Bauru e grande região

Ser

Charme, o poder abstrato de efeitos concretos

Capaz de garantir dividendos nos mais variados aspectos da vida, fenômeno é confundido com sex appeal e simpatia

por Luciana La Fortezza

25/07/2010 - 07h00

Impossível de capturar e difícil de definir, inegavelmente o charme está no meio de nós. Aporta, por exemplo, naquele olhar capaz de calar fundo – surpresa boa que vez ou outra entorpece os ‘mortais’. Dissimulado e imerso num ar de mistério, percorre em silêncio as pesquisas científicas, normalmente sem ser alvo delas. Difuso em fenômenos como carisma, sex appeal, simpatia, elegância, glamour, beleza, virilidade, feminilidade e inteligência até parece altruísta, mas não é.

Seleto, o charme dá preferência exclusiva aos de personalidade marcante, seja ele um mero desconhecido das altas rodas sociais ou figura carimbada sob os holofotes da fama. Espécie de ‘curinga’, seu significado também se superpõe ao de poder e fama. Na imensa maioria das vezes, garante dividendos nas relações afetivas, sociais e no mercado de trabalho.

Longe das elucubrações de qualquer natureza, o charme se esparrama nas palavras, gestos e olhares de pessoas como José Mayer, Ana Paula Arsósio, Mateus Solano, Johnny Depp, Paulinho da Viola, Humberto Martins, Rodrigo Lombardi e Barack Obama. Há quem diga que John Kennedy seja seu símbolo máximo, embora os mais jovens nem se recordem dele. “Quando John Kennedy sorria, conseguia encantar um pássaro a ponto de fazê-lo cair do galho”, teria dito o ativista ambiental Seymour John.

Resta saber se é um fenômeno inato ou adquirido. Tem quem defenda as duas variações, como Brian Tracy e Ron Arden, autores do livro “O poder do charme”. Eles, inclusive, orientam aos desprovidos da vantagem sobre como desenvolver esse ‘algo mais’. Caso estejam corretos, difícil ao leitor é encontrar a medida certa, sem negligenciar com a principal característica do charme: a espontaneidade. Sem ela, é iminente o risco da pessoa tornar-se chata, artificial, melosa, até ridícula.

Num terreno aparentemente estéril de respostas assertivas, talvez o segredo seja o exercício pessoal em manter coerência entre o que se sente, pensa, vive e veste, além de respeito e atenção ao próximo. Neste caso, quem sabe o charme deixe o tom blasè e se aproxime daquele que o reivindica com várias justificativas. Regra geral, os charmosos exercem tanto poder que são capazes até de receber perdão em situações em que seriam crucificados.

Antropológico e cultural

Embora o poder seja facilmente associado à esfera política, ele está presente em todas as relações humanas num sentido mais amplo. Por essa razão, também está impregnado no charme, segundo o professor de história da filosofia Fausi dos Santos. Neste caso, o poder do charme se configura na sedução, na conquista e na virilidade, por exemplo.

“O charme é antropológico porque podemos encontrar elementos dele em todas as culturas, mas caracterizado de formas diferentes. O que é charme para um índio do Alto Xingu é diferente para um homem enfronhado nessa sociedade”, explica.

Por essa razão, a compreensão de charme não é universal, mas depende de cada grupo, como no caso da beleza. “Já a busca pelo belo é antropológica, todo homem almeja. O anseio estético é universal, está enfronhado na humanidade desde sempre”, comenta o professor.

De acordo com Fausi, biologicamente alguns traços são mais aceitos entre as espécies. Demonstram, por exemplo, que o macho é mais apto ou saudável. Por isso, o professor de filosofia analisa com desconfiança os manuais que ensinam como desenvolver charme.

“O que é ele senão aquilo que individualiza?”, questiona. Vivemos, no entanto, numa sociedade capaz de nivelar as pessoas, padronizá-las conforme as exigências do mercado - contempladas nas dicas de livros do gênero - e o charme não está incólume à tendência.

“É a sociedade que estabelece quais são os padrões de charme mais aceitos. Mas ninguém duvida que uma pessoa carismática é meio líder, cria seu próprio padrão”, comenta Fausi.

Para apresentá-lo, o charmoso depende exclusivamente da relação com o outro. Como ser social, sem um interlocutor, independentemente das características pessoais, cada um corre o risco de perder sua própria identidade, adverte Fausi – para quem Ana Paula Arósio é o exemplo de mulher charmosa e Mateus Solano, de homem charmoso.

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“Elementar, meu caro Watson’, diria Sherlock Holmes sobre o fato do charme ser aliado num processo de contratação. De modo natural, a característica também aumenta as chances de aproximar cargos de liderança.

“Obviamente envolve outros fatores, mas um excelente técnico, sem nenhum charme, sem nenhum carisma, não consegue fazer a gestão de várias pessoas. Ele tem que acessar vários tipos de personalidade e conseguir ser aceito por elas, transitar por outros setores”, comenta Eduardo Fábio Silva, psicólogo e consultor de recursos humanos.

De acordo com ele, independentemente da área pleiteada pelo profissional, quando ele passa por uma seleção, é literalmente avaliado dos pés à cabeça. “Esse é o primeiro impacto. O segundo é o próprio comportamento, que pode mudar radicalmente a primeira impressão”, acrescenta Silva.

