Bauru e grande região

Articulistas

Do nada sobre o tempo

por João Pedro Feza

01/12/2019 - 06h00

Rodrigues na descida, quase Nações, calçada Centro-bairro. Aperto o passo pensando na sugestão do Elói, do Centrinho, sobre o que escrever aqui quando... surge à minha direita o homem falante do tempo.

Ele empurra a bicicleta e quer contato. "Chuvarada que deu esses dias", diz. Só posso eu, um tanto desinteressado, concordar. "Complicado", digo.

O homem falante do tempo quer mais. "É água exagerada de uma vez só. Inunda tudo". Me vejo obrigado a acrescentar algo e faço isso: "Caiu árvore grande. Você viu?". O homem falante do tempo fica preocupado: "Mas... machucou alguém?". E eu: "Caiu bem do lado de um carro, não pegou ninguém".

Ele quer prosa: "Quando fecha o tempo não tem pra ninguém, não é mesmo?". E eu: "Parece que chove de novo até domingo". E ele: "Problema maior é o vento". E eu: "Antigamente não chovia forte assim". E ele: "Mas Deus está com o controle". Quando ele proclama isso eu aperto a mão esquerda na sacolinha plástica enrolada onde estão dois controles de TV: um mordido pelo cachorro e outro idêntico, que tinha acabado de comprar.

Pensei em brincar e avisar que "com o controle estou eu", mas antevejo que ele vai seguir empurrando a magrela na subida da Rodrigues enquanto eu pego a Nações à direita. "Vou por aqui", aviso. O homem falante do tempo estende a mão de despedida e pergunta: "Qual seu nome?". Eu: "João. E o seu?". "Laércio. Vai com Deus".

Tudo isso para contar a vocês que, caso um homem emparelhe a bicicleta empurrada ao seu lado, mesmo que isso estranhamente ocorra numa descida, e se ele chegar do nada falando do tempo, pode conversar tranquilo.

Só quer fazer amizade que vai durar de uma esquina à outra.

Em Bauru, um homem falante do tempo é parte da riqueza humana do Centro.

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