Bauru e grande região

Articulistas

A vã explicação do inexplicável

por Mário Henrique Prado

06/11/2019 - 06h00

Conta a história que quando o infortúnio se torna a regra, só há a distopia, como presente vivo ou ideal. Tal distopia deixa tudo na nevoa constante da semiótica. Porém, a nevoa não impede - e não deve impedir - uma análise que corte aos nervos até a razão, ou que ao menos a deseje. Vamos à terra brasilis. Fala-se, há muito, no que se denominou por reformas, umas institucionais, outras menos graves, mas todas onipresentes.

A partir do verbete "reforma", este autor foi induzido ao que René Descartes, filósofo francês nascido no século XVI, denominou de "moral provisória", quando, ainda na parte introdutória de seus estudos em "Discurso sobre o Método", afirma que, para reformar uma casa, não basta derrubar e erguer outra, mas é necessária uma morada provisória, numa metáfora à sua moral então em construção.

A alegria repentina que tomou este autor foi desconstituída na ligeireza de um sopro. Ora, não há nada de provisório no que se denominou, em equívoco premeditado, de reforma. Todos os dias acordamos, tomamos o café quente e o noticiário nos avisa do desfazimento de tudo que nos pertence, o que, se não é ocorrente, é planejado. Porém, não há nada no lugar! Nenhum projeto de construção, nenhum plano de erguer as bases e as paredes da morada.

Estejam os infortunados jogados às próprias desgraças! Estamos a derrubar uma casa, sem construir outra, e sem uma morada provisória - valendo-se, aqui, da metáfora cartesiana. Ora, está-se, então, ante o desconhecido! Ainda atordoado com tal conclusão, rememorou este autor do que dissera Brás Cubas, na mais célebre obra machadiana, ao afirmar que, estando morto, encontrava-se perante o 'undiscovered country' de Hamlet.

Outra conclusão errônea! Nada há de mais desconhecido à sorte e ao espírito do homem que a morte. E, sabidamente, não estamos diante do desconhecido. É infortúnio premeditado, e nada há de surpresa. Toda a distopia do presente foi, outrora, um projeto, desenhado sem metáforas, machadianas ou cartesianas. Então, terá o autor deste breve escrito de buscar metáfora outra que descreva nossos terríveis dias, que nem a descrição póstuma machadiana e toda sua tragédia e melancolia soube definir.

Eis a vã explicação do inexplicável.

 

Ler matéria completa