está sendo testado em fazenda de Bocaina

por Aurélio Alonso

04/11/2018 - 07h00

Nupem/UFRJ
Plantio sendo feito conforme o conceito da agricultura sintrópica por pesquisadores da UFRJ

A agricultura sintrópica trabalha a recuperação do uso do solo possibilitando alta produtividade e com menos insumos externos. É um conceito que dá destaque a formação do solo, a regulação do micro clima e até favorece o ciclo da água. Nesta semana, a fazenda Retiro de Bocaina recebeu o engenheiro agrônomo Henrique Souza que é "discípulo" do precursor no Brasil desse sistema de sustentabilidade defendido pelo suíço Ernst Götsch.

O administrador de empresas e produtor rural Edwin Montenegro Filho convidou Souza para um curso de três dias com explicações téoricas e práticas desse tipo de agricultura, que trabalha a natureza, associa os cultivos agrícolas com florestais e ajuda até a recuperar áreas degradadas.

O termo sintrópico foi cunhado por Götsch. Na prática, é plantar hortaliças, verduras, frutas, ervas junto a árvores e espécies arbustivas mimetizando a regeneração natural de florestas.

De acordo com Souza, é fortalecer o sistema para aumentar a biodiversidade e diminuir a necessidade de insumos externos.

Malavolta Jr.
Edwin Montenegro Filho testa agricultura sintrópica na fazenda Retiro, em Bocaina

Edwin Montenegro relata que buscou a alternativa nesse tipo de agrofloresta para baixar custos. Após a queda na rentabilidade com a produção da cana-de-açúcar nos últimos teve queda de produtividade devido ao fim da queimada para a colheita da cana crua, sendo substituída pela mecanização. Com uso de máquinas pelo menos 60 mil hectares dessas áreas ficaram inviáveis para canavial devido a declividade. Com isso, foi preciso buscar outras alternativas. No caso de Montenegro, ele associou a macadâmia junto com o café.

Mas também a busca por essa alternativa está na redução dos custos. A monocultura exige gasto alto com adubos, fertilizantes e outros insumos. "Se você tem uma planta mais nutrida num ambiente mais equilibrado, é possível ter menos problemas com pragas e uso de insumos. É uma agricultura de processos: vai se criando condições para ter matéria orgânica melhorando o solo, plantando árvores a fim de criar mais sombra para plantas e aumentar o capim. Os insumos começam a ser produzidos dentro da fazenda e não mais na forma convencional", explica Edwin, que testa em uma pequena área a produção de macadâmia sintrópica.

Mas é um tipo de agricultura que exige conhecimento e acompanhamento da produção, podas de árvores fequentes e corretas. De acordo com explanações do suíço em um site disponível para dirimir dúvidas, cova passa a ser berço, sementes passam a ser genes, a capina é a colheita, concorrência e competição dão lugar à cooperação e o amor incondicional às pragas são, na verdade, os agentes de fiscalização. "Quando começam a aparecer esses tipos de micro-organismos é o alerta que algo não está indo bem", relata o engenheiro agrônomo Henrique Souza.

'Discípulo' defende filosofia agrícola 

Com alicate preso à cintura para utilizar em podas de árvore, o engenheiro agrônomo Henrique Souza é bem falante e um dos renomados especialistas na defesa do conceito da agricultura sintrópica. Nesta última semana Souza permaneceu na fazenda Retiro, em Bocaina, por três dias para mostrar a um grupo de alunos e ao empresário rural Edwin Montenegro Filho, dono da propriedade, como funciona na prática a atividade agrícola que busca a sustentabilidade.

O termo sintropia passou a ser disseminado pelo suíço radicado no Brasil Ernt Götsch desde 1995. Souza é ex-aluno do "pai da agricultura sintrópica" e tem um sítio em Jaguaquara (BA), entre a Mata Atlântica e caatinga, com produção de frutas, hortaliças e grãos. 

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Engenheiro agrônomo Henrique Souza afirma que é possível a produção em larga escala

"O principal insumo para fazer agricultura sintrópica é o saber: não precisa de recursos externos, defensivos e adubos. O conhecimento dos princípios que ocorre na natureza é importante para recuperar uma área e produzir", assinala Souza.

Ao mesmo tempo em que explica o conceito teórico, ele gosta de fazer analogias para explicar uma conceituação que teoricamente é até difícil o entendimento, mas os exemplos ajudam a resumir o conceito de uma agricultura de mais sustentabilidade que tenta conhecer com a natureza como tudo se manifesta.

"Em pequena escala, a agricultura sintrópica não precisa de tecnologia, mas em grandes áreas precisa de usar a tecnologia que, nesse caso, são uso de máquinas agrícolas, mas é preciso mudar o enfoque desses equipamentos e fazer adaptações. Cito, por exemplo, que a maior fonte de adubo é a biomassa: madeira de árvores. O conceito é utilizá-las, no entanto, sempre reflorestando. É preciso plantar árvores, utilizá-las como fonte de adubo e repor quando são suprimidas. As máquinas existentes no mercado não são para isso, porque é preciso plantar, podar e triturar esses troncos. Por isso temos que adaptá-las ao manejo", explica. 

