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Comportamento: Traição sob investigação

Não há antídoto contra o desejo de se relacionar com outras pessoas, diz o detetive particular Edilmar Lima, autor do livro “Crônicas de um Detetive”

por Cristiane Goto

10/09/2006 - 07h00

Trair e coçar é só começar? O detetive particular Edilmar Lima, 30 anos, resolveu analisar esta questão, que está presente na vida em sociedade, e inspirou, inclusive, a realização de um filme e peça teatral. Para isto, ele se baseou em casos reais, acumulados em mais de dez anos de experiência profissional, reunindo-os em seu livro “Crônicas de um Detetive” (Editora Viena).

Na obra, Lima aborda o desejo incontrolável de se relacionar com outras pessoas, apontando os vários aspectos da traição. Entre eles as causas e conseqüências da infidelidade, relacionamentos, sentimentos e a dificuldade do ser humano em lidar com as tentações do cotidiano.

Nascido em Teresina (PI), Lima é diretor da Central Única Federal dos Detetives do Brasil Ltda., agência de investigações com sede em Brasília, onde mora atualmente. Considerado figura de destaque na área de investigação do País, sua cartela de clientes inclui países do Exterior, como Estados Unidos, Japão, Portugal, Emirados Árabes, Espanha, Alemanha, França, Canadá e África.

Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Lima fala sobre traição e seu trabalho como detetive, abordando diversos aspectos do comportamento humano. Confira os melhores trechos.

Jornal da Cidade - Qual é o perfil do traidor?

Edilmar Lima - Cotidianamente vivemos uma disputa acirrada, é uma verdadeira batalha em prol de “segurar” o nosso affair, tanto o homem quanto a mulher recebem “cantadas” no seu dia-a-dia, no seu trabalho, na rua, na Internet, no mercado, etc. Umas podem ser tão discretas que nem percebemos. Outras, porém, mais penetrantes que, se nos pegam em um dia daqueles, podem sim nos fazer balançar. O certo é que todos podem se tornar um traidor em potencial. Com o advento de maior igualdade entre os sexos, as mulheres estão mais independentes financeiramente e isto de certa forma também lhes trouxe uma independência emocional. Os valores machistas, que antes predominavam em nossa sociedade, estão caindo por terra. Antes se falava que a traição era coisa masculina, era uma questão do homem, de instinto. Hoje quem fala isto reina em sua ignorância. Contudo, pelo que pude observar nestes anos de trabalho é que existem divergências quanto ao perfil do traidor. A mulher que trai, geralmente, possui formação superior, tem entre 24 e 37 anos, é independente financeiramente e normalmente tem dois ou mais anos de casada. Já no caso do homem, a idade vai dos 21 aos 50 anos e boa parte dos traidores, quando casam, já tem uma amante. Geralmente a mulher, quando chega a trair o parceiro, é um caso irreversível.

JC – Por quê?

Lima - Quando ocorre a traição feminina, na maioria das vezes, a mulher já está envolvida sentimentalmente com o amante. É importante enfatizar que quando ela está apaixonada pelo parceiro não é capaz de traí-lo. Em linhas gerais, elas sempre procuram um motivo para justificar a sua traição, ao contrário de nós homens, que para trairmos só precisamos de oportunidade e não de motivos. Mas o recomeçar é o que faz a diferença. Acredito que, dependendo da traição, o perdão pode ser o pior castigo para o traidor. No fundo todos traem, o que acontece na verdade são formas diferentes de traições. A pessoa pode trair em pensamento, através da Internet, por exemplo, e nunca passar disto. É o que considero uma traição saudável.

JC - Quais os casos mais comuns de traição?

Lima - É mais comum entre amigos de trabalho. Talvez por estarem sempre juntos, facilita um pouco a aproximação e, sobretudo, o assédio. Uma brincadeira aqui, outra ali, até que vira uma cantada e logo depois uma saída para discutir assuntos de trabalho regado a um bom vinho em um restaurante próximo. Daí então seguir para um motel é um passo. Além disto, há casos de traições envolvendo amigos de faculdade e pessoas ligadas ao casal. É preciso ressaltar também que a Internet é hoje a maior destruidora de relações, pois basta entrar na rede para encontrar uma infinidade de pessoas e a maioria delas dispostas a qualquer coisa, como realizar fantasias sexuais, por exemplo.

JC - Baseado em sua experiência profissional, quais são os principais motivos que levam uma pessoa a manter uma relação extraconjugal?

