Bauru e grande região

 
Articulistas

Cidade com bê de Batista

por Alexandre Benegas

01/08/2020 - 05h00

Perdoe-me a gramática. Impensável batistar ser verbo intransitivo. Batistar é transitar. Do fluxo ao fixo, pernas descansam curiosidades torneadas na frente das lojas. Batons gesticulam a moda do momento. Pés cansados palmilham o passeio agitado da quadra cinco. Braços afoitos transportam, na sacola ordinária, desejos baratos, necessidades efêmeras de R$ 1,99. Olhos afoitos buscam, no manequim de vitrine, a roupa que agasalha sua alegria de crediário. Algo capaz de vestir a ansiedade visitante sob medida no cartão. Promessas de dinheiro fácil e rápido agiotam a felicidade visitante.

Batistar é mais que um verbo. Na história de Bauru, é metáfora do ir e vir, alegoria da convivência social. De um lado, o pastor de terno sóbrio e gel alinhador grita sua fé tônica para ouvidos átonos. Alguns param. Ouvem. Outros, cumprem seu papel de passantes. Do outro, uma mulher de olhar lasso e sorriso ambíguo panfleta promessas de cura contra insônia, mau-olhado, amor mal resolvido. Ela obstrui a mensagem messiânica cristã. Um terço de esperanças à escolha de quem elege a Batista sagrada. Alguns metros, um jovem errante, de roupas desobedientes com braços vestidos de ânimo, deita suas miçangas na fuligem da calçada. Suas tatuagens, seu piercing, seu cabelo e barba desgrenhados agridem a imagem limpa, o cabelo em ordem, o penteado exato de quem por ali transita.

Batistar é um atestado de satisfação, quando o que se busca só se encontra lá. Batistar é visitar passados presentes em construções preservadas sob a arquitetura de prédios, em cujas colunas ostentam características dóricas e jônicas, como o glamourizado Automóvel Clube.

Batistar é ver e ser visto. É apaixonar-se, ainda que seja paquera, flerte, olhares fugidios. Batistar é sol, suor no cenho, silvando desassossegadamente do ônibus que tosse na Rodrigues. Batistar é pingado, é pão com manteiga. É o mendigo que maldiga a vida. É a seriedade da conversa distraída. É o silêncio solitário de olhares que adiam alegrias. A Batista tem pressa. Relatórios, contratos, e-mails bebem o café. Nos bares, a cerveja morde a mortadela, que se junta a risadas largas, das sílabas molhadas demitidas despudoradamente em gestos. É o vazio dos pés repleto de calçados. Calçadão.

O autor é membro da Academia Bauruense de Letras e autor de artigos didáticos e ficcionais da Língua Portuguesa

 

Ler matéria completa