Bauru e grande região

Regional

Cidades da região negociam vacinas com empresa suspeita

AstraZeneca nega ter relações comerciais com intermediários apontados

por FolhaPress

04/05/2021 - 05h00

Consórcio de municípios do interior paulista negocia a compra de vacinas da Oxford/AstraZeneca com grupo turco do setor de construção civil que tem como parceira empresa americana acusada pela farmacêutica de fraude na venda de imunizantes. As 500 mil doses seriam adquiridas por US$ 4,875 milhões (cerca de R$ 27 milhões no câmbio atual), segundo pré-contrato com vigência a partir de 16 de abril. Cada vacina seria comprada por US$ 9,75 (R$ 54).

O pré-contrato - carta de intenção de compra - tem como destinatário o presidente do consórcio Ummes (União dos Municípios da Média Sorocabana), Marco Aurélio Oliveira Pinheiro (PSDB), prefeito de São Pedro do Turvo. Foi Pinheiro quem anunciou, em 20 de abril, que negociava a compra. Ele pretende angariar, além do dinheiro público, recursos de empresários.

Fazem parte do consórcio 15 municípios da região de Ourinhos. O pré-contrato foi emitido pela empresa Hilal Grup, que tem sede em Istambul e há 47 anos trabalha no ramo de infraestrutura. O comprador, segundo o documento, se compromete a comprovar a existência de fundos ao assinar contrato de adesão com a Hilal e a criar conta de garantias para onde faria a remissão quando as doses fossem recebidas. A ordem de compra tem apoio da Akers Nanotechnology. Em seu site, a empresa, com sede nos EUA, afirma ter legitimidade para vender vacinas de seis fabricantes - AstraZeneca, Pfizer/BioNtech, Butantan/Sinovac, Moderna, Johnson & Johnson e Gamaleya. Especificamente sobre a AstraZeneca, diz ter sido sua parceira no desenvolvimento do imunizante e que, por isso, tem licença oficial para sua comercialização. A empresa não respondeu aos contatos da reportagem.

A AstraZeneca nega ter quaisquer relações comerciais com empresas privadas ou intermediários na comercialização de vacinas, afirmando que negocia apenas com governos nacionais - no caso do Brasil, 100 milhões de doses contratadas pelo governo federal. Questionado sobre o suposto relacionamento com a firma americana, o laboratório afirmou na sexta-feira (30) ter sido "confirmada uma fraude em relação à Akers Nanotechnology".

Já o Hilal Grup anuncia serviços como reformas e perfuração de poços em seu site oficial. Os endereços de e-mail informados tanto no pré-contrato quanto no site devolvem mensagens de que são inexistentes.

Um de seus proprietários, Recep Delikaya, disse que a empresa passou a atuar há pouco tempo no setor médico. "Basta acompanhar a empresa para saber a respeito [da negociação dos imunizantes]", afirmou. A empresa é representada no Brasil por André Luiz de Souza Oliveira, ex-superintendente de Administração e Finanças de Goiás. Segundo ele, o pré-contrato estabelece um tripé entre a Arkers, o Ummes e o Hilal - grupo que ele diz ser um dos maiores conglomerados industriais de Istambul, embora nunca tenha visitado sua sede. Ele garante que a negociação é legítima, mas diz: "Falei para o presidente do Ummes que, se houver dúvidas, ele não deve fazer negócio". Ele afirmou desconhecer o impasse envolvendo a empresa americana.

O presidente da Ummes disse que levaria o caso a uma reunião, mas que tem a garantia de pagar só quando tiver o produto em mãos. "Enquanto não existe risco de prejuízo, temos que tentar", afirmou Pinheiro. Segundo ele, há 50% de chances de a negociação ser formalizada. "Não temos vacina e precisamos correr atrás", lamenta. Ao fim da reunião, a Ummes divulgou nota assinada por nove prefeitos em que afirmou que o processo de compra "é baseado em credenciais validadas por órgãos de controle".

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