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Simples assim

por Neto del Hoyo

31/07/2020 - 05h00

Respostas curtas me encantam. Nada melhor que um 'sim' ou 'não' para guiar o rumo da conversa. Até mesmo perguntas que exigem respostas mais elaboradas, por respeito à objetividade das coisas, deveriam começar com 'sim' ou 'não'. Simples assim.

Acontece que nossos ouvidos não estão treinados para a objetividade e muitas vezes condicionamos a simplicidade de um sincero 'sim' ou 'não' com pobreza. Longe disso.

Simplicidade tem mais a ver com precisão e, como já dito, objetividade. Não à toa, até as paredes das faculdades de jornalismo sabem que "escrever é cortar palavras", pensamento atribuído a Carlos Drummond de Andrade, cuja prosa, convenhamos, é exemplo de concisão.

Simplicidade é tirar o dispensável e preencher com o essencial. Por isso gosto das respostas curtas, elas não têm o poder de separar verdades de mentiras, mas diminuem o trabalho de quem tenta decifrar.

Uma das respostas mais bem-sucedidas na história da música completou 40 anos no último dia 25. Em 1980, a banda de rock australiana AC/DC lançava Back In Black, seu sétimo álbum de estúdio. Um clássico que respondeu de forma rápida e objetiva uma série de questionamentos após a morte do vocalista Bon Scott, que partiu cinco meses antes. Com sua capa inteiramente preta, Back in Black (que pode ser traduzido como 'voltando de luto') é uma homenagem a Scott e, ao mesmo tempo, um "seja bem-vindo" ao substituto, Brian Johnson. A transição perfeita.

Quem conhece sabe que o luto da banda dura poucos segundos e foi eternizado nas lentas badaladas de um sino no começo do álbum, o início de Hells Bells, música que abre o disco. Daí até o fechamento com Rock and Roll Ain't Noise Pollution (rock não é poluição sonora), tudo virou sucesso e Back in Black não só foi um dos álbuns de rock mais importantes de todos os tempos, defendendo o gênero numa época em que o pop dava as caras, como também um dos mais vendidos na história. Foram 50 milhões de cópias comercializadas, atrás apenas de Thriller (1982), de Michael Jackson.

Não se trata de simplicidade musical - mesmo que Ramones já tenham deixado claro que três acordes são suficientes para se fazer música. A simplicidade de Back In Black está em sua própria concepção, uma resposta na medida para o que poderia ser o fim do AC/DC.

O recado foi dado: o luto, a homenagem e a página virada com maestria. Aos perfeccionistas que discordam, lembro que há uma diferença entre perfeccionismo e excelência, e a linha que divide essas duas coisas chama-se simplicidade. Pode não ter poesia nenhuma nisso, mas, convenhamos, tem o mérito de ser eficaz.

O autor é jornalista, colabora com Opinião.

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