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Por que as escolas não ensinam economia doméstica?

por Vitor Gomes Figueiredo

14/09/2015 - 07h00

Seria uma forma muito interessante e eficaz de fazer com que a depredação das escolas reduzisse ou até mesmo acabasse. Imagine só se essa disciplina ensinasse coisas como marcenaria, fundamento de elétrica, culinária e finanças pessoais. Eu imaginei: nas aulas de marcenaria os alunos, além de aprender um ofício, poderiam usar aulas práticas para consertar os móveis da própria escola. O mesmo poderia ocorrer em fundamentos de elétrica, aprendendo a trocar uma lâmpada ou um chuveiro. Nas aulas de culinária os alunos poderiam preparar as próprias refeições - mais diversificadas, saborosas e até mesmo, quem sabe, saudáveis.

Penso que se você pintou o muro, não vai querer vê-lo pichado. Se você que arrumou sua cadeira, não vai arrancar os parafusos quando estiver entediado. Se você quem trocou a lâmpada do corredor, não vai querer vê-la quebrada ou queimada. E é essa ideia de autopreservação e sentimento de coletivo que eu acredito que essa disciplina faria a maior diferença. Neste ano, um aluno da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolveu um jogo, na forma de aplicativo, em que o jogador deve diferenciar prisões de escolas. O jogo é uma crítica evidente ao modelo educacional que afasta o interesse de qualquer ser vivo em estudar. As escolas são feias, têm muros altos, grades dentro das salas de aula, vidros quebrados, iluminação de péssima qualidade, banheiro horrorosos, quadras esportivas que não veem uma manutenção há tempos, além das pichações por toda parte. As escolas tentam preencher esse vazio com trabalhos colados nas paredes, mas não dá pra esconder a arquitetura indesejável.

Ora, deixar a escola bonita e aprazível ao ensino não é função só do Estado, é função de todos nós. É como exigir do Estado que limpe o banheiro na nossa casa - somos nós quem usamos o banheiro, seria justo se nós mesmo limpássemos. Mesmo se a limpeza do meu banheiro fosse obrigação do Estado, eu limpá-lo-ia.  E vai além disso. Existe a formação social,. As pessoas precisam ser educadas de forma a levarem coisas práticas para suas vidas. Quantos jovens não sabem sequer fazer um bife. Eu mesmo, quando casei, não sabia fazer nada. Tive que aprender na marra.

No noticiário de hoje ouvi que 40% dos jovens de até 25 anos estão endividados e que a taxa dos “super endividados” só aumenta. Não é de se estranhar, afinal de contas, por que deveriam saber lidar com o dinheiro se ninguém nunca os ensinou? Como resistir às tentações venenosas do crédito sem que tenha havido preparo algum para isso? Não funciona. E o País todo perde com isso, uma vez que o endividado não consome, ou se consome, não honra seus compromissos.

Seria legal ver uma disciplina de economia doméstica nas escola públicas. E não se trata de obrigar ninguém a trabalhar, afinal, já foi muito bem entendido, nas redes sociais, ? o Art. 5º, inciso II da Constituição Federal em resumi-lo na célebre e cômica frase “Não sou obrigado”. Trata-se, sim, de abrir uma nova possibilidade, de trazer toda a sociedade ao seio do ensino médio e fundamental. É preciso que a educação de base seja boa, seja eficiente na função sócio-política, que, além de formar alguém com os conhecimentos básicos para entender essa sociedade maluca, forme cidadãos no sentido amplo da palavra: gente engajada com a comunidade, que não fica esperando a boa vontade do Estado.

O autor é professor universitário