Bauru e grande região

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Seu Ernesto

por Paulo Cesar Razuk

25/08/2019 - 06h00

Seu Ernesto é um senhor de 89 anos, aposentado como torneiro mecânico da antiga Noroeste do Brasil e perfeitamente lúcido. Seu Ernesto é solitário, perdeu sua esposa tempos atrás, depois de 60 anos juntos. Leitor assíduo do Jornal da Cidade, meu artigo sobre solidão, publicado no último domingo, o tocou a ponto de procurar a redação do jornal com a finalidade de me contatar.

Graças à intermediação do JC, conversamos por telefone e logo depois fui visitá-lo. Apesar de todas as suas dificuldades de locomoção e de audição, seu lar tem as paredes tomadas por lindos quadros montados por ele. Presentes da neta que o visita com certa regularidade, esse passatempo requer paciência para a combinação certa de centenas e até milhares de pequenas peças. Seu Ernesto tem muitas histórias para contar. No curto espaço de tempo em que estive com ele ouvi algumas sobre seu trabalho no torno alemão do final da década de trinta. Um equipamento sofisticado para a época e que, com seu talento, permitia trabalhos relativamente complexos.

Deveríamos respeitar os idosos independentemente de sua escolaridade e de sua devoção, porque cada ano de vida acrescenta experiência que o mais qualificado dos jovens, sem dúvida, ainda não possui. Infelizmente a sociedade tem uma visão distorcida sobre o envelhecimento: impõe a ideia de que a velhice deve se caracterizar por solidão, inatividade e decadência.

A Bíblia nos assegura que a velhice é uma virtude e uma bênção e nos diz também: "não é bom que o homem esteja só" (Gênesis 2:18).

De fato, existe algo incompleto em nossa essência que busca compleição no outro. Por isso o lar ou qualquer templo são ambientes onde nos aproximamos uns dos outros, não por dinheiro ou poder, mas por amor fraternal. São os lugares onde aprendemos os detalhes da gramática da reciprocidade, a consciência de que amor dado nunca é dado em vão e que, ao compartilharmos nossas vulnerabilidades, descobrimos a força.

Depois de décadas de realizações em prol da ferrovia e de Bauru, seu Ernesto reluta em parar. Vai a academia pela manhã, presenciei o mototaxista entregando seu almoço e seu trabalho de montagem mais recente, ainda sobre a mesa. A verdade é que, quando encaramos o corpo como um auxiliar da alma, o crescimento espiritual da velhice fortalece o corpo.

Seu Ernesto não abandonou o mundo do trabalho e da produtividade em troca de um mundo de inatividade, um mundo que não o desafia, um mundo que o isola. Ele deseja compartilhar suas experiências, ele quer interagir e com isso nutre sua alma. Seu Ernesto tomou seu destino nas próprias mãos: não se sente derrotado pela idade e suas consequências físicas; não presta atenção aos que dizem que é menos útil porque é menos forte fisicamente; não escuta os que afirmam que não se espera mais nada dele.

Nesses anos crepusculares, seu Ernesto vive o clímax de uma vida bem vivida, continua a enriquecer seu espírito, no fundo ele sabe que a matéria é um estado passageiro do espírito.

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