O conceito é fazer o plantio de vários tipos de culturas numa área com muitas árvores próximas. "O Ernst  Götsch sempre comenta: não devemos punir quem corta árvore, devemos dar um prêmio para quem planta árvore. O problema não é cortar a árvore, na minha propriedade eu corto muitas delas, mas tem que plantar muitas árvores para fazer a reposição", cita.

Uma das ferramentas utilizadas é o alicate para fazer as podas, mas de forma correta sempre próximo das gemas, porque vai possibilitar a árvore crescer. E a motosserra não é a vilão: há necessidade de cortes de árvores para usar a madeira como adubo, porém sempre repondo para a fazendo a regeneração natural das florestas.

Souza explica que a agricultura sintrópica associa cultivos com florestas, recupera áreas degradadas a um custo bem menor. Ao basear no sistema natural acaba criando uma dinâmica de fortalecimento do solo, melhorias na microbiologia do solo (micro-organismos, bactérias e fungos).

O solo nunca está exposto, porque a cobertura é feita pela palha, restos de poda e madeia. Essa biomassa decomposta naturalmente vai ajudar o solo. Por unidade de área o retorno da produção é muito superior a baseada na monocultura.

Suíço desenvolveu conceito

Divulgação
Pesquisador suíco Ernst Götsch é pesquisador e recuperou áreas degradadas no Sul da Bahia

Quando se fala em agricultura sintrópica em qualquer material científico ou em matérias jornalísticas disponíveis na Internet está lá o nome do "padrinho" do conceito: o suíço radicado no Brasil Ernst Götsch.

O método conhecido por Sistemas Agroflorestais (SAF) passou a adotar a nova termologia desenvolvida pelo engenheiro agrônomo que, inicialmente desenvolveu a técnica na Suíça, quando pesquisou sobre melhoramento genético de forrageira. Depois ele esteve na Alemanha, implantando um SAF para produzir hortaliças, mudou-se para Costa Rica, em 1970, onde inseriu modelo de agricultura sustentável a refugiados nicaraguenses, até se estabelecer no Brasil, em 1982.

Aqui ele conseguiu desenvolver teoricamente o método e vivenciar na prática a recuperação de área degradada na fazenda Olhos d' Água, no município de Piraí do Norte (BA). Fez rebrotar 14 nascentes em uma área no Sul da Bahia quando desenvolveu técnica de plantio que conciliaram a produção agrícola e recuperação do solo degradado, baseados em processos que mimetizam a regeneração natural e os processos sintrópicos da vida no planeta. 

Em uma página eletrônica que disponibiliza em seu site na Internet, o especialista explica que a lógica para os sistemas agrícolas produtivos é o que faz a agricultura sintrópica ser de processos e não de insumos. "Trabalhar a favor da natureza e não contra ela, associar cultivos agrícolas com florestais, recuperar os recursos ao invés de explorá-los e incorporar conceitos ecológicos ao manejo de agroecossistemas são algumas das características da agricultura sintrópica, mas não são exclusivas dela", escreve o pesquisador em um texto explicativo sobre o método.

Sustentabilidade ajuda a baixar custos

O administrador de empresa e produtor rural Edwin Montenegro Filho buscou a agricultura sintrópica para baixar custos. Proprietário da fazenda Retiro de Bocaina que, no passado produzia café, depois passou para gado e plantio de cana-de-açúcar. Na região de Jaú, a produção canavieira ocupa 650 mil hectares, quase 50% de toda a produção no entorno de 16 municípios, mas a partir do momento que houve aumento da inadimplência no setor procurou-se alternativas, principalmente depois da proibição da queima da cana crua passando a colheita mecanizada passou a sobrar área que não dava mais para o plantio devido a declividade.

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Edwin Montenegro Filho utiliza a agricultura sintrópica para produzir macadâmia em Bocaina

Com o problema da cana, Edwin passou a plantar a macadâmia a partir de 2005. "A macadâmia entrou aqui não por questão de investimento, mas como uma forma de encontrar alternativa à produção da cana. Já a partir de 2015, percebi que tudo girava por conta da macadâmia, uma vez que a cana-de-açúcar não estava dando retorno que eu precisava", relata.

E daí vai se buscar uma alternativa na sustentabilidade para reduzir os custos de produção. A mecanização ajudou a reduzir a poluição urbana com a proibição da queima da cana, mas a produtividade teve uma redução na produção na média de 75 toneladas/hectare em 2015 para 66 tonelada/hectare em 2017. Esse é outro fator que também atingiu a produção da monocultura da cana. "Houve uma diminuição no setor que já passava por uma dificuldade produtiva. Com a questão da mecanização, muitas áreas que eram de cana deixaram de servir para o plantio, devido a declividade. Começou a ter muitos vizinhos e parceiros questionarem: o que fazer? Vou cercar, soltar gado? Exatamente nessas áreas comecei a plantar macadâmia", relata o produtor rural.

