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Saudade dos tempos de rebeldia

por Maria América Ferreira

27/08/2020 - 05h00

Uma noite gelada como há muito tempo não acontecia. Um barulho ensurdecedor de escapamentos toma conta das ruas. São eles os intocáveis. Insistentemente, os pensamentos um tanto saudosistas inundam a mente. Saudade dos tempos em que entre os valores passados por gerações incluíam respeito, educação, gentileza, humildade, paciência, caráter, entre outros.

Hoje o que se vê é uma sociedade adoecida e egoísta, onde quase todos são donos da verdade. Uma geração mal educada, que não respeita nada e acha que é o máximo. Jovens que não sabem fazer o Ó com o fundo do copo e se fazem de intelectuais. Uma pobreza de espírito sem precedentes. Um olhar apenas para o próprio umbigo, sem se importar com mais nada. Não se trata de generalizar, mas, considerar a maioria nessa condição.

Caminhando pelas ruas estão robôs, grudados em um aparelho de celular, incapazes de tirar os olhos da tela para atravessar a rua. Eles não sabem por onde andam, não conseguem levantar os olhos e olhar para alguém que também caminha pela rua. Os iguais se entendem. Vivos mortos, ou mortos vivos, tanto faz. É óbvio que vão aparecer os defensores da ignorância dizendo que esse comentário é coisa de velho. Coisa de quem vive no passado ou de quem não evoluiu. Se isso for evolução, certamente, é melhor viver no passado. Que saudades da rebeldia dos anos 70, da juventude transviada, época em que loucos eram os que cruzavam a cidade a pé, passavam por todos os botecos e não incomodavam ninguém. Loucura era sentar na esquina, na sarjeta, e conversar até o dia amanhecer, sem incomodar ninguém. A época era de cultura e contracultura, efervescentes. Quem dera toda loucura fosse assim.

Ah! Os loucos. Só queriam viver em paz. Trabalhavam, andavam a pé, se importavam com os outros. Estudavam e cresciam como pessoas. Ouviam e respeitavam os mais velhos. Pensavam e não se deixavam abduzir por maquininhas. Não se escondiam atrás de um aparelho. Eram loucos. Falavam sobre tudo. Prestavam atenção nas estrelas. Não se deixavam levar pela mídia mentirosa, que rouba sonhos e constrói monstros. Nem engoliam qualquer coisa como arte. Onde foi que tudo se perdeu?

Onde foi que o respeito deixou de ser importante? Para onde foram os valores que realmente transformam um ser, em humano? Aos saudosistas de plantão, só resta torcer para que esse estado de coisas seja apenas mais uma fase da humanidade.

 A autora é jornalista, colaboradora de Opinião

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