Na opinião dele, algumas pessoas são naturalmente charmosas. Outras podem trilhar o mesmo caminho por meio de um refinamento trabalhado durante a vida, que contemple aspectos culturais e comportamentais, por exemplo.

Para o psicólogo, charme também tem relação com repertório, educação, linguajar, por exemplo - aspectos dificilmente construídos por intermédio de livros de autoajuda. Quando é forçado, inclusive, como numa entrevista de emprego, normalmente é denunciado pelo próprio candidato, mesmo que num único instante.

“Às vezes, a pessoa fica tão aficionada por alguém que jorra conhecimento que incorpora aquilo como se fosse verdade, sem senso crítico. Uma pessoa muito chata é aquela que tem um discurso pronto para tudo, conhece tudo e não conhece nada”, afirma Eduardo.

Menos frequentes, os charmosos podem ser identificados em qualquer grupo. Característica também presente em pessoas muito simples. Já dos conhecidos nacionalmente, Eduardo aponta como charmosos Fernanda Montenegro, do alto de seus mais de 80 anos, e Paulinho da Viola. “É aquela timidez, aquele jeito manso de falar, parece muito charmoso, elegante”, finaliza.

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Característica tem avaliação diferente para homens e mulheres

O charme é uma das características mais bem avaliadas nas relações amorosas, admite Ailton Amélio da Silva, autor do livro “Relacionamento Amoroso”. Mas existe um porém: a característica é muito mais importante na avaliação das mulheres do que na dos homens. “Eles não querem mulher charmosa e feia. Universalmente, a beleza feminina pesa mais para os homens”, explica o autor, que também é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com ele, vários fenômenos se superpõem parcialmente ao do charme, como a própria beleza, carisma, sex appeal e elegância, porém são coisas diferentes. “Johnny Deep não é nada elegante. Se veste de pirata mesmo na vida real, mas dizem que ele tem muito charme, muito sex appeal”, comenta o autor. Para ele, provavelmente o charmoso aumenta suas próprias chances de ter sex appeal, mas ainda assim são características diferentes.

“Ao pedir para as pessoas darem notas, vamos encontrar gente com altíssimo sex appeal, mas que recebe nota baixa para charme, tal como para carisma. Eu acabei esses dias de fazer uma avaliação: umas 20 pessoas julgaram alguém que acabaram de conhecer. Ele recebeu nota altíssima para carisma e baixa para charme”, reitera Ailton, que é psicólogo.

Com relação à beleza é a mesma coisa. No caso do belo, no entanto, é possível até mensurar. Já o charme é puramente psicológico, se revela essencialmente no comportamento. “Sou praticamente leigo, meu julgamento é mais pessoal do que como estudioso, embora o charme tenha aparecido várias vezes nas minhas pesquisas. Nunca vi um estudo bem feito desvendando. Deve ter, mas desconheço”, comenta.

O autor do livro “Relacionamento Amoroso” diz ter ficado decepcionado com as publicações sobre o assunto que encontrou em livrarias. Na opinião dele, elas tratam mais de comunicação não verbal do que especificamente de charme. Mas num ponto eles concordam: charme não é uma característica inata. “O bebê já tem? A criança já tem? As previsões de crianças atraentes não se relacionam direito com adulto atraente, os estudos têm mostrado”, afirma.

Segundo o pesquisador, vários trabalhos explicam, inclusive, por qual razão bons artistas na infância se tornam desconhecidos na fase adulta. Ele não descarta a possibilidade do charme ter alguma desvantagem, como é o caso da beleza. “Em julgamento onde ela é usada como arma do crime, as pessoas bonitas recebem penas maiores, embora em geral sejam menores. Na empresa também. A mulher muito bonita tem menos chance de se tornar chefe. Em psicologia a palavra sempre não existe”, adverte ao responder a possibilidade do charme só trazer dividendos.

Ajuda do vestuário

O vestuário é um grande aliado do charme, quando se parte da premissa de que pode ser conquistado ao longo da vida. “A pessoa se torna charmosa quando tudo nela está ligado, quando a forma como ela se veste é coerente com a forma como ela é, no ambiente em que ela está”, comenta Carla Costa, coordenadora da área de moda do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Bauru.

Na opinião dela, a maioria das pessoas se esforça para ter um visual individualizado, mas são poucas as que conseguem. “Quer usar algo que está na moda, mas não tem nada a ver com o estilo dela. Peca porque não se sente muito confortável com aquilo, acaba prendendo um pouco. Como todo mundo quer ser diferente, o diferente acaba sendo o mais simples”, avalia. Carla gosta do estilo elegante e moderno de Guilhermina Guinle, por exemplo.

“Toda roupa quer dizer alguma coisa. Querendo ou não, ninguém escapa da moda, até quem acha que não está nem aí para ela. Moda tem a ver com etiqueta, atitude e educação. No século 21 é aprender a ter civilidade nas situações difíceis do cotidiano. A imagem construída com inteligência ajuda na comunicação com o outro, incorpora confiança. Não é uma questão de simples vaidade, mas de sobrevivência”, acrescenta Odil Zepper, consultor de estilo e de negócios para moda. O charme, enfim, abre portas.

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