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Salve-se quem puder

por Neto Del Hoyo

30/06/2020 - 05h00

Dia desses li em algum lugar que o Brasil era como o Titanic: grande, formoso, mas com um comandante que se nega a ouvir conselhos e navega a todo vapor rumo ao iceberg.

Sem fazer muito esforço, é possível entender a comparação com um governo que abraça seu despreparo e tropeça no próprio orgulho enquanto milhares morrem quase diariamente por uma "gripezinha".

Como não tenho pretensão de tocar violino enquanto o barco afunda, desvio o olhar para a falta de botes salva-vidas para todas as pessoas a bordo. Como no naufrágio mais famoso do mundo, sobrou para a terceira classe, que não conta com saneamento básico nem lençóis de seda e é a que mais sofre o impacto dessa pandemia.

A comparação é válida. Assim como o Titanic era para ser diferente, o governo eleito em 2018 prometia mudar a forma de fazer política no Brasil, mas já viu a o casco abrir com as "rachadinhas" e virou pesadelo nas águas do Atlântico.

E, mesmo vendo o navio na vertical, ainda tem gente que apoia a decisão do capitão. Também não precisa pensar muito para imaginar que, lá na terceira classe, onde a água já está no pescoço, o pessoal já entendeu que não é só uma "rachadinha" e muito menos uma "gripezinha".

Você pode até discordar, achar que o navio não está afundando, mas não pode negar que tem gente morrendo e que as promessas de terra firme já foram por água abaixo.

Infelizmente, brasileiro tem memória curta, não faz questão de lembrar em quem votou e nem no sermão do padre quando "comete o pecado" de apoiar atos preconceituosos ou incitar a violência.

E aí lembro de outro naufrágio, que mostra que nosso problema vem de longa data. Estou falando do Ville de Boulogne, o navio que, em 1864, trazia de volta o poeta Gonçalves Dias após uma temporada na Europa onde ele tratava uma tuberculose. O tratamento não funcionou e ele fez a viagem de volta acamado.

Já na costa brasileira, o navio afundou. Todos se salvaram, menos Gonçalves Dias. No desespero de se safar, simplesmente esqueceram o poeta em seu leito, preso num andar inferior da embarcação.

Numa clara constatação de que a memória do brasileiro é curta, Gonçalves Dias foi esquecido e morreu afogado, provando que não é de hoje que esquecemos o melhor de nós.

O autor é jornalista.

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