Lima - O parceiro contribui diretamente para isto. Nestes anos de investigação constatei alguns dos motivos que levam a mulher a trair o parceiro. O maior deles é a falta de confiança no relacionamento. Ela passa a desconfiar que o parceiro está tendo um caso e então começa a sair à procura de outro. Constatei também que a falta de sexo no relacionamento não é motivo relevante para a mulher trair, mas a falta de amor, carinho, atenção e afeto contribuem diretamente para a traição. Traição é como uma loteria, uma hora a pessoa acaba sendo premiada. E, o que é pior, às vezes nem se precisa jogar. O lado bom disto é que a infidelidade não significa propriamente que o relacionamento fracassou, mas sim que existe algo de errado acontecendo não só com a pessoa que trai, mas também com a pessoa que foi traída. Em outras palavras, serve para mostrar que um relacionamento vai mal.

JC - E o que motiva um indivíduo a procurar os serviços de um detetive? Quando o auxílio profissional é indicado?

Lima – Primeiro, devemos considerar que todo ser humano já é desconfiado por natureza. E, em segundo, que a busca pela verdade para alguns é, sobretudo, algo incessante. Geralmente quando aparece algum fato estranho na relação, por exemplo, é quase inevitável que a pessoa procure um profissional para que possa buscar uma verdade a tempo de salvar a relação, o que na maioria das vezes já não é possível. Normalmente é importante procurar ajuda de um profissional quando existirem algumas desconfianças assolando a relação, pois muitas vezes podem ser apenas paranóia, e o que poderia ser uma mera desconfiança acaba tomando proporção irreversível.

JC - No livro do senhor há um capítulo sobre presságios da traição. Como percebê-los?

Lima - Infelizmente ainda não foi desenvolvido nenhum antídoto para evitar a traição, o que podemos fazer é prevenir e policiar, mas sem deixar que isto se torne uma ameaça à relação. É complicado, pois normalmente os indícios de uma possível traição demoram a aparecer e, na maioria das vezes, quando vêm à tona chegam tarde demais. Contudo, o casal deve observar alguns detalhes que são importantes para não deixar o relacionamento cair na mesmice. Entre eles, quando o parceiro começa a dizer que precisa de um espaço só dele, sendo que antes o casal fazia tudo junto. Aí é preciso ter cuidado, porque esta frase é típica de pessoas que querem dar um próximo passo e saírem sozinhas. Outro sinal é quando, a partir deste momento, começam as reuniões com os amigos, onde a presença do outro é totalmente dispensável e imprópria e, quando o companheiro tenta dialogar sobre o assunto, a outra pessoa é capaz de fazê-lo sentir-se culpado por estar desconfiando dela sem motivos aparentes. Outro fator é a mudança de comportamento. Muitos imaginam que quando a mulher tem um amante, ela fica estressada em relação ao marido e filhos, mas, na maioria dos casos, se torna mais amável e às vezes deixa transparecer que tudo para ela está bom.

JC - Sem citar nomes, conte algumas histórias curiosas, trágicas ou que tiverem um final feliz durante seu trabalho como detetive. Lima - Há algum tempo fui contratado para investigar um senhor de meia-idade. Sua esposa suspeitava que ele estava tendo um relacionamento paralelo ao casamento. Com o desenrolar da investigação, detectamos que ele realmente tinha outro relacionamento, mas, na verdade, era com outro homem. Outro caso ocorreu no início deste ano, quando uma jovem senhora, com poucos meses de casada, me procurou para investigar o seu esposo. Ela me disse que já fazia duas semanas que ele não a procurava na cama e só poderia ter outra. Peguei o caso e fiz a investigação. Na segunda semana o flagrei entrando em uma clínica e depois fui descobrir do que se tratava. Ele estava fazendo tratamento relacionado a problemas sexuais. Impotência talvez. Quando relatei a ela o ocorrido, ela achou um absurdo, mas depois comprovou que este era realmente o problema dele. Há outra história envolvendo um cliente que havia me contratado em uma sexta-feira pela manhã e, no sábado, ao meio-dia, bebeu demais e contou para a mulher que havia contratado um detetive para investigá-la. E não me falou nada. A mulher sabia que estava sendo vigiada e armou com o seu amante. Levou-me para um local muito estranho, mas como a intuição é a grande arma de um bom detetive, logo saquei que tinha algo de errado e abortei a missão.

JC - Analisando casos reais, o senhor acredita ser menos doloroso trair ou ser traído?

Lima - As pessoas se igualam quando o assunto é relacionamento. Tanto o homem quanto a mulher ficam totalmente fragilizados quando descobrem que foram traídos. Conversando com alguns de meus clientes, cheguei à conclusão de que a dor de ser traído é muito forte. Por outro lado, os que estavam traindo sempre dizem que, devido à culpa, trair também dói.