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Macadâmia é uma noz muito utilizada nas indústrias alimentícia e até de perfume

E isso vai exigir uma busca por alternativa de método sustentável. Pelo menos 60 mil hectares dos 650 mil hectares de areá plantada de cana-de-açúcar não servem mais na região de Jaú, porque a declividade de 12º impossibilita usar esse solo para a cana-de-açúcar. As máquinas não conseguem fazer a colheita. Nesses locais só com o corte manual, usando a queima.

Edwin conta que também veio outro questionamento: o produtor rural passou a ser um grande comprador rural. "Afinal a gente comprava calcário, corretivo de solo, frete do caminhão para escoar a produção, despesa com herbicida, inseticida. Para comprar tudo isso, muitas vezes tem que recorrer ao banco para financiar. Isso foi achatando a margem de lucro do produtor rural. Foi quando cheguei a conclusão: esse negócio está errado e comecei a procurar uma maneira de eliminar esses insumos", conta Edwin.

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A macadâmia substituiu o café e também a cana-de-açúcar na Fazenda Retiro, em Bocaina

Isso levou a buscar um tipo de agricultura que tenha menos despesas com insumos. Para tanto, é necessário ter uma planta mais nutrida e ambiente mais equilibrado. Com isso, a agricultura sintrópica foi a alternativa.

Conforme Edwin, é uma agricultura de processo, porque é necessário buscar a matéria orgânica, criar agroflorestas para criar mais sombra para proteger as plantas e ter mais capim. "Esses insumos vai se produzindo dentro da fazenda, ficando mais independente. "No momento deixamos uma área para o plantio de macadâmia sintrópica. É produzir de uma força não convencional". 

Então, Edwin conta que definiu uma estratégia de uso de solo para buscar alternativa com declividade. Nessa área não tem mecanização, diante disso entrou o conceito da sintropia e da agrofloesta. "Uma agrofloresta não tem problema nenhum de declividade. Vai segurar erosão e reservar mais água, Eu investi em janeiro de 2018 para fazer agrofloresta e comecei a fazer vários cursos durante o ano, fui para o Bahia duas vezes. Depois conheci o Ernst em Goiânia para plantio em larga escala dentro desse conceito para plantar 2.000 hectares de soja", relata.

O produtor rural comenta que enxergou oportunidade: o setor está muito pesado de custo, principalmente com a alta do dólar no País. A maioria dos insumos importados. "Com o dólar alto, o custo de produção aumenta muito", cita. Com isso a redução de insumos é possível com o uso da agricultura sintrópica. 

Agricultura a favor da natureza

A agricultura sintrópica leva muito em consideração o conceito de trabalhar a favor da natureza e não contra ela. Também deve associar cultivos agrícolas com florestais, recuperar os recursos ao invés de explorá-los e incorporar conceitos ecológicos a manejo.

No site Agenda Götsch, o pesquisador diz que escolheu o termo "sintropia" por ter a mesma etimologia grega da palavra "entropia", deixando clara desde o início sua relação dialética. "Estamos mais familiarizados com o conceito de entropia que, dentro da Termodinâmica, se refere à função relacionada à desordem de um dado sistema, associada com a degradação de energia. Tudo que se refere ao consumo e degradação de energia é, portanto, explicado pela Lei da Entropia. Por outro lado, os sistemas vivos possuem a capacidade de vencer a tendência à entropia por meio do crescimento e da reprodução, por exemplo. Mais evidente ainda é a tendência dos sistemas naturais de evoluir no sentido de estruturas de organização cada vez mais complexas."

No texto, o pesquisador comenta que em um macro-organismo os participantes agem de forma sinergética e, por meio de seu metabolismo, realizam a tarefa de otimizar os processos de vida, aumentando a organização e a complexidade do sistema como um todo.

"A tradução dessa lógica para os sistemas agrícolas produtivos é o que faz a AS ser uma agricultura de processos e não de insumos. O resultado disso se manifesta na forma de aumento de recursos e de energia disponível," consa no site.

Pode dizer também que a agricultura sintrópica é uma método ecológico de cultivo. Quem quiser conhecer mais pode acessar a página (https://www.agendagotsch.com/agricultura-sintropica/) que tem um amplo material do próprio pesquisador explicando sobre o conceito.

O empresário Pedro Diniz criou o Núcleo Agroflorestal de Pesquisa Aplicada em Agricultura Sintrópica na Fazenda Toca, em Itirapina (SP). É um dos pontos muito procurados pelos agricultores que conhecer o processo. Na região de Avaré, há um projeto de plantio de soja pelo processo sintrópico.

O empresário de Bocaina Edwin Montenengro diz que a mudança deve ser devagar não precisa ser aplicado de imediato. "O importante é você perceber que a gente tem uma alternativa de fazer uma agricultura de processo e reduzir a compra de insumos. Esse é ponto mais importante", relata.