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A 'nova Roma' de Darcy Ribeiro

por Henrique Matthiesen

10/10/2019 - 06h00

Fruto de um trabalho de pesquisa que durou 30 anos, analisando e discutindo as várias versões e narrativas que constituíram a nossa formação, Darcy Ribeiro produziu sua mais singular obra que é "O povo Brasileiro". Identificando que nos faltava uma teoria global que explicasse nossa formação, que distinguisse apenas a narrativa dos vencedores, que mergulhasse na alma e na carne que caracterizaram e apontam nossas contradições, Darcy defende que aqui se cunhou uma "Nova Roma" que, diferentemente de outros lugares do mundo, conseguimos inventar um novo gênero humano.

Há desconstrução étnica, fruto do mais brutal extermínio e imposição cultural , seja de todas as suas três matrizes formadoras, lavou de sangue índio, africano e europeu o que hoje se denomina o brasileiro. Um povo inaudito, um gênero novo, uma "Roma latinizada". Que tem em seu DNA a grande aventura de se fazer a si mesmo, que por meio de suas profundas desconstruções se mestiçou e se reinventou como nenhum outro povo.

Há mais de dois mil anos, os romanos saíram da Itália, na sua sina de conquistadores, e foi assim que dominaram a península Ibérica, e os latinizaram. Resistiram bravamente às investidas de outros povos e se realizaram quando, por meio de sua influência, ousaram a novas conquistas de além-mar, que se constituiu a sua chegada ao novo mundo. Novos frutos desta aventura, que por meio de nossa matriz portuguesa, numa confluência díspare as outras matrizes que nos formam, se fundem para dar lugar a um novo gênero humano. Surgimos num padrão de estruturação societária, numa etnia nacional, descaracterizada de suas matrizes formadoras que ao mesmo tempo se descoloriram de suas heranças genéticas e culturais. Violentados pela acepção sincrética e especificada pela redefinição de traços originários da mais intensa mestiçagem que dizimou as matrizes originárias, dando lugar ao novo.

Criamos aqui um modelo singular de uma classe dominante escravocrata, antipática, falsa moralista, subordinada aos interesses externos, violenta e parasitária do Estado. Entretanto, com uma estratificação social desigual, perversa, carregamos uma inverossímil capacidade inovadora, uma habilidade espantosa de nos firmarmos como um dos mais importantes povos do mundo, por nossa cultura, economia, que inacreditavelmente traz em si uma alegria revigorante, uma vontade comovente de se recriar, como a nova Roma, um novo gênero, um Brasil decifrado de forma peremptória por Dacry Ribeiro. Um povo que ainda se constrói na luta para florescer como uma nova civilização, mestiça e tropical.

Orgulhosa de si mesma. Um Brasil para os Brasileiros. Viva o povo brasileiro!

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