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O discurso da rapadura

por Neto Del Hoyo

18/07/2020 - 04h43

De Rondônia, trouxe pouca coisa quando me mudei para São Paulo. Muitas expressões e costumes foram substituídos com o passar dos anos, mas tem coisas que a gente não esquece. Como a certeza de que cupuaçu é muito melhor do que açaí. Mas você não está preparado para essa conversa.

Coisas de rondoniense, ou rondoniano, já que temos o privilégio de suportar dois gentílicos. Portanto, quem nasce em Rondônia, de Porto Velho a Chupinguaia, de Cacaulândia a Seringueiras, é rondoniense e/ou rondoniano(a).

Uma das histórias que trouxe na bagagem e que não esqueço, e que provavelmente você já ouviu, era sobre o rondoniense (ou rondoniano) teimoso. Como quem me contou foi um nordestino, certamente o protagonismo foi adaptado. Muda o santo, mas não o milagre.

Reza a “lenda” que o sujeito, muito guloso, viu um tijolo de cor marrom em cima do balcão do armazém e foi logo pedindo: “Me vê um pedaço dessa rapadura.” Do lado de lá do balcão, o comerciante avisou: “Não, isso é sabão.” O sujeito teimou: “É rapadura, claro que é.” O dono do armazém seguiu alertando: “Não é. Eu que fiz, é sabão.”

A discussão seguiu até que o comerciante se enfezou: “Então, prova!”. Cortou um pedaço do tijolo com a faca e estendeu ao cidadão que comeu com gosto e estufou o peito para dizer: “Que espuma, espuma. Mas que é rapadura, é rapadura.”

Nascia ali a teoria do negacionismo. Pelo menos pra mim, que aprendi que negar a realidade para escapar de uma verdade desconfortável não é uma escolha.

Torçam o nariz os defensores, mas é o que vem fazendo nosso presidente ao tentar abafar com seu discurso inflamado a voz da verdade.

Se a ciência fala que o novo coronavírus é letal, ele diz que não passa de ‘uma gripezinha’. Se estudos comprovam a necessidade do uso de máscaras para evitar a contaminação, o homem que representa a segunda nação mais afetada pela Covid-19 aparece sem ela no meio do povo. Até sobrou tempo para uma vexatória publicidade de um medicamento que, quem realmente entende do assunto, não recomenda. Teimosia pura e simples? Duvido.

O saldo parcial dessa propaganda negacionista são usuários agredindo motoristas de ônibus que cobram uso de máscaras na Grande BH e um aumento de 40% na procura pelo remédio sem eficácia comprovada para o coronavírus.

Para piorar, enquanto uma parcela dos brasileiros compra sabão por rapadura, outra vira estatística: já são mais de 74 mil mortos pela Covid-19. Uma verdade que é desconfortável, mas não há como negar e nem escapar.

O autor é jornalista, colabora com Opinião.

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