JC - Até que ponto a infidelidade vale a pena?

Lima – Esta é uma incógnita que vai perdurar por muito tempo em nossas cabeças, sem uma resposta coerente, até que nos tornemos vítimas deste prazer maléfico. A infidelidade só serve para destruir uma relação e, o que é pior, geralmente quem paga por isto são os filhos, que nada têm a ver com as supostas traições dos pais. Definitivamente não vale a pena ser infiel.

JC - Hoje há muitas formas de perceber uma traição, por meio de celular, Internet, telefone com bina, câmeras. Estes recursos banalizaram a profissão de detetive? Por quê?

Lima - De forma alguma, pois a tecnologia é forte aliada do detetive. O celular realmente é o maior vilão em entregar uma infidelidade, pois ele sempre toca na hora errada. E se a pessoa percebe que tem algo de errado em uma ligação, acaba procurando ajuda profissional para desvendar a suspeita. É aí que entra o detetive, o qual vai seguir o suposto infiel para apurar se procede a suspeita apresentada pelo cliente, trazendo provas materiais, porque muitas vezes existem outros fatores importantes só um trabalho profissional pode trazer a clareza e certeza necessárias.

JC - Quais as exigências profissionais para se tornar um detetive? Quanto custam os serviços deste profissional?

Lima - Como todo ser humano, o detetive precisa ter caráter. Ser imparcial em sua função e honesto com a sociedade em geral. E, acima de tudo, trabalhar em conformidade com a legislação vigente. Ser detetive significa trabalhar com a inteligência, desvendar mistérios e provar a verdade. Para ser detetive no Brasil, é necessário a realização de um curso de formação, No Brasil ainda não existe faculdade de formação de detetives como em outros países, diferentemente dos Estados Unidos e Portugal. É difícil estipular um valor preciso sem antes conhecer o problema mas, em casos conjugais, por exemplo, os honorários são calculados em diárias, que podem variar de R$ 350,00 à R$ 800,00, dependendo do caso a ser investigado. O tempo médio de uma investigação conjugal é de uma semana.

JC - Em sua área profissional, existem “picaretas” ou pessoas que tentam se passar por detetives quando não têm qualificação? Há fiscalização nestes casos?

Lima - Sim, isto é comum em qualquer área profissional. A investigação é um mercado promissor, que está em ascensão no País, o que acaba despertando a curiosidade de algumas pessoas, que aproveitam da onda de desemprego e decidem se aventurar sem nenhum tipo de preparo ou qualificação, se passando por detetive. Apesar de existir no Brasil uma legislação que regula a atividade, a lei federal número 3.099/57 e o decreto federal número 50.532/61. Partindo do ponto de vista jurídico, eu não poderia deixar de dizer que para os padrões atuais esta legislação é muito antiga e poucos a fazem ser cumprida como deveria. Para não cair nas mãos de um falso detetive, é importante não confiar apenas na propaganda, tentar saber o máximo de informações sobre o profissional e conferir se ele tem habilitação para exercer a função. Para isto, basta pedir-lhe sua carteira de detetive. Afinal, todo cuidado é pouco quando é a sua vida privada que vai estar nas mãos de uma outra pessoa. Em caso de anúncio, onde figuram apenas o telefone móvel, peça um número fixo para contato e procure visitar o profissional em seu escritório ou até mesmo em sua residência. É bom evitar encontros na rua.

JC - Quais são os cuidados que o detetive deve tomar na hora de revelar informações ao seu cliente para não desencadear uma “bomba relógio” ou provocar reações de violência?

Lima - A entrega do resultado é, para mim, a parte mais difícil. Porque eu sei que, às vezes, o resultado de uma investigação pode trazer danos irreparáveis à vida de um cliente. Portanto, nesta hora, todo cuidado é pouco. Algumas pessoas têm a falsa idéia de que o detetive destrói relações, mas o que fazemos na verdade é consertar. Mas entendo que, quando uma pessoa chega a contratar um detetive para resolver questões de desconfianças na relação, pode ser que não exista mais relação.

JC - O senhor já sofreu agressões por parte das pessoas ou clientes envolvidos em situações de traição? Como lidar com isto?

Lima - Ameaças são riscos inerentes na minha profissão. Já me vi ameaçado por diversas vezes, mas nunca deixei de cumprir minhas obrigações. Ameaças veladas, do tipo “vou te matar”, nunca me aconteceram, graças a Deus. É engraçado porque com o tempo aprendemos a deduzir logo de início quando é uma ameaça ou apenas um blefe. Quando se é detetive, é preciso saber lidar com questões deste tipo.

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