Bauru e grande região

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Barco ancorado

por Roberto Magalhães

07/09/2019 - 06h00

A vida deve andar para a frente. Claro, marcha à ré nem pensar! É "o óbvio ululante", dizia Nelson Rodrigues. Nem por isso, devemos apagar o que passou. Não se abandonam as páginas amarelecidas de um velho álbum de fotografias. Cada retrato é a prova inconteste de um momento feliz: o último abraço de quem foi e nos deixou, aquela taça erguida em brinde inesquecível, o bolo inaugural de uma só velinha, o beijo que prometia e não cumpriu, o diploma na mão, a família, ainda inteira, numa dessas noites felizes chamadas natal. Assim, folheando imagens da alma, vamos ao encontro de nossas raízes.

Raízes sim, âncoras não" disse Mário Sérgio Cortella. Tem toda a razão. Fincadas no húmus da nossa singularidade, as raízes nos conduzem vida à fora, garantindo uma relativa linha de coerência pessoal. Mudamos a forma de pensar, de agir, endereços, hábitos, valores, cabelos, sapatos, amores e até de partido político, afinal mutantes somos por natureza. Viver é estar em processo. Tudo muda, até mesmo as pedras brutas se rendem à força lenta, mas persistente, do sol, dos ventos, das chuvas...

Uns mudam mais, outros, menos, mantidas as raízes que lhes costuram a história. Quem se atreve a mudar em desacordo com suas raízes, pagará caro a ruptura. Viverá o trauma, a culpa, o inferno conflitivo de quem violenta a si mesmo. Não se rompe impunemente com a própria história.

Há quem se vanglorie de não mudar. Pensa e age sempre da mesma forma, mantendo-se fiel às escolhas do passado. Na verdade, essas pessoas também mudam, só que o fazem mais lentamente. Nenhuma crítica a fazer aos conservadores. Ao contrário, é preciso reconhecer-lhes o real valor. Ainda que bem vindas as novas ideias que oxigenam a vida, fundamental é que o novo se defronte com o velho para comprovar a validade do que propõe. Filtro necessário, o conservador barra e testa as novas ideias, porque não faz sentido glorificar o novo só por novo ser. Sem substância, toda novidade deverá ser recusada.

Inovadores e progressistas fazem, assim, o jogo necessário, ambos reconhecendo a importância das raízes que os nutrem. O barco conservador também navega, desde que ancorado não esteja. Para viver mais livre e ligeiramente, dando ao barco a possibilidade de terras novas conhecer, é preciso que levantemos as âncoras que nos imobilizam no fundo de nós mesmos. E muitas elas são. A do preconceito. A do narcisismo. A do fanatismo... A da intolerância...

Navegar é preciso, diz a poesia. Viver ancorado não é preciso. Raízes sim, âncoras não!

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