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Aos convidados do futuro

por João Pedro Feza

19/05/2020 - 06h00

Já escrevi aqui sobre delírios praianos. Tive saudade até de orlas que nunca percorri. Agora dei de sonhar com gente reunida. Sonhar mesmo - de sorrir no travesseiro e despertar feliz. Em um dos mais recentes estava eu confortavelmente estirado num pufe amarelo em um canto de sala. E gente chegando. E mais e mais. A maioria, mulher - uma prova de que era sonho mesmo.

De repente, tudo ficou muito parecido com cenas do filme "Um Convidado Bem Trapalhão". Foi o título no Brasil dado a um sucesso da comédia protagonizado por Peter Sellers: "The Party", de 1968, com direção de Blake Edwards. Não vou dar spoiler, nem do sonho, nem do filme, mas o fato é que, na minha inconsciente e onírica experiência, houve um ponto em comum impossível de não ser notado: um elefante. O bicho grande entra na sala e vai sem pressa para a piscina. Até desce a escadinha, sabe-se lá como, sem quebrá-la. Todos em volta caem na água também. No sonho, como no filme, o caos se instala em forma de música, risos, espuma (alguém jogou sabão) e paquiderme. A única explicação para um sonho assim é a vontade de estar reunido. Algo tão habitual, como receber amigos em casa ou visitá-los, hoje faz parte do mundo da fantasia. Quem diria.

Sou um cumpridor. Salvo um ou outro deslize, que espero não cometer, aceito o destino de estar reunido, em casa, apenas com meus discos, meus livros e nada mais. Porque é o mais sensato no momento. Um entre tantos depoimentos de brasileiros que pegaram a Covid ficou na minha cabeça durante a semana. Um homem, no Pará, definiu a sensação: era como se afogar fora d'água. Ele sobreviveu. A enteada, bem mais nova, não.

Voltaremos a nos reunir. Com água de verdade, sem riscos, em piscinas rodeadas por gente entusiasmada. Será o dia do triunfo da euforia. Até lá, contudo, a melhor reunião a ser organizada é a de gestos de cuidados e atos preventivos. A era do distanciamento ficou tão próxima que não pode mais ser ignorada - como um elefante em festa. Praticar o bom senso é ter apreço à vida - a nossa e a daqueles que tanto desejamos reunir novamente.

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