Bauru e grande região

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Adeus ao homem-gabiru

por Marta Helena Meireles de Resende

01/11/2012 - 07h00

Os passos firmes são tão decididos como os de todos os demais que passam por ele sem vê-lo. Ninguém presta atenção ao maltrapilho que atravessa a rua entre os carros que passam apressadamente. Ele sabe aonde ir. Seu lar é um monte de arbustos e árvores altaneiras onde vive há mais de trinta anos. Saiu de seu sertão distante ainda moço, fugindo da seca e da miséria e veio tentar a vida, onde, quem sabe, teria mais sorte. Não poderia saber, em sua ignorância, que a miséria ocupa outros endereços. Juazeiro do Norte, aquele pontinho no mapa, nunca mais o viu. Por uma ironia do destino, ou pela fibra do sertanejo, teimou em viver. O que faz lembrar de Marcel Bursztyn, que relata a vida dura do homem-gabiru, sertanejo franzino e resignado diante das adversidades de seu dia a dia. Em sua pobreza, desenvolve uma inexplicável resistência, e busca na rara fauna e flora do sertão o seu alimento. Come calango e palma forrageira, quando há.

Não se sabe se o nosso homem-gabiru perdeu a esperança - esta também teimosa ? entre os dias que viraram anos e se dissiparam no vazio da rotina, na luta constante pela sobrevivência. Dias e noites solitários ao relento, sob o céu, perdidos no delírio de uma esperança vã. Já não dorme e espera amanhecer, outra manhã cinzenta e úmida em que abre os olhos e vê que ainda não acabou. Começa um novo dia neste mundo hostil, de eterno inverno. O corpo cansado não conhece conforto. A fisionomia é inexpressiva, alternando entre a insanidade e a lucidez. É mais fácil seguir em frente, pensando vagamente em seu abandono. Afinal, nós também precisamos sobreviver, ganhar o pão de cada dia. É mais fácil desviar o olhar da figura incômoda que aponta impiedosamente a falência de nossa sociedade.

Até que, num dia de primavera, igual aos outros, em que as flores se desprendem dos galhos e bailam até o chão, o homem-gabiru não mais acorda. Ah, se eu pudesse lhe dizer ainda algumas palavras, diria simplesmente: "Você é livre agora. Livre da fome, do frio, da violência, da indiferença, do desamor. Livre de nosso olhar de desprezo. Descanse em paz." Se me dão licença, vou cultivar, ainda uma vez, a humanidade que me resta. Porque, bênção ou castigo, feliz ou infelizmente, me aproprio das palavras de José Saramago: "Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia". E porque sangra, eu choro. Choro por todos os homens-gabirus que vivem à margem da sociedade e morrem ao abandono. Choro pelos homens-gabirus que são vítimas da violência material e simbólica que desabriga o corpo e esvazia a alma. E que um dia encerram sua jornada de sofrimento numa cova rasa, sepultados como indigentes. O que não fará diferença, pois ele, invisível social, não foi contabilizado em nenhum censo.

Na hora do adeus, nada mais posso oferecer-lhe além das palavras de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, escritas há tanto tempo, parece que especialmente para ele:

Essa cova em que estás, com palmos medida,

É a cota menor que tiraste em vida.

É de bom tamanho, nem largo nem fundo,

É a parte que te cabe neste latifúndio.

Não é cova grande, é cova medida

É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto

Mas estarás mais ancho que estavas no mundo.


Autoria: Marta Helena Meireles de Resende. O texto refere-se ao cidadão que ficou conhecido como "homem do buraco", Manoel Justino da Silva, sepultado ontem, em Bauru