Bauru e grande região

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Mala vazia

por Roberto Magalhães

29/11/2019 - 06h00

Não existe caminho feito. Aliás, nem caminho existe. Só os pés existem. É preciso que eles rasguem as areias vírgens e nelas desenhem as suas pegadas. A partir daí, teremos caminho, afinal uma história começa a ser escrita numa página até então em branco. É o que dizem estes belos versos de Antonio Machado: "Caminhante, no hay caminho, se hace caminho al andar". É andando que fazemos o caminho.
Viver é pegar estrada.

Impossível duas caminhadas iguais. Por isso, toda responsabilidade é do caminhante, que não poderá culpar o caminho, tampouco outros pés, senão os próprios. Peregrinos, turistas, missionários, fugitivos, imigrantes, nômades, andarilhos, conquistadores, negociantes, traficantes, descobridores, somos todos viajantes.

Difícil dizer o que a vida é, mas fácil é percebê-la como a grande viagem. E bem claros são os porquês. Nela, tudo está em movimento. Ouçamos Rousseau: "Tudo vive num fluxo contínuo na terra: nela, nada conserva uma forma constante e definitiva e nossas afeições, que se apegam ás coisas exteriores, passam e se transformam necessariamente". Não suportamos a mesmice do lugar, queremos o desconhecido. Viajamos. Para o outro conhecer e assim nos conhecermos. Para romper o estatuído. Para nos libertar de tudo que em nós foi colado como verdade. Para, enfim, nos transformarmos. "No curso da viagem, há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa", observa o sociólogo Octávio Ianni. Mesmo sem sair do lugar, viajamos. Refletir é viajar. Pensando, visitamos o passado, questionamos o presente e imaginamos o possível futuro. Nas artes, as asas da fantasia convidam-nos a voar, a rever o que esclerosado está. Na filosofia, na história, na sociologia, em tudo existe movimento, portanto viagem.

Viajar é recolher, mas também largar coisas na estrada. Quanto mais passos dermos, maior será a chance de nos desapegarmos das certezas que nos imobilizam, dos preconceitos que nos degradam, das perversas tintas com que nos pintaram o corpo. Sempre ele, Fernando Pessoa: "Procuro despir-me do que aprendi/ Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,/ E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,/ Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,/ Desembrulhar-me e ser eu..."

Sempre haverá bons viajantes, que melhor aproveitam a viagem. Com olhos inquietos e curiosos, registram o espanto da novidade. Com a mente aberta e sequiosa, tudo reaprendem no caminho. Outros, maus viajantes, permanecerão com a mente e olhos fechados. Na mala da volta, apenas roupa suja e alguns "souvenirs" da terra em que nunca estiveram.

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