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Vai catar coquinhos

por Roberto Magalhães

28/06/2020 - 05h00

Tive que ser duro, possivelmente até grosseiro, com uma "conhecida". Por ser "conhecida", não era amiga, parente, vizinha nem mesmo colega... Não era nada, nenhum grau de aproximação. Ainda assim, ela chegou rindo e me disse na cara: "Vi você na pizzaria ontem. Me chamou a atenção a sua calça listrada brigando com a sua camisa xadrez kkkkkkk". Engoli seco a tijolada. Geralmente, nesses momentos, fico tão perturbado que não reajo, senão com risadinha amarela. Não nesse dia, que a resposta me socorreu em tempo e o troco foi devidamente dado: "Interessante, Mafalda, vou lhe confessar uma coisa: se você estivesse completamente pelada lá na pizzaria, nem assim você me chamaria a atenção!" Horrorizada, ela me olhou como se tivesse visto o capeta e desapareceu. Por motivos óbvios, virou, uma desconhecida minha. Estou me lixando, moça impertinente, vai catar coquinho!

"Impertinente" é a palavra que merece reflexão. "Pertinentia", do latim, significa aquilo que "pertence" a alguém ou lhe cabe. Logo, a pessoa impertinente é aquela que faz o que não deveria, porque tal direito não lhe pertence. Minha mulher vive me dizendo que xadrez e listrado não combinam. E eu, até agora, não fiz questão de aprender. Dito por minha esposa, o comentário é pertinente. Afinal, todas as mulheres do mundo têm o direito de aporrinhar a vida dos seus maridos. Agora, não cabe a uma "conhecida" espinafrar a deselegância de um marido que não é dela!

Não me arrependo. Sei que os religiosos defendem que se deva dar o outro lado da face para novo tapa levar. Não sou religioso nem santo. Comigo bateu, levou! Aliás nem o "olho por olho e dente por dente", que cai justinho nesse caso, me satisfaz. Dependendo do tamanho do cara, estapeio os dois lados da face e, por cima, dou-lhe um pontapé na bunda, bem dado.

O escritor e psiquiatra Francisco Daudt da Veiga conta-nos novo caso pertinente. Mais do que o corte de cabelo, ele apreciava o silêncio do barbeiro que, durante o seu trabalho, nada lhe dizia. Até ler ele podia durante o serviço da tesoura. Um dia, contudo, o barbeiro quebrou o silêncio: "Ih, doutor, o senhor está ficando careca aqui em cima!" Recebeu de volta um olhar fuzilante que lhe fechou a boca para sempre. Ainda que o barbeiro estivesse em posição geográfica privilegiada, ainda que a careca do médico estivesse realmente se alastrando, não lhe era pertinente tal observação. Merecia igualmente catar coquinho.

Quando estudante de direito, fui testemunha de impertinência absurda, revoltante. Enquanto o professor explicava um artigo do Código Civil, uma aluna volumosa virava-se repetidamente para trás, comentando e rindo com a colega sei lá o que da vida mundana. Tanto falava, tanto se mexia, que a cadeira, falseando uma perna, jogou-a no chão. O susto foi do tamanho do barulho provocado. O professor, que era piadista, não perdeu a oportunidade: "É a primeira vez que eu vejo um banco arrebentar por excesso de fundos!" A classe gargalhou, ignorando a moça, humilhada no chão. Professor e alunos impertinentes. Não lhes cabia tamanha maldade. Bem pertinente seria que fossem todos catar coquinhos!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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