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Ignorância

por Gervasio A. Consolaro

28/07/2020 - 05h00

Hoje vamos falar sobre a ignorância, no sentido de que nós sabemos menos do que nós pensamos que sabemos. O escritor Yuval Noah Harari, em seu livro 21 lições para o século 21, descreve sobre o assunto, encontramos em outras pesquisas também, parafraseando e resumindo alguns de seus parágrafos. A democracia fundamenta-se na ideia de que o eleitor sabe o que é melhor, o livre mercado capitalista acredita que o cliente sempre tem razão, e a educação liberal ensinam os estudantes a pensarem por si mesmos.

O pensamento liberal vem depositando muita confiança no indivíduo racional. No entanto, é um erro depositar tanta confiança no indivíduo racional. Economistas comportamentais e psicólogos evolucionistas demonstraram que a maioria das decisões humanas é baseada em reações emocionais e atalhos heurísticos, ou seja, atalhos mentais que usamos para economizar tempo e energia ao emitir julgamentos ou tomar decisões, que nos ajudam bastante, mas pode levar para um caminho errado. São decisões feitas por experiências anteriores, pela aparência e estereótipos, sem aprofundar em pesquisas e informações.

Não só a racionalidade, a individualidade também é um mito. Humanos raramente pensam por si mesmos. E sim, pensamos em grupo. Mas, assim como outros traços humanos que faziam sentido em eras passadas mas causam problemas na era moderna, a ilusão do conhecimento tem suas desvantagens. O mundo está ficando cada vez mais complexo, e as pessoas não se dão conta de quão ignorantes são. Pessoas não raramente contemplam sua ignorância, porque se fecham numa câmara de eco com amigos que pensam como eles e com feeds de notícias (são listas de atualização de conteúdo de um determinado sítio) que se autoconfirmam, fazendo com que as suas crenças sejam constantemente reiteradas e raramente desafiadas.

O buraco negro no poder: O problema do pensamento de grupo e da ignorância individual envolve não apenas eleitores e clientes comuns, mas também presidentes e CEOS. Eles podem estar à disposição das agências de inteligência e muitos conselheiros, mas isso não faz necessariamente com que as coisas fiquem melhores. É muito difícil descobrir a verdade quando você está governando. Você simplesmente está ocupado demais. A maioria dos líderes políticos e grandes empresários estão eternamente atarefados. Se você não pode se dar ao luxo de perder tempo, nunca encontrará a verdade.

Por fim, os líderes ficam presos num dilema. Se permanecerem no centro do poder, terão uma visão extremamente distorcida da vida. Se se aventurarem nas margens, desperdiçarão seu precioso tempo. E o problema só vai ficar pior. Nas próximas décadas o mundo será ainda mais complexo do que é hoje. Consequentemente, indivíduos humanos - sejam peões ou reis -saberão ainda menos sobre as engenhocas tecnológicas, as correntes econômicas e as dinâmicas políticas que dão forma ao mundo. Como observou Sócrates há mais de 2 mil anos, o melhor que podemos fazer nessas condições é reconhecer nossa própria ignorância individual.

O autor é ex-delegado regional tributário de Araçatuba, colabora com Opinião.

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