Bauru e grande região

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Buzina

por Roberto Magalhães

09/08/2019 - 06h00

Cara, é tudo igual. Coisa de fábrica, todas com a mesma cara, quero dizer, com o mesmo som. Agora, você vem me pedir uma buzina diferente e, ainda por cima, gaga! Isso é neura, meu. Se liga, irmão! Por mais que o buzineiro estranhasse o pedido, o caminhoneiro mordiscava a unha, insistindo: queria sim uma buzina diferente, fosse ela um berro, um grito, uma frase musical, fosse o capeta, mas tinha que gaguejar, feito metralhadora, picotando o som em pedacinhos.

Aquilo tinha passado da conta, buzina gaga era conversa de louco. Me explica, cara, por que essa noia de buzina gaga? Buzina é buzina, basta buzinar. É um aviso gritado, não precisa gaguejar.

Jamais o caminhoneiro lhe contaria o segredo. Homem da estrada, não sabia falar de um sentimento bonito, que exigia palavras igualmente bonitas. Na boca, tinha apenas palavras secas, que só servem pra sobreviver.

Uma buzina comum jamais! Na orelha, ela seria engano; na alma, decepção. Um erro. Pensou no caminhão errando o caminho num trevo qualquer. Isso no passado, agora ele tinha GPS, coisa maluca! Uma estrela guiando caminhão! Pode? Pior era aquela mulherzinha chata mandando virar à direita a quinhentos metros. Não bastava a mulher de casa mandando? Coisa do demônio, que tudo pode. Arrependeu-se. Deus lê o pensamento da gente.

Rodaria até o fim do mundo atrás da buzina sonhada. Não precisou tanto, foi só até o Paraná. Descobriu, no estado vizinho, um cara porreta que mexia com circuitos elétricos, resolvia qualquer parada. Tudo se confirmou. No teste, a buzina adaptada gaguejou um grito rouco e picotado. Finalmente, tinha a buzina desejada na ponta do dedo.

Depois de um mês, hora de retornar. A estrada serpenteava curvas sem fim; o relógio arrastava os ponteiros como chinelos preguiçosos. Precisava chegar, tinha um trato a cumprir. Parou o caminhão a uns cinquenta metros da casa para que a cena fosse perfeita. Emocionado, meteu o dedo na buzina.

Ao ouvir o som combinado, a menina pulou da cama e, correndo mais do que as pernas, jogou-se nos braços do pai. "Quanta saudade, paizinho! Eu não estava aguentando, você na estrada dói demais. Agorinha, eu estava cheirando as suas roupas, um jeito meu para diminuir a distância de você. Logo percebi a buzina louca que a gente combinou. Adorei a sua buzina, paizinho, mas não gosto do seu caminhão..."

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