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O desprezo pelas ciências humanas

por Sérgio Mauro

19/05/2020 - 06h00

Em declarações recentes, o atual ministro da educação demonstrou apreço exclusivamente pelas ciências biológicas ou exatas ao afirmar que o Brasil (e quiçá o mundo?) necessita muito mais de médicos e de engenheiros do que de filósofos, historiadores ou críticos literários. Da mesma opinião compartilha aparentemente o Presidente. Também recentemente, o CNPQ divulgou, sem meias palavras, que os projetos relacionados direta ou indiretamente às exatas e biológicas terão absoluta preferência na concessão de auxílios a pesquisadores universitários em geral.

Não surpreende a afirmação do ministro, tampouco a do Presidente, tendo em vista a orientação geral do atual governo. Infelizmente, o Brasil segue uma tendência mundial das últimas décadas. Além do mais, aos olhos da população, e com o incentivo de boa parte da mídia, os verdadeiros heróis hodiernos são os médicos e enfermeiros que enfrentam a pandemia e não têm tempo para especulações sobre o sexo dos anjos. No entanto, os grandes cientistas ao longo da história nunca rejeitaram categoricamente as humanidades, equiparando-as muitas vezes às observações e à catalogação dos fenômenos naturais que nos cercam.

A partir do século XVII, período em que cientistas-pensadores do porte de Galileu e Newton iniciaram a ciência empírica, dissociando-a total ou parcialmente da teologia, iniciou-se um processo de cisão entre o conhecimento relacionado ao homem e à sua condição e o conhecimento dos fenômenos naturais. Passou-se a valorizar uma sabedoria "prática", isto é, que pudesse ser traduzida em ações visando ao bem-estar da população em geral, seja quanto aos meios de transporte, seja com relação à saúde corporal. O filósofo e o artista passaram por um progressivo processo de marginalização que culminou em meados do século XIX e perdura até hoje.

Na verdade, o menosprezo das ciências humanas equivale ao menosprezo de todo tipo de conhecimento. O peso dos conhecimentos gramaticais ou dos estudos filosófico-literários na formação de um bom engenheiro ou médico não me parece desprezível, assim como o conhecimento de fenômenos naturais básicos está presente com frequência nas obras artísticas e literárias.

Entre as ciências humanas e as "naturais" ou exatas e biológicas deveria haver certa harmonia e, sobretudo, diálogo. Gostaria de concluir apropriadamente com as palavras do poeta italiano Giovanni Pascoli (1855-1912), que no início do século XX assim definiu as complicadas relações entre a poesia e a ciência: "A ciência pode dizer à poesia: eu trabalhei, mas do meu trabalho não nasceu todo o bem que devia nascer, e também certo mal que não devia, porque você não cooperou comigo. Eu dei o trigo, mas com ele você não fez o pão. Eu colhi as uvas, mas você não as espremeu para fazer o vinho. Eu forneci a verdade, mas com ela você não alimentou as almas. Eu não posso fazer tudo sozinha" (tradução minha).

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