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O fim do mundo chegou?

por João Jabbour

12/01/2020 - 06h00

"Tolerância zero, o fim do mundo chegou, ninguém respeita mais nada...".
Foi desta forma que a prezada e generosa bauruense Maria Ines Faneco se manifestou ao ler no JC a manchete de ontem, sobre a vil agressão a uma técnica de enfermagem, na UPA da Vila Ipiranga.

A sensação é essa mesmo, Faneco: fim do mundo! Pois, se acabou a tolerância e a empatia, o que nos resta?

Diria que, teimosamente, subsiste em nós a vida, Faneco. E parece não haver nada mais forte. Assim, vamos nós encarar, a cada momento, os nossos e os demônios alheios.

A violência urbana, dizem os sociólogos, deriva dos níveis de valores sociais, culturais, econômicos, políticos e morais de uma sociedade. Em cada época, se manifesta de forma diferente, com maior ou menor intensidade.

Será que a nossa sociedade veste o figurino propício para as insanidades, como essa da agressão à técnica de enfermagem e aos professores, para citar outro polo desse triste fenômeno? Parece que sim, não é?!

O Brasil, não é de hoje, tem terreno fértil para a violência urbana. As nossas instituições são nitidamente frágeis, desarranjadas e desalinhadas. A começar pela instituição família, passando depois pelo aparelho de Estado - Executivo, Legislativo e Judiciário.

Mas não é só o poder público que tem responsabilidade nesta história de barbárie social. Temos um enorme fosso social, devidamente monitorado por uma elite rica em bens materiais e miserável em espírito. E uma certa tradição cultural em agressividade.

A tal cordialidade do brasileiro é uma fantasia que usamos por conveniência, no intervalo entre um carnaval e outro. Muita gente daqui e de fora do País chega a acreditar nessa falácia. Basta entrarmos em um carro e ela vai para o espaço a cada quarteirão percorrido.

E o famigerado "jeitinho brasileiro", que nos "permite" cometer "pequenas transgressões" contra a lei e a ética? Ora, quem pratica as grandes transgressões sabe muito bem dessa aceitação geral e sente-se à vontade para pilhar o bem público, alimentando o círculo vicioso da tragédia nacional.

Essas condições citadas não são uma receita para o problema, obviamente, são apenas constatações para ajudar na reflexão e na busca por um entendimento.

Pelo que tenho visto ao longo de parcos anos vividos, apenas um posicionamento de cada um e depois coletivo provocará mudanças gerais no atual estado de coisas. O político, que é inquilino do Estado, só teme uma coisa: o povo mobilizado e convicto do país que deseja para si. O restante é cosmético...

Ou assumimos posturas públicas e individualizadas racionais, sensatas, coerentes e civilizadas ou seguiremos vivendo e alimentando o caos, com a sensação da Faneco, de que o mundo está por acabar.

Violência social não é só o crime tipificado na lei. Violência social é o que praticamos a cada omissão, negligência e transgressão moral. Violência é a desfaçatez, a mentira, a meia-verdade, o cinismo, o fake news na rede social, também a simulação e dissimulação diária que fazemos perante nossos filhos, concidadãos e autoridades.

Cabe a nós a escolha. A sua, de manifestar indignação, é uma escolha decente, Faneco.

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