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Eu somos

por Roberto Magalhães

23/05/2020 - 06h00

Nunca fui um só. Dentro de mim, brigam muitos eus. Minha cabeça é um inferno de vozes que se acusam, se estapeiam e na cara se cospem. Basta que algo eu decida, o barraco se arma em seguida, a briga começa, não há jeito de evitar. Uma voz me diz que sim; a outra, que não. Uma ordena que eu faça a loucura agora; a outra que não me atreva! O que de mim irão falar? Sendo plural, não posso dizer "eu sou", mas "eu somos". Erro na gramática, mas acerto no que sou.

Perdido no trevo de mim mesmo, vou enfrentando a selva dos meus eus: um, fiel canino, me lambe festivamente; outro, felino, me odeia e me ameaça; um quer chinelo e repouso; o outro, mulher, cama e cachaça. Um me diz que ainda está no jogo; o outro, que pendurou a chuteira. Com vozes assim tão contraditórias, como reconhecer a cara verdadeira? Conforta-me saber que essa pandemia de vozes está em todas as cabeças. Não estou só, mas em muito boa companhia. O poeta Ferreira Gullar, tentando se traduzir, confessou que uma parte de si "é todo mundo; a outra parte é ninguém, fundo sem fundo". Disse mais: "uma parte de mim pesa e pondera; a outra parte delira." Também Mário de Andrade não deixou por menos e logo se definiu: "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta". O filósofo Nietzsche confirma o mesmo caminho: "não há ninguém que não seja desconhecido de si mesmo".

Assim somos todos, ninguém é um só. Nossa cabeça é um território de batalhas. Nela, ecoam vozes de vários senhores mandantes, todos ditadores arrogantes com espada pronta pra sangrar. O próprio sentimento de culpa mostra-nos um eu acusador que não perdoa ao eu acusado. Só o travesseiro noturno sabe o tamanho do conflito que existe na nossa culpa de pedra.

Como viver em paz se há uma guerra aberta no fundo de cada um de nós? Com tanta gente assim habitando nossa cabeça, inevitável que a confusão se estabeleça. Quero e, ao mesmo tempo não quero, a mão da interdição segura a mão ousada do desejo, às vezes estou com Deus, outras, com o Diabo. Somos assim, ninguém é um só e muito pouco nos conhecemos. Goethe desistiu de se conhecer: "Se a mim me conhecesse, desatava a fugir". Assim caminha a nossa humanidade. O Eu nunca foi senhor em sua morada.

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